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Panorama social

Ana Estela Haddad: governo tem conceito muito errado de que educação é gasto

Professora da USP e gestora de políticas públicas avalia coleção de índices negativos do ensino escolar e o desmonte promovido por Bolsonaro
Publicado por Clara Assunção
14:33
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Ricardo Stuckert

Dados recentes mostram que o Brasil vem diminuindo recursos na educação que é ainda um retrato da desigualdade do país. Ana Estela Haddad analisa situação na Rádio Brasil Atual

São Paulo – Os gastos não-obrigatórios em educação, em 2018, foram os menores da última década, tendo o governo federal investido R$ 1 bilhão a menos do que em 2008, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado nesta quinta-feira (27). Uma queda nos investimentos de despesas como manutenção de instalações, contas de luz e de água, salários de funcionários terceirizados, consideradas dispensáveis pela lei, mas que, na prática, fazem falta nos ambientes educacionais.

A educação pautou, também nesta semana, outro índice negativo do país. Dados do Anuário Brasileiro de Educação Básica de 2019 revelaram diversos aspectos da desigualdade no setor entre os mais de cinco mil municípios, com 43% deles gastando menos do que o mínimo considerado satisfatório.

Em baixa com os indicadores, é o governo federal que fica em xeque, como destaca a odontopediatra, Ana Estela Haddad, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual. Professora da Universidade de São Paulo (USP) e gestora de políticas públicas relacionadas à educação e à saúde, durante os mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Ana Estela cobra a participação da União no setor educacional que, já em constante queda, vem sendo ainda mais minimizado pelo governo de Jair Bolsonaro.

“Tem um conceito muito errado que é esse governo considerar que a educação é gasto. Educação é o melhor investimento que um país pode fazer para o seu povo, para o seu desenvolvimento social, econômico, de todas as naturezas, isso está comprovado”, afirma a docente.

A cobrança de Ana Estela sobre a participação do governo federal na educação vai na mesma direção de diversos especialistas. Reportagem da Rádio Brasil Atual ressalta a importância de melhorar os mecanismos de distribuição dos recursos para garantir investimentos em todas as localidades. “Se o governo federal não sinaliza e não mostra, mesmo você dando independência para os entes federais, dificilmente você vai conseguir de forma mais ampla e geral que haja um pacto nacional pela educação”, explica a professora.

O curso da desconstrução de políticas públicas 

Companheira do ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad, Ana Estela é uma das idealizadoras do programa que concede bolsas de estudos para jovens de baixa renda acessarem instituições privadas de ensino superior, o Programa Universidade para Todos (ProUni), sendo também conhecida pelo seu entusiasmo frente à novas modalidades de ensino, entre elas, a polêmica educação à distância.

A professora analisa que a regulamentação desse tipo de ensino é positiva, no sentido de que a mediação pela tecnologia é quase como uma “necessidade incontornável”, mas critica a ampla oferta que é feita da modalidade, expandindo da educação superior para a básica.”Um adulto pode ser totalmente autônomo no seu processo de ensino e aprendizagem, desde que isso seja bem construído e planejado pedagogicamente, do que uma criança que está no ensino fundamental em que o processo educacional que, nesta fase da vida envolve muitas outras coisas”, avalia citando como exemplo a socialização e também o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que vem sendo alvo do governo Bolsonaro.

“Há processo de desconstrução das políticas públicas bem sucedidas que está em curso”, lamenta Ana Estela sobre o desmonte da iniciativa que levou alimentação saudável às crianças a partir de produtos orgânicos produzidos pela agricultura familiar. “A sociedade precisa estar atenta, precisa conhecer o que nós fizemos para que isso não seja desconstruído e represente um risco à saúde da população e das crianças, que não têm autonomia, precisam do adulto para protegê-las.”

Ouça a íntegra da entrevista