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Para analista, PT precisa brigar para evitar programa mais à direita

Assessor parlamentar vê tendência de uma agenda mais à direita, por ser construída junto ao PMDB e ressalta que debate já está superado pelo partido do presidente Lula
por anselmomassad publicado , última modificação 01/03/2010 10h05
Assessor parlamentar vê tendência de uma agenda mais à direita, por ser construída junto ao PMDB e ressalta que debate já está superado pelo partido do presidente Lula

Dilma e Temer na abertura dos trabalhos do ano no Congresso Nacional. Presença do PMDB exige que PT brigue por agenda de esquerda (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

A aliança eleitoral entre PT e PMDB tende a levar o programa de governo da pré-candidata à Presidência, Dilma Rousseff, mais à direita. Segundo Antônio Augusto de Queiroz, assessor parlamentar do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), cabe ao partido da ministra-chefe da Casa Civil lutar, dentro da coalizão, por uma agenda mais à esquerda.

Para Queiroz, isso é plenamente possível porque, além de os questionamentos estarem ultrapassados dentro das instâncias petistas, a legenda "aprendeu a conviver com coalizão". Isso representa entregar pastas e cargos, em um eventual governo, a lideranças identificadas com os setores representados pelos ministérios.

 

A aliança com o PMDB é muito importante para as pretensões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer seu sucessor. O fato de o PSDB governar os dois estados com maior eleitorado – São Paulo e Minas Gerais – tornaria arriscado uma opção que privilegiasse apenas os partidos de centro-esquerda.

"O que é determinante para a eleição e que também gera compromissos para a sustentação e a governabilidade é o horário eleitoral que o partido coloca à disposição e que é fundamental para eleger o candidato" – Antônio Queiroz

Ele lembra que o horário eleitoral gratuito e a possibilidade de garantir palanques em diferentes partes do país é o principal trunfo oferecido pelos pemedebistas. Isso ainda que haja divisões internas e disputas entre lideranças. "Por exemplo, quando o presidente da República nomeia um senador para um ministério, o apoio na Câmara cai. Quando nomeia um deputado, o apoio no Senado cai. Eles disputam esse cargo", relata.

Entrevista

Antônio Augusto Queiroz

do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap)

Ao mesmo tempo, ele descarta a possibilidade de se considerar o apoio ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB), ou a manutenção de ministros identificados com setores conservadores da sociedade, caracterize "prejuízos" dessa aliança.

Confira a íntegra da entrevista.

RBA – Em sua avaliação, uma aliança com o PMDB é necessária já na campanha?

"Um partido como o PMDB, com grande capilaridade, alavanca a campanha de quem ele apoia de modo superior a qualquer desgaste que possa ocorrer." – Antônio Queiroz

Não necessariamente, porque se pode fazer uma coalizão pós-vitória, como ocorreu com o PMDB que não participou da eleição do Lula (em 2006). Até disputou, em 2002, a vice de José Serra (PSDB). O que é determinante para a eleição e que também gera compromissos para a sustentação e a governabilidade é o horário eleitoral que o partido coloca à disposição e que é fundamental para eleger o candidato. Estreitam-se mais os vínculos e dá mais legitimidade. O aliado diz: "Fui determinante porque garanti horário eleitoral e palanque e vou marchar com minha bancada coesa no Congresso".

RBA – Representa um comprometimento maior de cargos e ministérios?

Sem dúvida, a participação de um partido que emprestou horário eleitoral no governo é maior. É razoável que isso ocorra.

RBA – Em 2009 e nos anos anteriores, houve crises no Senado envolvendo Renan Calheiros e José Sarney. Isso são "custos" da coligação com o PMDB? Os benefícios compensam?

Sinceramente não creio que caracterize prejuízo. Um partido como o PMDB, com grande capilaridade e o maior número de prefeitos, deputados, senadores etc. alavanca a campanha de quem ele apoia de modo superior a qualquer desgaste que possa ocorrer. Além do mais, o PMDB tem vários grupamentos que disputam entre si a hegemonia do partido. De um lado os senadores e de outro, os deputados, além de alguns líderes importantes, como o (Orestes) Quércia em São Paulo, o pessoal do Rio Grande do Sul etc. E a rivalidade deles é de tal modo ampla, que mesmo quando estão no governo, agem de modo divergente.

RBA – Como se refletem essas disputas?

"O PT já aprendeu a conviver com coalizão (...) Não adiantaria colocar um cara vinculado ao MST no Ministério da Agricultura; esta liderança estaria no Desenvolvimento Agrário" – Antônio Queiroz

Por exemplo, quando o presidente da República nomeia um senador para um ministério, o apoio na Câmara cai. Quando nomeia um deputado, o apoio no Senado cai. Eles disputam esse cargo. A rivalidade entre os grupos é permanente por hegemonia dentro do partido. Nesse caso, é por quem participa mais do governo, quem tem mais cargos.
Quando o Amir Lando (RO) e depois o Romero Jucá (RR) foram nomeados ministros da Previdência, houve resistência da (bancada do partido na) Câmara, que queria indicar o titular da vaga. Geddel Vieira Lima foi para a Integração exatamente para tentar compensar a participação de senadores no governo, porque já havia o Hélio Costa, entre outros.

