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Apaixonados pelo Maraca questionam reformas e privatização do estádio

por Ciro Barros, para a Pública publicado , última modificação 08/06/2012 13h29

Rio de Janeiro – O Maracanã ainda é o nosso Maraca? A pergunta martela a cabeça do torcedor acostumado a frequentar “o maior do mundo” e que assiste aflito às reformas que transformam o estádio para sediar a Copa do Mundo de 2014. O futuro do estádio mais querido do Brasil também inquieta a torcida, depois da decisão do governo do Rio de entregá-lo à administração privada pelos próximos 20 anos.

Não é a primeira vez que o Maracanã muda de cara – essa é a terceira reforma em treze anos – mas agora os setores populares da arquibancada perderam espaço. Desde abril de 2005, quando o estádio foi fechado para a reforma dos Jogos Panamericanos, a geral, o tradicional espaço popular do estádio, foi extinta e o campo rebaixado um metro e meio. No novo projeto, é preciso espremer os olhos para procurar os lugares populares.

Por isso, há alguns dias, torcedores e movimentos sociais integrantes da campanha “O Maraca é nosso”, realizaram um apitaço em frente ao prédio do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, com a intenção de garantir assentos em setores populares e barrar a privatização do estádio, enquanto o Brasil era derrotado pelo México, por 2 a 0.

Cobiçado pela iniciativa privada, o estádio, que foi construído e sucessivamente reformado com dinheiro público, é alvo do onipresente Eike Batista, depois que a Delta Construções, de Fernando Cavendish, amigo pessoal de Cabral, teve que deixar o comando da empresa após denúncias de envolvimento nos esquemas de corrupção de Carlinhos Cachoeira, preso pela Polícia Federal. Em seu blog, o jornalista Juca Kfouri, deu detalhes da transação: “A empresa IMX, de Eike Batista, foi a única a apresentar estudo de viabilidade econômica para assumir o controle do estádio. Dados do TRE confirmam que Eike Batista doou 750 mil à campanha de Sergio Cabral ao governo do estado, em 2010; segundo o jornal Folha de S. Paulo, o empresário anunciou ainda a doação de cerca de 139 milhões a projetos de interesse de Cabral”.

O volume de dinheiro público já investido na polêmica reforma reforça o questionamento sobre a privatização – $ 808 milhões de reais, de acordo com o último balanço do Governo Federal. Somadas às anteriores – para o Mundial de Clubes da Fifa foram, à época, R$ 106 milhões de reais, e para os Jogos Pan-Americanos de 2007, R$ 304 milhões, já com a justificativa de adaptá-lo às exigências da Fifa para a Copa 2014. Somando as três reformas e atualizando os valores, R$ 1,442 bilhão de reais saíram dos cofres públicos para essas obras, segundo levantamento feito pelo jornalista João Carlos Assumpção em conjunto com o economista Francisco Pessoa.

Tudo isso sem debater com a sociedade os rumos das mudanças que atingem o estádio mais querido do Brasil, mesmo fora do Rio de Janeiro: o Maracanã é um patrimônio histórico, arquitetônico e cultural brasileiro – cuja cobertura é inclusive tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Por isso o Copa Pública reuniu um time de aficionados pelo estádio para falar sobre sua relação com o “maior do mundo” e o que pensam dessa situação. Dos jornalistas esportivos como Mauro Cezar Pereira e Lúcio de Castro ao geógrafo norte-americano e membro da Associação Nacional de Torcedores (ANT), Chris Gafney, passando pelo capitão da mítica Seleção Brasileira de 1970, Carlos Alberto Torres, e o integrante do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas que participou do apitaço em frente à casa de Cabral Gustavo Mehl. Sem esquecer de entrevistar um torcedor que mostra a que ponto chega a paixão pelo Maraca: Luiz Antonio Simas, mestre em História Social pela UFRJ, que escolheu seu primeiro apartamento pela proximidade do estádio, tamanha sua afeição.

Amor

“A minha relação com o Maracanã é intensa e cheia de boas lembranças”  diz de cara o ex-jogador Carlos Alberto Torres. “Foi onde eu joguei profissionalmente pela primeira vez, no Fluminense, em 63, onde conquistei meu primeiro título profissional como jogador (64) e como treinador (83). E é também o lugar onde eu fiz a minha estreia na Seleção Brasileira. Só me traz boas lembranças”.

Do outro lado, na arquibancada, o historiador apaixonado Antonio Simas sonhava com o dia em que iria morar perto do Maraca: “O Maraca é uma referência de infância, das minhas relações de afeto familiar. E lá eu vi os jogos mais inacreditáveis. Até pelada de garçom eu vi no Maracanã”, define. “Quem mora aqui no Rio procura um apartamento próximo à praia, mas com sinceridade um dos critérios que eu usei para comprar um apartamento foi ele ser perto do Maracanã.”

Já para os jornalistas Lúcio de Castro e Mauro Cezes Pereira, trabalhar com esporte foi consequência de um amor quase religioso ao estádio: “Mal comparando, era a igreja que eu frequentava nos fins de semana. Eu tenho amigos até hoje que conheci no Maracanã, na arquibancada, na geral …”, explica Mauro Cezar. Lúcio de Castro completa: “O Maracanã encerra alguma das minhas maiores lembranças. Tardes de domingo, o ritual da passagem com o pai, os bons amigos juntos, um dos mais caros pedaços de minha identidade e memória. A síntese de uma cidade que é a formadora da minha alma e identidade.”

Gustavo Mehl, do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, vai além e diz que se não fosse o Maracanã, hoje seria uma pessoa bem menos interessante: “Eu e alguns amigos costumamos dizer que somos formados no estádio de futebol. Nas arquibancadas do Maraca dividi espaço e me relacionei com o mais pobre e o mais rico, o mais velho e o mais novo, reconheci pessoas e atitudes amigáveis e outras desprezíveis. Ali tive lições incríveis sobre nossa cultura e nossa forma de se comunicar, se relacionar, criar vínculos. Foi no Maracanã e em São Januário, não tenho dúvidas, que aprendi a me identificar como brasileiro, como carioca, como torcedor, como vascaíno, como pessoa. Como o filho do meu pai, meu companheiro no estádio. Se não fosse o Maracanã, hoje eu seria outra pessoa, certamente bem menos interessante”.

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