MEMÓRIA E LUTA

Livro conta a trajetória do Movimento Negro Unificado no Brasil

Dividido em duas partes, livro mostra fundação do movimento e sua história contemporânea

Fátima Ferreira/REPRODUÇÃO
Ieda destaca a foto de Fátima Ferreira, em um ato do MNU, no Viaduto do Chá, em 1979, onde uma manifestante se divide entre a luta e a maternidade

São Paulo – O livro Movimento Negro Unificado – A Resistência nas Ruas, organizado em parceria com o Sesc e a Fundação Perseu Abramo, conta a trajetória do movimento que denunciou e ainda denuncia a discriminação, a violência policial e o racismo estrutural nas relações sociais no Brasil.

Era 7 de julho de 1978, quando três mil pessoas de movimentos e entidades da população negra tomaram as escadarias do Theatro Municipal, em São Paulo, para denunciar o assassinato do operário Nilson Lourenço e a discriminação que quatro jovens negros jogadores de vôlei sofreram num clube.

Desde então, o MNU tem sido fundamental no combate ao racismo e na luta por igualdade e justiça social em todo o país. Reunir memórias sobre esse percurso é a proposta do livro organizado por Ennio Brauns, Gevanilda Santos e José Adão de Oliveira, e coeditado por Fundação Perseu Abramo e Edições Sesc.

José Adão de Oliveira, cofundador do Movimento Negro Unificado, estava naquele 7 de julho e lembra bem do dia. “Foi o primeiro ato público e político da comunidade negra contra racismo e isso foi colocado diretamente pelas faixas que a gente escreveu. Naquele momento, houve uma nota pública do Exército contra e dizendo que, no Brasil, não tinha racismo”, conta à repórter Girrana Rodrigues, da TVT.

Após quatro décadas de luta, as pessoas acreditam que, hoje, o principal desafio é vencer o genocídio do povo negro. Ieda Leal, coordenadora do Movimento Negro Unificado, afirma que, desde aquele dia, a violência tem redobrado. “Por mais que nós tenhamos toda a coragem e denunciamos, a diferença é que nós não temos fotos ou filmagens daquelas coisas que aconteciam. Agora, não basta só gravar e publicas nas redes, mas é preciso de reação para aquela situação”, afirmou.

Avanços e memórias

O livro sobre o Movimento Negro Unificado coeditado pela Fundação Perseu Abramo e pelo Sesc traz memórias de conquistas importantes, como a lei de cotas, o estatuto da igualdade racial e a conceituação de racismo e discriminação racial como crime.

“As cotas são um grande momento para nós, negros no país, fazem parte de uma proposta de reparação ao povo negro. A legislação que modificou a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) é uma das questões que já completa 18 anos. A gente modificou uma lei maior e mostrou que é necessário discutir a história do povo negro no país”, celebra Ieda.

O livro é composto por registros fotográficos, testemunhos, manifestos e ensaios históricos que possibilitam percorrer a rica história de luta do movimento. As fotografias foram registradas por Ari Cândido, Ennio Brauns, Jesus Carlos, Joca Duarte, Juvenal Pereira, Luiz Paulo Lima, Rosa Gauditano, Samuel Tosta e Wagner Celestino.

Na coletânea, as fotografias são centrais para remontar a história. Ieda destaca a foto de Fátima Ferreira, em um ato do MNU, no Viaduto do Chá, em 1979. “Ela tá segurando uma criança e segurando a faixa. A foto é muito significativa e mostra o quanto nós, mulheres negras, fazemos exatamente isso: segurando nossa luta e nosso filho. Nós saímos de casa e do trabalho, mas não esquecemos dos nossos filhos”, explica Ieda Leal.

Dividido em duas partes, o livro inicialmente narra a história da fundação do movimento, apresentando antecedentes, informações sobre o contexto em que a luta se dava e depoimentos de alguns dos fundadores do MNU. A segunda parte do livro discute o desenrolar da história do movimento e a contemporaneidade da luta. As fotografias aparecem por toda a publicação, construindo uma narrativa visual que acompanha os temas e a cronologia dos textos escritos, compondo um rico projeto editorial.

Nesta quinta-feira (26), às 16h, os autores de textos publicados no livro falarão sobre sua participação no projeto que resultou na publicação, numa transmissão no canal da Fundação Perseu Abramo. A partir de algumas fotos publicadas, Ennio Brauns, Gevanilda Santos e José Adão de Oliveira, organizadores do livro, falarão sobre memórias de luta do movimento.