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Eleições 2018

‘Eu sou alvo desse cara. Minha esperança é você’, diz mulher negra a Haddad

Durante encontro com movimentos de cultura na periferia de São Paulo, candidato ouve relatos de gratidão por políticas públicas dos governos do PT, e manifestações de medo do 'risco' Bolsonaro
Publicado por paulodonizetti
20:26
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Ricardo Stuckert
Haddad na Cohab Raposo Tavares

Moradores da Cohab Raposo Tavares em reunião com Haddad. E o abraço de Regiane, que terminará curso na PUC

São Paulo – Estudante de Serviço Social, Regiane Nezia da Silva, está nos últimos meses para concluir o curso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 2019, quando já estiver formada, torce com todas as forças para que o presidente diplomado nas eleições 2018 tenha sido o candidato do PT, Fernando Haddad. “Aos 39 anos, mulher negra, mãe solteira, sou uma sobrevivente. Meu filho de 20 é um sobrevivente. E sei que num governo do outro (Bolsonaro) eu sou o alvo, nós somos o alvo. Minha esperança é você”, diz Regiane ao microfone, digirindo-se a Haddad.

A quase-formanda da PUC chegou à Cohab Raposo Tavares, periferia oeste da capital paulista, no início dos anos 1990. O terreno onde antes funcionava um lixão a céu aberto foi cedido pela gestão da então prefeita Luiza Erundina para um projeto de habitação popular erguido em regime de mutirão. O bairro passou por um processo de revitalização na administração Haddad.

Antes, ao longo dos anos 2000, Regiane viu a gente da comunidade descobrir o papel de políticas públicas para além da habitação. Viu parentes e amigos trabalhando, alguns com cultura, outros escolhendo uma carreira profissional graças às políticas de acesso à universidade.

“O pessoal foi aproveitando as oportunidades e um ia puxando outro. Minha irmã se formou em Serviço Social também, depois fui eu. Ao mesmo tempo, a galera aqui começou a entender o que era cultura, porque um governo olhou pra gente”, lembra, mencionando projetos de incentivo à cultura nas periferias gestados a partir do comando de Gilberto Gil no Ministério da Cultura.

O acesso à cultura e a formação superior marcou de maneiras diferente a vida do educador Felipe Valentim Bonifácio, 32 anos, e a do rapper e produtor Evandro Fióti – irmão do também rapper Emicida.

Ricardo StuckertHaddad na Cohab
Haddad mostra a ‘arma’ – o crachá – do jovem educador Felipe, formando na Universidade Federal de Guarulhos

Felipe, graças a uma boa nota no Enem e ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), se formou em Pedagogia na Universidade de Federal de São Paulo, em Guarulhos. O programa foi criado em 2007 na gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação.

“A minha arma é esta aqui. Isso aqui eu devo a você”, disse o professor, ostentando seu cartão de identificação como educador social e ao mesmo tempo criticando o discurso belicista de apoiadores de Jair Bolsonaro. “Hoje eu não preciso mais do governo. Aproveitei minha oportunidade e me formei. Mas sei que muita gente ainda precisa. É por isso que estamos aqui.”

Fióti por sua vez contou que até chegou a ser aprovado na faculdade, mas nem começou. “Foi no exato momento em que comecei a montar minha empresa e não tinha como fazer as duas coisas naquele momento. Mas de certa forma, foi a visão de inclusão dos governos Lula e Dilma que possibilitaram que eu me tornasse um empreendedor”, disse. 

“Possibilitaram que eu, um jovem negro da periferia, venha aqui hoje na sua frente e diga para vocês: através do hip hop e da cultura a gente emprega mais de 100 pessoas por mês. São mais de 100 famílias que dependem daquilo que os nossos artistas produzem”, comemorou Fióti. “E a gente só consegue existir e levar comida para mesa dessa gente porque a gente aprendeu uma coisa muito cedo com o hip hop, que é o black business. A gente faz o dinheiro circular nas mãos nos negros. A gente faz com que o dinheiro que a gente recebe volte pras famílias que vêm do mesmo lugar que a gente vem.”

Segundo o rapper, resistir numa sociedade preconceituosa e racistas é um gesto político. “Se você nasce num corpo negro, e graças a Deus eu nasci, sua vida é resistir.”

Armas

Fernando Haddad voltou a criticar com veemência o discurso e a postura violenta dos adversários e suas teses de “armar cidadãos de bem” para que se defendam. “A melhor defesa das pessoas são o livro e a carteira de trabalho assinada”, repetiu.

Haddad lamentou a paralisia do programa Minha Casa Minha Vida e afirmou que seu plano de governo terá como meta terminar os quatro de governo com 2 milhões de casas entregues, tendo como prioridade a construção em áreas com infraestrutura e próximas a localidades em que as pessoas tenham acesso ao trabalho.

O presidenciável petista voltou a cobrar enfaticamente a presença de Jair Bolsonaro (PSL) nos debates televisivos. “Eu lamento, porque alguém que queira presidir o país tem que apresentar um projeto para o país. Tem que passar pelo crivo do debate, do contraditório, inclusive para esclarecer o que ele vem dizendo para pleitear a Presidência da República”, disse.

Haddad se dirigiu à estudante da PUC Regiane Nezia da Silva. “Eu gostaria de pedir desculpas a você pela fala do meu adversário, quando disse que filho dele não se casaria com uma mulher negra por ser educado”, disse Haddad.

“Um homem com esse pensamento não tem condições de ser sequer vereador, quando mais presidente da República. Um político que diz uma coisa dessas pode ser classificado como o pior dos 513 deputados no país”, criticou.

Assista ao diálogo com Haddad na Cohab