Pela vida

Professores do país prometem greves contra volta às aulas presenciais

No Rio de Janeiro, professores das escolas estaduais e municipais estão paralisados; a categoria rejeita voltar às atividades ante o atual estado da pandemia

Marcelo Camargo/ABr
Riscos de uma eventual volta às aulas são grandes e situação de vulnerabilidade das crianças poderia ser enfrentada de outras formas

São Paulo – Há muita incerteza quanto à volta às aulas presenciais nas redes municipais e estaduais de todo o país. Entre os professores, a certeza é de que não retornarão às escolas durante a pandemia. O respaldo vem de autoridades de saúde, que alertam para os riscos diante da falta de controle do coronavírus no país, com a curva ascendente de contágio pela covid-19 e aumento no número de mortes em muitos estados. A estabilidade em algumas localidades se deu em patamares muito elevados.

Os professores da rede municipal do Rio de Janeiro entraram em greve na segunda (3). A partir de hoje (4) são os da rede estadual. A decisão foi tomada em assembleia virtual na sexta-feira e no sábado, pelo Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do RJ (Sepe) e pelo Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio), respectivamente.

“O Sinpro-Rio, desde o início da pandemia, tem se pautado no respeito à ciência. Estamos ao lado dos professores e professoras, dos pais e responsáveis, dos estudantes e de toda comunidade escolar no compromisso pela defesa da vida. A Organização Mundial da Saúde já apontou o Brasil como um dos países no epicentro da pandemia”, diz nota da entidade sobre a volta às aulas.

“A Fundação Oswaldo Cruz tem trabalhado para criar parâmetros no combate à covid-19 e alerta para os riscos da flexibilização do isolamento social. A ciência é o único farol que nos norteia neste momento triste e nebuloso. Negá-la é contribuir para o aumento substancial de mortes. Não há como retornar às aulas presenciais fechando os olhos para o que a ciência vem nos alertando: a ausência de testes em massa e a flagrante subnotificação de dados denunciam que o nosso município não está em curva decrescente na evolução da epidemia.”

Greve se for preciso

Para a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), o importante nesse momento é salvar vidas, que não podem ser recuperadas como as aulas. Por isso, está orientando seus sindicatos até a fazer greve, se for preciso.

“Estamos orientando todos nossos sindicatos de base, que representam mais de um milhão de trabalhadores e trabalhadoras da educação, que façam greve se for preciso salvar vidas”, disse o presidente da entidade, Heleno Araújo.

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial no Estado de Paulo (Apeoesp) está alinhado com a diretriz sobre a volta às aulas. Em entrevista a Rafael Garcia e Nahama Nunes, no TVT Brasil, a presidenta da entidade, Maria Izabel de Azevedo Noronha, a Bebel, disse que é uma irresponsabilidade pensar em retorno diante da crise sanitária. “Não se pode considerar normalidade uma curva estagnada no alto. A flexibilização leva a números estratosféricos. Se as aulas voltarem, os professores não voltam”, disse.

Segundo ela, a questão não é perder o ano. E sim perder a vida. Dos professores na ativa, 16% têm mais de 60 anos – o que os coloca no grupo de risco. Além disso, é muito difícil seguir protocolos em escolas com turmas superlotadas. “Mesmo que reduzam para 15 alunos por sala, há necessidade de ventilação e iluminação adequadas. E há muitas escolas precisando de reforma”, destacou Bebel.

Argumentos dos professores

Entre os argumentos dos professores, que em muitos estados têm conseguido barrar a volta às aulas presenciais, está o aumento de casos de infecção pelo coronavírus após a reabertura da economia prematura. Em localidades onde a pandemia estava aparentemente controlada, como São Paulo, houve aumento de 74% nos registros. Em Salvador, a ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs) subiu para 75% depois de reabertura. A pressão sobre governos e a população vem do setor privado. Os donos de escolas particulares temem perder seus alunos.

Levantamento do site Poder 360 mostra que não há previsão de retorno nos estados de Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Sergipe e São Paulo.

No Paraná, o governador Ratinho Junior (PSD) anunciou o retorno gradual das atividades em setembro. Mas a divulgação, pela Secretaria da Saúde, de mais um recorde de mortes pela covid-19 no estado, fez a Secretaria da Educação recuar.

Liminar contra volta às aulas

Em Minas Gerais, o governador Romeu Zema (Novo) publicou norma para o retorno do setor administrativo e magistério em abril, logo depois da primeira morte pela covid-19. O Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais (SindUte) conseguiu uma liminar para a suspensão da volta.

“Estamos acompanhando e qualquer movimentação neste sentido a gente não vai permitir, porque aqui no estado a pandemia tem se interiorizado em 80% dos 853 municípios”, disse a coordenadora-geral do SindUte, Denise de Paula Romano, à CUT Nacional. “E o governador tem alterado os critérios para as mudanças de fases no isolamento social mesmo com o crescimento do número de casos e mortes.”

No Rio Grande do Norte, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no estado (Sinte-RN) tem debatido com a governadora, Fátima Bezerra (PT), o retorno somente quando houver segurança sanitária. Para o sindicato, as aulas presenciais não devem voltar este ano. As escolas devem ser retomadas nas 167 cidades só quanto houver vacina.

Redação: Cida de Oliveira