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Celso Amorim: ‘Podemos mudar os piores momentos com determinação’

Em aula pública, ex-chanceler afirmou que "defender soberania não é se enrolar na bandeira apenas, mas não vender a Embraer, não fazer leilão oneroso no pré-sal"
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
17:49
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divulgação

"América Latina deixar de ser o quintal do mundo desenvolvido era algo que não estava nos planos"

São Paulo – Ex-ministro da Defesa (Dilma Rousseff) e chanceler (governo Lula), o diplomata Celso Amorim lotou completamente o auditório do Al Janiah, na região central de São Paulo, na noite de ontem (4). A casa de eventos comandada por palestinos, que abre as portas para o trabalho de refugiados na capital paulista, foi palco de amplo debate sobre política externa. “Mesmo os piores momentos são mutáveis, desde que haja determinação”, disse o ex-chanceler após a exibição de um vídeo sobre a ditadura civil-militar (1964-1985). A censura, a violência de Estado e o autoritarismo típicos daquele período foram estopins para a convocação de Amorim para o debate. Ele, que entrou para a carreira de diplomata em 1964, mesmo ano do golpe, resistiu e ajudou o Brasil, já durante a democracia, a construir um caminho de destaque no mundo por meio de uma política externa “ativa e altiva”, como gosta de dizer.

Da consolidação do Brasil como potência econômica emergente à formação do bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), passando pelo fortalecimento das relações diplomáticas com os vizinhos da América do Sul. Essas são algumas das conquistas de Amorim sob os governos petistas. Sua aula no Al Janiah, organizada pelo Instituto Lula, começou justamente abordando tópicos sobre o continente.

Também participaram da conversa Luiz Dulci, ex-ministro da Secretaria de Governo de Lula, diretor para a América Latina do Instituto Lula, e Tamires Sampaio, jovem liderança que despontou como a primeira presidenta mulher e negra do Centro Acadêmico de Direto da Universidade Mackenzie, e trabalhou na Iniciativa África do instituto, assumindo em 2017 como diretora da instituição. “Pra gente, é muito importante discutir a América Latina e organizar esse tipo de evento, pra mostrar que a gente continua resistindo.”

A questão latino-americana

“Falam muito das capas da revista The Economist. Teve uma capa muito famosa sobre o Brasil, com o Cristo Redentor decolando como um foguete aos ares, para ilustrar o crescimento do Brasil em 2009″ , lembra Amorim. “Teve uma capa mais significativa, em 2010, um mapa do continente americano todo de ‘cabeça para baixo’. Um mapa é apenas uma convenção. O título da capa era: A Ascensão da América Latina: Não é mais o quintal de ninguém“, relata.

Para o diplomata, aquele movimento foi o começo da queda dos movimentos democráticos no continente, o que acabou provocando a “onda” de direita, com Jair Bolsonaro, no Brasil, Mauricio Macri, na Argentina, Sebastián Piñera, no Chile, além de investidas golpistas por todos os países.

Amorim explica: “Tem relação com o Estado profundo norte-americano. As pessoas da NSA que espionaram a Dilma e a Petrobras, o Departamento de Estado, talvez até algum membro do capital financeiro. Eles viram aquele mapa e pensaram que tinha alguma coisa errada. A América Latina deixar de ser o quintal deles era algo que não estava nos planos. Somos para eles um quintal, no sentido que não estamos diretamente nas áreas de disputa. Com a exceção de Cuba e por um tempo do Chile, fomos o quintal deles”.

O confronto ao poder externo absoluto e consolidado dos Estados Unidos foi a razão, então, para as investidas políticas recentes na América Latina. O ex-chanceler critica a política externa de Bolsonaro,  abertamente alinhada aos Estados Unidos, deixando de lado os interesses nacionais. Em reunião da Assembleia-Geral da ONU, por exemplo, Bolsonaro esperou pelo presidente norte-americano Donald Trump durante um grande tempo, em um corredor. Depois disso, soltou a frase que deixou todos os brasileiros patriotas com arrepios e bochechas rosadas, em um misto de vergonha e lamento. “I love you”, disse Bolsonaro a Trump, que não retribuiu o “carinho”.

“O que existe hoje no governo é uma total anormalidade. Não é só ser de direita. O Brasil vive um período anormal. O que me choca na grande mídia é que a anormalidade é vista com normalidade, até quando critica. Na parte internacional, nunca houve no Brasil quem atacasse a mulher no presidente da França, o pai da alta comissária de Direitos Humanos da ONU, e, em contrapartida, que afirmasse estar apaixonado pelo presidente dos Estados Unidos”, disse.

“Vamos levar muito tempo para recuperar o que está acontecendo pela passividade da nossa elite vendo isso (…) Nunca um presidente brasileiro disse que não visitaria a posse de um presidente da Argentina”, afirma, ao lembrar da vitória do kirchnerista Alberto Fernández. “Me impressiona também a falta de reação da Fiesp (…) às pressas eles soltaram uma nota falando da importância da América Latina”, completou.

A Argentina é um parceiro estratégico da economia brasileira, o que também foi ressaltado por Luiz Dulci. “A integração da América Latina é uma necessidade. A maneira de tratar a Argentina que o governo está tendo, além de ser profundamente desrespeitosa com o povo, ela é ruim para o Brasil. A Argentina é um dos nossos principais parceiros comerciais e um dos poucos países do mundo para os quais o Brasil vende produtos industrializados. É o principal mercado. Não vendemos esse tipo de produto para os Estados Unidos, mesmo para a Ásia. Quem compra os produtos industrializados do Brasil são os países latino-americanos.”

Capas do The Economist citadas por Amorim

Soberania é responsabilidade

Ao mesmo tempo em que se submete ao domínio de grandes potências, a cúpula do governo Bolsonaro abusa do uso de símbolos nacionais, como a bandeira e a idolatria ao exército. Uma falsa soberania, avalia Amorim. “Soberania não é liberdade para matar e desrespeitar normas internacionais ao qual se aderiu livremente. Não é liberdade para desrespeitar direitos humanos, queimar floresta, para discriminar. Soberania é ter responsabilidade por um território. Com Lula e Dilma, exercemos a soberania plenamente com responsabilidade.”

O ex-ministro falou ainda da Amazônia. “Ela é brasileira, mas temos que tratá-la com respeito em benefício da nossa população, respeitando os interesses do mundo”. O clima é global. A responsabilidade é nossa”, disse, em referência aos ataques bolsonaristas contra críticos de sua política que, ao privilegiar madeireiras, mineradoras e o agronegócio, provocou uma ampliação massiva do desmatamento e dos incêndios florestais.

Um dos principais foi o presidente francês, Emmanuel Macron, que chegou a propor uma internacionalização do território amazônico. “Não está correto também, mas não é na ofensa que se trata esse tema”, afirmou Amorim.

Por fim, o ex-chanceler citou algumas ações de respeito à soberania nacional. “Não é se enrolar na bandeira apenas. É não vender a Embraer, não fazer um leilão oneroso no pré-sal. Privatizar é mentira, estão desnacionalizando. Nenhuma empresa brasileira vai comprar essas coisas. Se houver privatização da Petrobras, não será a Gerdau que vai comprar. Este momento é dramático”, lamentou.

“Não temos possibilidade de ter um verdadeiro desenvolvimento com equidade social, com autonomia, se não for com o conjunto da América do Sul e Latina. Não será fácil, sempre haverá reação. O capital financeiro sempre está pronto para contra-atacar. Eles não dão um tiro. Eles usam de setores importantes da elite que, fatalmente, são agências de televisão também”, concluiu.