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Toma lá, dá cá

Padilha defende fisiologismo e foge de questões sobre reforma da Previdência

Ministro apareceu de surpresa em abertura dos trabalhos da comissão da PEC 287, saiu sem ouvir deputados, disse que barganha de apoio é normal e que "nunca um governo teve tanto apoio"
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 15/02/2017 17h37, última modificação 16/02/2017 14h16
Ministro apareceu de surpresa em abertura dos trabalhos da comissão da PEC 287, saiu sem ouvir deputados, disse que barganha de apoio é normal e que "nunca um governo teve tanto apoio"
Marcelo Camargo/Agência Brasil
temer e padilha

Em dia de pesquisa com 10% de aprovação a Temer, Padilha celebra de apoio de 88% do Congresso

Brasília – O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, surpreendeu jornalistas e parlamentares duas vezes hoje (15). Em primeiro lugar, por ter ido à Câmara dos Deputados para abrir a reunião da comissão da reforma da Previdência, ao lado do secretário de Previdência do Ministério da Fazenda, Marcelo Caetano.

Depois, por ter considerado "absolutamente normal" a prática do fisiologismo pelo Executivo para cooptar votos no Congresso. Padilha procurou minimizar a repercussão de um áudio vazado de uma reunião de que participou ontem. Para muitos parlamentares, a declaração soou como reconhecimento público de que o governo estimula o "toma-lá-da-cá" como forma de assegurar os alegados "88% de apoio" alcançado pelo governo Temer entre deputados e senadores. 

O ministro tentou ser lacônico ao falar com os jornalistas, disse considerar “salutar” que outros partidos políticos integrem as bases dos ministérios e que é seu papel ter “conhecimento da máquina pública”. 

“Nunca um governo teve tanto apoio”, afirmou Padilha. Pesquisa divulgada hoje apontou que apenas 10% dos brasileiros aprovam o governo de Michel Temer.

Desrespeito

O ministro pediu o apoio dos parlamentares para a reforma da Previdência e afirmou que sua ida à Câmara consistiu numa demonstração, por parte do Executivo, de “confiança na qualidade dos trabalhos a serem desenvolvidos pela comissão”. Apresentou alguns números a ser detalhados pelo secretário de Previdência, falou no déficit previdenciário, citou os sistemas de alguns países e afirmou que já existe melhoria na imagem do mercado em relação às contas públicas do Brasil apenas com a expectativa da reforma da Previdência. “Nossa missão, juntamente com trabalho a ser realizado por vocês no sentido de melhorar o país, é enorme”, ressaltou.

O chefe da Casa Civil de Temer, no entanto, retirou-se tão subitamente quanto entrou, sem dar margem para questionamentos dos parlamentares.

A reação dos deputados foi imediata. “O ministro desrespeitou esta comissão”, reclamou Alessandro Molon (Rede-RJ). “Não tinha o direito de vir aqui, vomitar alguns poucos dados e ir embora sem aguardar para responder qualquer pergunta a ser feita por nós”, acrescentou Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

“Não sei se agiu com falta de respeito ou se seu gesto consistiu em covardia pelo fato de ter se aposentado aos 53 anos de idade. Por que ele não devolve o dinheiro da sua aposentadoria, se acha imoral se aposentar aos 53?”, disse ainda Molon.

“Foi uma típica saída à francesa”, reclamou o deputado Pepe Vargas (PT-RS). “Quero ver como é que alguém que se aposenta aos 53 anos com rendimento mensal de R$ 20 mil quer ampliar o tempo para ter direito à aposentadoria de alguém que, quando isto acontecer, só poderá receber um salário mínimo”, afirmou Vargas.

Jandira Feghali lembrou ainda que a agenda pública do secretário Marcelo Caetano privilegiou, desde o ano passado, compromisso com representantes de instituições financeiras interessados nos negócios de previdência privada. “Quando o ministro Padilha fala da precificção de mercado, esse é o foco. Sua agenda revela quem foram os reais contribuidores para a proposta que aqui chegou.”