Referência ameaçada

Cefet-RJ: após um ano de intervenção, pressão por volta às aulas e por EAD

Cefet-RJ é símbolo de ingerência pelo governo Bolsonaro e está no centro da discussão sobre fim do isolamento, volta às aulas e ensino a distância (EAD)

twitter/reprodução
A intervenção antidemocrática no Cefet motivou uma série de protestos do corpo acadêmico e também dos alunos

Rio de Janeiro – Reconhecido por seu ensino de excelência e referência nacional na formação técnica profissional de jovens, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, mais conhecido como Cefet-RJ, é hoje um dos maiores símbolos da interferência antidemocrática nas universidades e institutos tecnológicos federais levada a cabo pelo governo Bolsonaro. Um ano de intervenção do Ministério da Educação, a ser completado em agosto, põe o Cefet-RJ no centro da discussão sobre fim do isolamento social, volta às aulas presenciais e a relevância do ensino a distância (EAD) durante a pandemia de covid-19.

Nos últimos dias, subiu a temperatura na panela de pressão que opõe a comunidade acadêmica ao diretor pro tempore Marcelo de Sousa Nogueira. Isso aconteceu depois que os professores receberam um ofício da Direção de Ensino (Diren) do Cefet-RJ solicitando a cada colegiado da instituição um plano de trabalho remoto para a retomada do ano letivo. A decisão da direção intervencionista atropelou as discussões que vinham sendo travadas pelo corpo docente em outras instâncias internas, como o Conselho do Departamento de Ensino Médio e Técnico (Condmet) e o Conselho de Ensino (Conen), e desagradou em cheio os professores.

Segundo os docentes, uma reunião do Condmet realizada em 30 de junho debateu e encaminhou a discussão sobre a viabilidade de atividades remotas de ensino para cada disciplina: “A Diren ignorou completamente as comissões designadas em maio no âmbito do Conselho de Ensino, que é responsável por elaborar estudos que visem ações junto aos cursos de ensino médio integrado e da graduação do Cefet-RJ por ocasião da pandemia de covid-19”, diz a professora Elika Takimoto.

Interventor do Cefet-RJ

O ofício chegou aos destinatários em plena reunião do Conen, fato que aumentou a indignação geral: “Houve desrespeito em relação aos debates e reuniões que já estavam sendo travados e houve nitidamente uma decisão autoritária, completamente monocrática, com o intuito de definir as modalidades de ensino que poderão ser implantadas. Foi uma explícita tentativa de impor um calendário de retorno do ensino”, avalia Elika.

A pressão da direção intervencionista pela aceitação ao EAD atingiu também os estudantes do Cefet-RJ. Na terça-feira (7), Marcelo Nogueira enviou ofício ao Grêmio Estudantil para “solicitar esclarecimentos” dos alunos, “com vistas a subsidiar esta Direção Geral em resposta a ser encaminhada ao Ministério da Educação” sobre as aulas on-line. No documento, que determinava um prazo de somente dois dias para a resposta do grêmio, consta uma denúncia feita na ouvidoria do MEC. “Vejo no WhatsApp de turma mensagens de grêmios estudantis pedindo para os alunos preencherem as pesquisas dizendo não ao EAD. Acho isso uma covardia.”

A denúncia afirma que os estudantes estão sendo manipulados politicamente: “Trata-se de manipulação desses menores que, obviamente, em sua maioria, não têm responsabilidade. Se fosse para discutir seriamente a questão, entrariam em contato com os pais para entender as particularidades de cada aluno. Para os que têm acesso à internet, haveria EAD. Para os que alegassem não ter acesso, haveria material impresso, o qual o responsável deveria buscar na escola e devolver em data previamente estipulada. Há soluções. O que não estou percebendo é vontade de resolver a educação desses alunos”, escreveu o atual diretor.

