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Brics dos Povos

Às vésperas da reunião da Cúpula do Brics, Brasil vê sua influência minguar sob Bolsonaro

"Brics dos Povos", que antecede reunião do bloco, reúne cientistas e ativistas de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul para discutir política externa e solidariedade entre povos
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
17:19
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(Pixabay)

Primeiro dia do Brics dos Povos tratou de "Imperialismo, geopolítica internacional, o papel dos Brics e dos povos"

São Paulo – Dois dias antes da Cúpula do Brics – que reunirá em Brasília, representantes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, começou hoje (11) o evento “Brics dos Povos”, com a participação de movimentos populares dos países componentes do bloco. Pesquisadores e ativistas falam para a sociedade da Câmara dos Deputados sobre temas como imperialismo, crise econômica, luta popular e solidariedade entre povos.

Entre os presentes, estarão representantes do sindicato dos metalúrgicos da África do Sul (Numsa), do movimento dos dalits (casta mais baixa dos hindus) da Índia, Safai Karmachari Andolan, da Academia de Ciências Russa e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O primeiro dia do encontro começou com a mesa “Imperialismo, geopolítica internacional, o papel dos Brics e dos povos”.

A mesa

O encontro do Brics ocorre em um momento controverso do bloco, especialmente por conta da política brasileira. Após a vitória da extrema-direita, com a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), o país deixou de lado uma política externa independente e altiva para se subjugar automaticamente ao domínio norte-americano. O que a Casa Branca fala, o Planalto e o Itamaraty obedecem.

Esse alinhamento automático “afeta a credibilidade do Brasil”, de acordo com o ex-vice presidente do Banco dos Brics (Novo Banco de Desenvolvimento) Paulo Nogueira Batista Júnior (2015). A ascensão de um governo neoliberal, que carrega como um dos principais objetivos da agenda econômica a entrega do patrimônio nacional ao capital estrangeiro, aconteceu justamente neste ano, em que o Brasil assumiu a presidência temporária do bloco.

“O Brasil, que era um motor dos Brics, se tornou um participante relativamente passivo, com pouca iniciativa", diz o economista - Créditos: Ihsaan Haffejee/New Frame

Paulo Nogueira Batista lamenta a perda de protagonismo do Brasil. (Ihsaan Haffejee/New Frame)

“Na minha opinião, foi mal aproveitada a presidência brasileira no Brics. Foi secundarizada pelo governo. Então, essa reunião de movimentos sociais aqui em Brasília é uma forma de compensar o perfil baixo que o Brasil tem assumido nos governos Temer e Bolsonaro”, disse Nogueira Batista.

O economista lembrou que a criação do bloco e a ampliação da cooperação com a criação do banco possuíam o objetivo, justamente, de ampliar a soberania desses países e a independência de mecanismos internacionais de acesso ao capital como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

“A presidência brasileira do Brics foi apagada, o assunto mal apareceu (…) Isso aconteceu porque o presidente brasileiro, o governo Bolsonaro, escolheu uma política de alinhamento com os Estados Unidos. É lamentável, digo isso sem nenhuma satisfação”, disse.

Esse cenário de subserviência foi exemplificado com uma questão geopolítica recente pelo economista. Na última semana, a ONU realizou uma votação (realizada periodicamente) sobre o embargo econômico contra Cuba. Nunca o Brasil havia votado favoravelmente ao embargo. Apenas dois países votavam, historicamente, contra a ilha caribenha: Estados Unidos e Israel. Neste ano, pela primeira vez, o Brasil aderiu ao grupo, se isolando do resto do mundo.

Vira-latas

“Essa resolução é votada há 27 anos. O Brasil, pela primeira vez votou contra, juntamente com Estados Unidos e Israel – 187 países votaram com Cuba, e dois se abstiveram: Colômbia e Ucrânia. Veja o que isso significa: a Micronésia votou com Cuba, Palau, Tuvalu, São Tomé e Príncipe, Ilhas Maldivas. O Brasil, um dos gigantes do mundo, se alinhou a pedido americano. Nesse episódio vemos a gravidade da situação. A própria relação do Brasil com a China tem sido, não totalmente prejudicada porque a irracionalidade tem limites”, completou Batista Júnior, ao chamar a condução da política econômica externa de Bolsonaro como “a síntese do vira-latismo”.

O deputado-federal Paulo Pimenta (PT-RS), que participou da mesa, também lamentou. “Há uma mudança de protagonismo no Brasil, assumindo não só uma posição subalterna, mas uma posição ativa na defesa dos interesses norte-americanos nas disputas políticas. O governo brasileiro, contrariando uma contradição de quase 30 anos, pela primeira vez, acompanhou voto de Israel e Estados Unidos acompanhando bloqueio à Cuba (…) Somente três votos contra Cuba. Este é o cenário da luta política do país. É neste cenário que realizamos este encontro com profundo significado político”, argumentou.


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