Privilégio a automóveis vai levar SP a 'situação suicida', alerta especialista
Publicado em 21/09/2011, 11:25
Última atualização às 12:38
Disputa por espaço nas ruas de São Paulo: opção por tansporte individual leva a cidade a caos urbano absoluto (Foto: ©Caio Guatelli/Folhapress)
São Paulo – Longe de resolver deficiências na mobilidade urbana da
capital paulista, investimentos em obras viárias ampliam o espaço
destinado a automóveis e aumentam os congestionamentos, apontam
especialistas ouvidos pela Rede Brasil Atual. Depois do
investimento de R$ 9,7 bilhões no Rodoanel – trechos oeste e sul -, na Nova
Marginal Tietê e no Complexo Jacu Pêssego, a situação do trânsito já é a
mesma de antes das obras, descreve o consultor de engenharia de tráfego
e transporte Horácio Figueira. “Pode-se dizer que foi dinheiro jogado
fora”, resume.
Novo trecho do Rodoanel – agora na área norte,
passando por São Paulo, Guarulhos e Itaquaquecetuba - está orçado em R$
6,51 bilhões, com entrega prometida para novembro de 2014. Termo de
compromisso entre governos federal e estadual foi assinado em 13 de
setembro. “Investir nessas obras é um grande desperdício”, avalia Marco
Nordi, um dos coordenadores do grupo de trabalho sobre mobilidade urbana
da Rede Nossa São Paulo.
As obras viárias são discutíveis,
aponta, porque cada novo empreendimento abre mais espaço para os
automóveis trafegarem, enquanto os problemas de mobilidade permanecem.
“Todo espaço liberado é tomado pelos automóveis”, diz Nordi. “A frota de
São Paulo não cabe nas ruas”, confirma Figueira.
Na avaliação do
consultor, a Prefeitura paulistana tem “paúra” de incomodar os
carros. Em consequência, deixa de investir em transporte público. “Os R$
6,51 bilhões do trecho norte do Rodoanel dariam para construir 35 quilômetros de
metrô”, argumenta. “Priorizar o automóvel é priorizar a minoria: um
terço da população usa carro, em detrimento de todas as outras pessoas”,
critica Nordi.
Alternativa
Na contramão das grandes obras viárias, Figueira sugere medidas
simples para melhorar a mobilidade na capital paulista. A alternativa seria
investir em corredores de ônibus, que são mais baratos e rápidos de
construir do que linhas de metrô. “Enquanto uma faixa de carros comporta
800 veículos que transportam em média 1,4 pessoas no horário de pico,
que é igual a 1.200 pessoas, por hora faixa, um corredor de ônibus
transporta 10 a 12 mil pessoas. É uma média de 1 por 10”, informa. “Nas
dez faixas da marginal caberiam o mesmo que em uma faixa de ônibus.”
O especialista considera “uma incoerência” obrigar o
usuário de ônibus a arcar com o congestionamento causado por automóveis.
“É no mínimo criminoso, ambientalmente e economicamente”. “A César o
que é de César. Quem causa o congestionamento do automóvel é ele mesmo.
Então, o congestionamento a quem o causa”, filosofa.
A proposta
do consultor é estender os corredores de ônibus por 400 quilômetros de
vias. Além da ampliação das faixas exclusivas, as principais rotas
teriam duas faixas para ônibus, para que os veículos possam fazer
ultrapassagens. Também seria possível a criação de serviços
diferenciados com ônibus fretados e diretos.
“Não há mais o que
fazer para obter fluidez, a não ser investir em transporte público”,
defende Nordi, da Rede Nossa São Paulo. Questionado sobre a previsão de
São Paulo ficar travada por inteiro em 2012, ele provoca: “Será que a
cidade já não parou?”.
Caso a política urbana dê prosseguimento a
investimentos maciços em vias para automóveis, a previsão é de mais
problemas nos deslocamentos por São Paulo. “Pior do que está fica sim. A
cidade está na descendente”, acredita Nordi. Na mesma linha, Figueira
prevê que o medo da prefeitura incomodar os automóveis vai levar a
cidade a uma “situação suicida”.
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