Coação sobre os alunos

“A forma como o diretor pro tempore está conduzindo essa denúncia demonstra uma tentativa de coagir o movimento estudantil. O interventor está responsabilizando o Grêmio pela demora da aplicação de um trabalho remoto, sendo que já foram apontadas aqui a incompetência e a confusão nessa gestão que, mesmo antes da pandemia, não era capaz de conduzir o Cefet-RJ de uma forma que conseguíssemos produzir como sempre fizemos. Conselheiros, professores, técnicos administrativos e estudantes estão lidando com um desgaste emocional muito maior do que já seria se tivéssemos que enfrentar diretamente e somente os problemas reais dessa pandemia”, diz Elika Takimoto.

No dia 3, os diretores de campus das unidades do Cefet-RJ no bairro carioca de Maria da Graça e nos municípios de Angra dos Reis e Nova Friburgo foram dispensados, por e-mail, pela direção intervencionista. Eles se juntam à diretora do campus de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a primeira a ser dispensada. “A prova de que não podemos confiar na atual direção geral é que, após a repercussão negativa da exoneração da diretora do campus Nova Iguaçu, Marcelo Nogueira declarou à imprensa que não haveria mais trocas de diretores de campus. Vimos, assim, que a palavra falada e repetida dois dias depois numa reunião do Conselho Diretor não foi cumprida e não é digna da nossa confiança”, diz a professora.

As demissões viraram rotina no Cefet-RJ desde que o então ministro da Educação acatou a contestação da chapa derrotada nas eleições democráticas para a direção da instituição realizadas em abril do ano passado. Na ocasião, Abraham Weintraub determinou a intervenção e a realização de uma sindicância interna. No entanto, nem mesmo o arquivamento da sindicância, em maio, foi suficiente para que Maurício Motta, diretor geral eleito pela comunidade acadêmica, assumisse. O resultado da sindicância permanece obscuro, apesar dos pedidos de vista feitos pela Associação de Docentes do Cefet-RJ e pelo Ministério Público Federal.

Tradição democrática

Em nota, o Ministério da Educação afirma que “o diretor pro tempore estará à frente da instituição até que seja concluída a análise do processo de escolha do cargo de diretor geral, o qual estava suspenso em razão da sindicância que se encontrava em curso”. O ministério diz ainda que “o atual gestor tem a prerrogativa para designar diretores em todas as áreas do Cefet-RJ”. Derrotado nas eleições democráticas de abril, Sérgio Roberto de Araújo, segundo os professores do Cefet-RJ, é próximo ao interventor e a parlamentares do Pros, partido do Centrão que agora dá sustentação ao governo.

Ex-diretor geral do Cefet-RJ, o professor Carlos Henrique Alves afirma que a gestão anterior à intervenção se destacou pela criação de diversos conselhos e consolidação dos campi. “E pela eleição direta para diretores, pelo respeito aos servidores e pelo projeto de capacitação dos servidores administrativos, sem discriminação quanto à classe de ingresso”.

Alves observa que o Cefet-RJ se destacou no ensino, na pesquisa, na extensão, sendo reconhecido internacionalmente. “Seja pela qualidade da sua equipe de dirigentes e servidores, professores e administrativos, seja pela qualidade de seus alunos. Contra fatos não existem argumentos.”

Alves ressalta que a intervenção interrompeu uma tradição democrática no Cefet-RJ, que era respeitada pela gestão anterior. “A gestão discutiu de forma ampla a expansão de todos os cursos implantados nos últimos anos, indo presencialmente em cada campus escutar os servidores. Essa gestão fazia reuniões periódicas em todos os campi com a presença de toda a comunidade”, diz.

Elika Takimoto resume a situação da centenária instituição em um pedido: “Pedimos, para além de socorro, que as leis sejam respeitadas e que o professor que elegemos de forma democrática para diretor geral, Maurício Motta, seja nomeado. Para que possamos, ao menos, trabalhar com dignidade e com uma gestão que nos respeite e que se dê o respeito. A intervenção está acabando com a dignidade do Cefet-RJ”.

Edição: Paulo Donizetti de Souza


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