Home Cidadania Marcha das Mulheres Negras denuncia racismo por trás de pautas do governo Bolsonaro
longo caminho

Marcha das Mulheres Negras denuncia racismo por trás de pautas do governo Bolsonaro

Movimento autônomo reafirma que população preta vai ser a mais impactada pelo pacote "anticrime" de Sergio Moro e a reforma da Previdência
Publicado por Fabio M Michel, da RBA
10:42
Compartilhar:   
Marcha das Mulheres Negras

Ato no centro da capital paulista reafirmou as muitas lutas das mulheres negras, com o mote "sem violência, racismo, discriminação e fome! Com dignidade, educação, trabalho, aposentadoria e saúde!"

Brasil de Fato – Com nove grandes temas e reivindicações, mulheres negras fizeram um ato na contra o racismo em São Paulo (SP) nesta quinta-feira (25), Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha.

A 4ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo percorreu ruas do centro da capital paulista com o mote “sem violência, racismo, discriminação e fome! Com dignidade, educação, trabalho, aposentadoria e saúde!”.

As mulheres foram puxadas pelo bloco afro Ilú Oba de Min e fizeram trajeto até o Largo do Paissandú, onde encerraram a manifestação na frente da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Entre as diversas pautas, elas pontuaram os impactos da reforma da Previdência para as mulheres negras e ressaltaram como uma “política racista” o pacote anticrime do ministro da justiça Sérgio Moro. Além de pontuar a luta pela  extinção do feminicídio, da LGBTfobia, mortalidade materna, violência obstétrica e racismo religioso e ambiental.

A sambista e deputada estadual Leci Brandão (PCdoB) comentou porque o slogan deste ano da marcha é grande. Segundo ela, porque as mulheres negras são as primeiras a sentirem as políticas impopulares.

“Quando a gente olha o manifesto, a gente observa que aumentou os tópicos porque aumentou o sofrimento, a demanda, as injustiças”, disse a deputada. “Todo mundo sabe que, quando o bicho pega e tudo fica ruim, a coisa fica pior para a mulher negra.”

Assista à reportagem da TVT

Outro tema inserido neste ano pela marcha é a volta da fome, que, segundo o manifesto, vitima principalmente mulheres negras empobrecidas pelo país. Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro negou que exista fome no país.

A ativista Neon Cunha integrar afirmou que a marcha é também o momento de centralizar as demandas das periferias das grandes cidades. “As mulheres encarceradas, as mulheres que estão recolhendo lixo, as domésticas, as invisíveis; e mais do que isso,  as mulheres que movimentam as nossas periferias, as faveladas, as mães das vítimas do Estado, que movem a estrutura dessa sociedade”, afirmou.

Veterana do movimento negro, Regina do Movimento Negro Unificado (MNU) afirmou que, desde a década de 1970, as entidades pautam a “tríplice exploração e discriminação da mulher negra”. “Nós chamamos à luta contra o feminicídio porque são as nossas mulheres, jovens e negras, que estão morrendo”, assevera.

Já a escritora Nilma Bentes, uma fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, falou sobre a importância do reconhecimento da negritude pelas jovens: “As mulheres negras que estão fazendo uma revolução com seus crespos estão, de fato, fazendo uma descolonização da rebeldia. O que o colonizador queria e quer é que a gente se sinta inferior e não avance. Ao a gente assumir a nossa negritude de uma forma digna e ir para luta de forma equitativa, estamos alterando a rebeldia.”

À frente da marcha, um bloco das religiões de matrizes africanas explicitou as formas de atuação do racismo religioso. A ialorixá (mãe de santo) Claudia Rosa, da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileira e Saúde, diz que a luta da religiões de matrizes africanas é contra a intolerância.

“Tudo o que está acontecendo com nossas religiões não é porque cultuamos os orixás. Toda a intolerância e racismo vem pelo fato que essa é uma religião vinda dos negros, que veio nos navios, veio acorrentada”, explica.

No ato, a prisão da liderança Preta Ferreira e outros militantes do movimento de moradia também foi lembrada nas falas políticas durante o ato. Ela foi presa há um mês, no dia 24 de junho.

Além da capital paulista, a marcha desta quinta ocorreu em Salvador e Belém. A data também celebra o Dia Nacional de Teresa de Benguela, líder quilombola que organizou a resistência à escravidão, no século 18. No Rio de Janeiro, a mobilização ocorre no domingo (28).