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Golpe na Bolívia: direita não tem condições de vencer nas urnas, diz analista

Amauri Chamorro diz que milícias de extrema-direita promovem uma "caçada" a lideranças progressistas, para impedi-las de participar da disputa eleitoral
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
11:09
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reprodução/Telesur

Morales justificou a renúncia como tentativa de parar a perseguição violenta de grupos da extrema-direita

São Paulo – Para o analista e consultor internacional Amauri Chamorro, o golpe de Estado na Bolívia é mais uma demonstração que as forças conservadoras da América Latina não aceitam governos democráticos que escutam as vozes populares. Ele diz não acreditar na convocação de novas eleições livres no país vizinho, que incluam a participação das forças progressistas, como do partido Movimento ao Socialismo (MAS), do presidente Evo Morales, obrigado a renunciar neste domingo (10) após pressão pública da cúpula das Forças Armadas.

“A direita não aceitou a realização de uma nova eleição. E também não quis sequer recontar os votos. Se a direita tivesse capacidade de vencer, teria ido para uma eleição. O que eles querem é impedir a continuidade de um processo de transformação de mais de 12 anos de governo Morales”, afirmou Chamorro ao jornalista Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta segunda-feira (11).

Ele destacou o conteúdo racial e religioso das perseguições contra os indígenas, denunciou o silêncio de organismos internacionais e afirmou que as ações violentas promovidas por grupos de extrema-direita liderados por Fernando Camacho, que incluem agressões, linchamentos, queima de residências e depredações, servem para tentar impedir a participação das forças progressistas em uma eventual eleição e para parecer que a direita tradicional, liderada pelo ex-presidente Carlos Mesa, é a única alternativa.

Para Chamorro, a crise política que desatou no golpe de Estado não tem motivações econômicas, como é o caso das recentes mobilizações ocorridas no Chile e no Equador, já que a Bolívia vem sustentando os melhores indicadores do continente nos últimos anos.

“Infelizmente, há também uma influência muito forte das igrejas evangélicas, apoiando e organizando os seus seguidores. As nacionalidades indígenas têm uma cosmovisão diferente da dos evangélicos, baseados na religião ancestral da crença na Pachamama (Mãe-Terra). Esses grupos tentam combater essa religião ancestral e são vinculados a grupos conservadores que querem estabelecer essa nova ordem vinculada à bíblia cristã, para tentar acabar com essa história de resistência indígena. Por isso estão queimando a Whipala, bandeira que representa as nacionalidades ancestrais da região andina, e que foi oficializada pelo governo Evo como uma das bandeiras do Estado Plurinacional da Bolívia”, destacou Chamorro.

Tabuleiro latino-americano

A eleição de Alberto Fernández, na Argentina, os protestos contra o presidente chileno, Sebastián Piñera, que inclusive foi obrigado a convocar uma nova constituinte, a libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a própria vitória de Evo Morales, ainda que contestada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), são episódios que demonstram o fortalecimento das forças progressistas na América Latina. O golpe na Bolívia é, segundo o analista, uma resposta a esses movimentos. “Nada melhor do que quebrar aquele que melhor representa a América Latina, um presidente indígena”.

Ele também destacou o papel do México, que ofereceu às pessoas que estão sendo alvo de uma verdadeira “caçada” comandada pelas milícias de Camacho. Já são ao menos 20 políticos que estão abrigados na embaixada mexicana em La Paz. O chanceler, mexicano Marcelo Ebrard, também disse que o seu país estaria disposto a receber Evo Morales, bem como os demais bolivianos que necessitem sair do país.

Ouça a entrevista completa