Perda histórica

Morre Dom Pedro Casaldáliga, símbolo da luta pelos direitos humanos e contra a ditadura

Ícone da defesa dos mais pobres, o bispo terá vida e obra lembradas em três locais, antes de seu sepultamento, segunda-feira

Centro Comunitário Tia Irene/CNBB (montagem RBA)
Casaldáliga desembarcou no Brasil para abrir uma missão e não se intimidou com a violência e o autoritarismo

São Paulo – Após longa internação, morreu na manhã deste sábado (8), às 9h40, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT). Ele estava internado com insuficiência respiratória na Santa Casa de Batatais (SP), para onde havia sido transferido na terça-feira (4). Aos 92 anos, o religioso sofria há cerca de 15 anos do mal de Parkinson.

A notícia da morte de dom Pedro foi divulgada em nota conjunta assinada pela Prelazia de São Félix, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos, congregação à qual ele pertencia) e pela Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos).

O corpo de dom Pedro será velado em três locais: a partir das 15h de hoje, na capela do Claretiano – Centro Universitário de Batatais. Lá também será celebrada missa de exéquias, aberta ao público, na tarde de amanhã. O culto será transmitido ao vivo por esse link. Na segunda-feira (10), o bispo receberá homenagens em Ribeirão Cascalheira, em Mato Grosso, onde será velado no Santuário dos Mártires, imediatamente a partir de sua chegada. Por fim, sem previsão de horário ainda definida, o cotejo segue para São Félix, onde o religioso será sepultado, após também ser velado, no Centro Comunitário Tia Irene.

No Brasil desde 1968

Pere Casaldáliga i Pla , seu nome de batismo, nasceu em 16 de fevereiro de 1928, na cidade catalã de Balsareny, província de Barcelona. À beira do rio Llobregat, como descreveu a jornalista e biógrafa Ana Helena Tavares, com família de camponeses que sobrevivia comercializando leite de vaca. Em texto escrito aos 8 anos, considerou a Guerra Civil Espanhola uma “escola superior” de jornalismo.

Já com passagem pela África (Guiné Equatorial), o religioso desembarcou no Brasil em 26 de janeiro de 1968. Fez um curso preparatório em Petrópolis (RJ). Depois, morou um mês e meio em São Paulo, “visitando hospitais e estudando doenças tropicais, muitas das quais viria a contrair”, como escreveu Ana Helena.

Dom Pedro Casaldáliga enfrentou as cercas da consciência

De Rio Claro, no interior paulista, viajou sete dias de caminhão até chegar a São Félix, em 30 de julho de 1968, parar criar uma missão. Na primeira semana, conta a biógrafa, quatro crianças mortas foram deixas na porta de sua casa, em caixas de sapato – foi o primeiro contato com a dura realidade local. Em maio de 1969, Papa Paulo VI criou a Prelazia de São Félix, da qual Pedro foi o primeiro administrador apostólico.

Contra o latifúndio

Sobre Casaldáliga, o padre Paulo Gabriel López Blanco resumiu: “Pedro, na região, é amado e odiado, lhe atribuem milagres que nunca fez e lhe atribuem pecados que nunca cometeu”. Para ele, sem a presença da Prelazia e de Pedro na região, “aquilo hoje era única e exclusivamente pasto do latifúndio”.

Eucaristia fraterna e subversiva na vida de dom Pedro Casaldáliga

Em 1987, o líder ruralista Ronaldo Caiado, hoje governador de Goiás, declarou, segundo registro do jornal O Estado de S. Paulo: “Para nós, produtores rurais, governo democrático é aquele que faz o que nós queremos e até impomos, não aquele que quer nos ditar normas”.

Casaldáliga respondeu, em seu diário:

Evidentemente esse “nós” são eles e somente eles, os proprietários, os privilegiados. Democracia, portanto, para os neoliberais ou neocapitalistas não tem nada a ver com a imensa maioria popular. O povo fica fora dessa democracia. O sonhado “governo do povo pelo povo” passa a ser um governo contra o povo. Que o Senhor nos livre de todas essas democracias!

Dá-nos, Senhor, aquela Paz estranha

que brota em plena luta

como uma flor de fogo;

que rompe em plena noite

como um canto escondido;

que chega em plena morte

como o beijo esperado.

Dá-nos a Paz dos que caminham sempre,

nus de toda vantagem,

vestidos pelo vento da esperança.

Aquela Paz dos pobres,

vencedores do medo.

Aquela Paz dos livres,

amarrados à vida.

(…)

Do livro Versos Adversos (2006)