Buchas, las hay

2022: a Europa e uma guerra muito especial. Por Flávio Aguiar

Trata-se de uma guerra em que só haverá um grande perdedor: o povo ucraniano, bucha de canhão numa queda de braço entre macro potências imperialistas

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Caras, caros, cares leitoras e leitores: o Blogue do Velho Mundo está de volta. Primeiro assunto: em 2022 a Europa viveu e está vivendo – e vai viver em 2023 – uma guerra muito especial.

Em primeiro lugar: de quem é a guerra, quem contra quem? Da Rússia contra a Ucrânia? Da Otan e seus aliados na Europa contra a Rússia, através da Ucrânia? Dos Estados Unidos contra a China através das guerras das perguntas anteriores?

Em segundo lugar: quando a guerra começou? Foi quando a Rússia invadiu a Ucrânia no final de fevereiro deste ano? Ou quando o governo ucraniano desrespeitou os acordos de Minsk e atacou a população pró-Rússia na região do Donbas?

Quando a Otan e os Estados Unidos passaram a armar a Ucrânia depois da queda do governo pró-Rússia de Victor Yanukovytch em 2014? E o que foi aquela queda? Uma revolução popular, como apregoa a mídia mainstream do Ocidente? Um golpe de Estado desferido pelos neonazistas ucranianos estimulados e armados pelo Ocidente?

Afinal, quem está ganhando a guerra? Se leio a mídia ocidental, parece que a Ucrânia está dando um banho de bola na Rússia. Mas se leio os comunicados do Exército russo, tenho a impressão de que nem sei como a Ucrânia ainda está lutando, tamanha é a destruição imposta a ele. Pelo menos na retórica russa.

Quem está lucrando com esta guerra, além da indústria bélica norte-americana e, em menor escala, a europeia? A Ucrânia é que não está. Ao contrário, o país está sendo devastado. Bem, a gente sabe que “ajudar:” a reconstruir um país também pode ser um excelente negócio.

A questão é o que vai sobrar para ser reconstruído

E sobrar para quem? Provavelmente haverá um grande acordo envolvendo governos ocidentais, Kiev e mega-corporações privadas que absorverão bilhões em várias moedas. Foi-se o tempos dos Planos Marshall. Estamos agora nos tempos dos Planos estilo Guedes.

Outra questão: esta parece ser uma guerra em que não haverá vencedores no campo de batalha. Neste, há uma penca de impasses. A mídia mainstream do Ocidente se esmera em repicar a narrativa que a OTAN, Reino Unido e Estados Unidos prepararam. Qual seja, a de que é possível o impossível: que a Ucrânia vença a Rússia. Do contrário, como justificar para seus contribuintes a inversão de bilhões de várias moedas? Numa guerra perdida de antemão? Impensável.

O mundo depois da guerra na Ucrânia. Por José Luís Fiori

Do lado da Rússia, a situação não é menos complicada. A Rússia aceitou a provocação da OTAN e empreendeu uma invasão condenável e condenada, aquela em que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A Rússia não quer, nem tem condições de ocupar a Ucrânia, o que lhe quebraria economicamente. Mas não pode recuar.

O melhor que pode almejar é manter pelo menos parte dos territórios ocupados. Possivelmente os vencedores da guerra estarão fora do campo de luta. Putin, se conseguir sobreviver politicamente. Zelensky, se conseguir uma ajuda financeira bilionária para si e os seus. O governo norte-americano, se ajudar suficientemente a indústria bélica do seu país para que esta continue a lhe emprestar seu apoio.

E a Europa?

A Europa está encalacrada com uma crise energética inescapável, e outra inflacionária galopante. Exemplo notável: no Reino Unido as enfermeiras não faziam greve há cem anos. Agora estão fazendo. As sanções econômicas contra a Rússia vem pesando mais contra a economia europeia do que contra a russa, que se refugiou sob a asa protetora da chinesa, ainda com um pé na Índia.

Mais uma vítima: o pacifismo, descrito por muitos atores envolvidos como “traição”. Ofuscados por uma retórica que equipara a Ucrânia (leia-se, o governo de Kiev, Zelensky) a Davi e a Rússia a Golias, ou aquela e aquele à Resistência e esta aos nazistas, muitos dos que até pouco tempo iam às manifestações cantando Bella Ciao e Where have all the flowers gone agora entoam hinos guerreiros e pedem mais armas para Kiev.

O Partido Verde alemão virou o Partido Verde-Oliva. Ponto máximo desta deserção: a representante de uma ONG ucraniana que compartilhou o Prêmio Nobel da Paz deste ano fez uma apologia da guerra durante a cerimônia da premiação!

Resumo da ópera: trata-se de uma guerra em que só haverá um grande perdedor: o povo ucraniano, bucha de canhão numa queda de braço entre macro potências imperialistas.

guerra europa


Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo)


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