RBA – Reinold Stephanes, na Agricultura, tem vínculos junto ao agronegócio; Hélio Costa, ligado à Globo, está nas Comunicações. Uma aliança de campanha significa abrir mais espaço ao PMDB. Isso pode comprometer um programa de governo petista?

O PT já aprendeu a conviver com coalizão. No primeiro mandato (do presidente Lula), o PT era hegemônico na administração pública. Houve tantos problemas na disputa com parceiros que, no segundo, o presidente optou pelo caminho de entregar a gerência de determinados ministérios a partidos aliados –, incluindo o próprio PT – mas grau de afinidade em relação aos segmentos representados. Não adiantaria colocar um cara vinculado ao MST no Ministério da Agricultura; esta liderança estaria no Desenvolvimento Agrário. De tal modo, o governo é heterogêneo, mas as divergências deveriam ser resolvidas, consensadas e arbitradas em seu interior, não nas páginas de jornal. Fugiu de controle o bate-boca entre o ministro da Agricultura e o do Desenvolvimento Agrário em relação à atualização dos índices de produtividade. Então o presidente tem todo direito de exigir que haja unidade.

"(Não fazer aliança com o PMDB) é muito arriscado porque a eleição vai ser muito polarizada. O PSDB tem os dois principais governos nas mãos, São Paulo e Minas Gerais. Sem o horário eleitoral e o palanque do PMDB em diversos estados, o quadro se altera em favor do candidato de José Serra" – Antônio Queiroz

Desse ponto de vista, o PT está mais tarimbado e disposto a fazer esse tipo de aliança, até porque, sem ela, as chances de se eleger se reduzem. O que ocorre é trabalhar para que, no programa de governo, cuja coordenação será do PT, haja comprometimento dessas forças com a linha programática. Mas a execução das linhas cabe a quem o presidente designar, em sintonia com os partidos. Muito provavelmente o pessoal do PR vai continuar querendo a área de Transportes, o PMDB a Agricultura e Comunicação, enfim, manter um certo equilíbrio das forças de sustentação, mas fazendo determinadas concessões, reduzindo o número de pastas, para ser mais representativo.

RBA – Alguns analistas defendem uma parceria mais próxima com partidos de esquerda e centro-esqueda e não com o PMDB. Sem o PMDB a candidatura de governo ficaria inviabilizada?

Não é que inviabiliza, mas é muito arriscada porque a eleição vai ser muito polarizada. O PSDB tem os dois principais governos nas mãos, São Paulo e Minas Gerais. Sem o horário eleitoral e o palanque do PMDB em diversos estados, o quadro se altera em favor do candidato de José Serra. Para o governo, é crucial contar com o PMDB e também com as forças de centro-esquerda. A candidatura do Ciro (Gomes) – ainda mais diante da experiência do Chile em janeiro, com a derrota governista exatamente porque foram lançadas três candidaturas com apoio da presidente – é um precedente que serve como referência. É claro que a situação de lá é diferente, mas é importante ter em conta. Por isso que o governo faz uma série de concessões, como não lançar candidatos em estados em que o PMDB esteja melhor, uma forma de viabilizar a aliança nacional. O que é legítimo e correto, por parte do PT, é brigar para moldar o programa de governo. Uma vez feito isso, a ministra, na eventual condição de presidente, buscará cumprir. Seria uma disputa no interior da coalizão de apoio para que as propostas fiquem mais à esquerda, porque a tendência é ir mais à direita.

RBA – Ainda mais com um programa feito em conjunto com o PMDB.

"O resultado do PED, a eleição interna do PT, definiu claramente que a orientação é no sentido da aliança (...) É uma disputa superada internamente" – Antônio Queiroz

Em 2002, a Carta aos Brasileiros, foi para acalmar os conservadores, os setores liberais, para tranquilizá-los. Esse decreto do Programa Nacional de Direitos Humanos é uma forma de o governo sinalizar para um setor mais à esquerda que criticava seriamente as concessões do governo à direita. O programa de direitos humanos é, para a esquerda, o que foi a Carta ao Povo Brasileiro para a direita. Podemos fazer esse contraponto. É uma forma de dizer que, mesmo com o pessoal do PMDB vindo para a aliança, vão ser trabalhadas algumas bandeiras nessa linha. O que é interessante é que o PSDB, por meio de seu presidente, se apresenta como alguém que vai mexer na política econômica, o que não está claro em relação à proposta de Dilma, que vai fortalecer o Estado mas não vai mexer na política. E o (Sérgio Guerra, presidente do) PSDB diz que vai fazer um governo mais à esquerda do que o PT, todos querendo se apresentar para esse eleitorado mais progressista.

RBA – A tentativa por todos os lados de parecer mais progressista para o eleitorado é contraditória com o comportamento do PT de buscar aliança com o PMDB?

O resultado do PED, a eleição interna do PT, definiu claramente que a orientação é no sentido da aliança. Da aliança com o PMDB. Aliás, todos os candidatos com chances de vitória atuaram nessa perspectiva, sendo que o José Eduardo Dutra tinha a postura clara de que o PT teria de fazer o que fosse necessário para viabilizar isto. É uma disputa superada internamente.