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Na Europa anda-se devagar para chegar depressa

No Brasil essas coisas têm melhorado. Há mais respeito, menos afoiteza. Mas há também os candidatos coiós que se comprazem em explorar e estimular a coiozice alheia

Transport of London-TFL/Reprodução
Londres

Londres: mate sua velocidade, não uma criança

Berlim – A capacidade e a tenacidade anticivilizatórias das nossas direitas são inesgotáveis. Em nome de contra-atacar o que o PT estiver fazendo, os candidatos e pré-candidatos conservadores defendem o que há de pior em matéria de individualismo feroz, convocando o que de pior possa haver no ser humano.

Veja-se, agora, o caso do limite de velocidade em São Paulo. Erguem-se vozes furibundas, veementes, vociferando contra o limite de 50 quilômetros por hora. Um destes candidatos chega a dizer a besteira de que “São Paulo não pode andar devagar”, ou algo parecido, numa paródia ao mesmo tempo cruel e pandorga do antigo “São Paulo não pode parar”.

Não importa se a diminuição do limite da velocidade não só fez diminuir o número de acidentes fatais ou não como também aumentou a eficiência do trânsito, diminuindo o tempo das viagens. O que importa para este tipo de mentalidade é captar o sentimento algo boçal dos que pensam que transporte coletivo, faixa exclusiva para ônibus, ciclovia, cidade de convívio urbano adequado, respeito e preferência ao pedestre são coisas boas para a Europa, os Estados Unidos, o Japão. No Brasil, em São Paulo, tempo apertado, meu carrão primeiro, e o resto que se dane.

Pois aqui na Europa, entre as coisas boas que a criação da União Europeia trouxe está uma grande padronização civilizada do trânsito. Na Alemanha, onde eu vivo, é verdade que há autoestradas onde não há limite de velocidade (o que, aliás, vem sendo discutido se é bom ou não). Mas são estradas distantes de qualquer centro urbano. Ainda assim há limites claros para sair delas: 90 km/h, depois 60, e nas curvas mais apertadas, 40.

Nas estradas vicinais, os limites variam, de 130 ou 120 em pistas duplas de mão única, até 80, conforme o traçado da estrada. Em pistas de dupla mão, o limite máximo é 90, baixando para 80 e para 70 em estradas de traçado mais cheio de curvas ou mais movimentadas. Dentro do perímetro urbano, o limite é de 50, e em áreas residenciais, perto de escolas, bibliotecas ou outros pontos de aglomeração, 30 km/h. E não tem choro.

Essa situação se repete em todos os países da União Europeia, com pequenas variações que, quando existem, são mais restritivas ainda. Por exemplo: em países como Portugal, Espanha, França e outros, não há isso de não haver limite de velocidade em certas autoestradas. É 130 e ponto.

E em toda parte trafegar no acostamento, a multa é pesada. Passar um sinal vermelho, adeus habilitação. Alcoolizado, processo e cadeia.

A zebra do pedestre é sagrada, com ou sem sinal. E mesmo se não houver zebra, como acontece em ruas pouco movimentadas, o pedestre tem preferência.

O resultado disto é que todo mundo chega mais depressa, com mais segurança, aonde queira chegar.

No Brasil essas coisas têm melhorado. Há mais respeito pelo pedestre do que há dez ou quinze anos. Há menos afoiteza em passar sinal vermelho. Mas há também esses candidatos absolutamente coiós que se comprazem em explorar – e por isso mesmo em estimular – a coiozice alheia.