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Índios montam barricadas para impedir desocupação da Aldeia Maracanã

Governo reafirma intuito de criar um Centro de Referência Indígena em outro local, mas, por enquanto, quer alojar índios em hotéis para moradores de rua no Centro do Rio
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado , última modificação 21/03/2013 19h23
Governo reafirma intuito de criar um Centro de Referência Indígena em outro local, mas, por enquanto, quer alojar índios em hotéis para moradores de rua no Centro do Rio

A resistência dos índios da Aldeia Maracanã já se tornou o maior símbolo da rejeição ao projeto de reforma do Maracanã (Foto: Tânia Rêgo / ABr)

Rio de Janeiro – Com o fim do prazo, às 18h de ontem, determinado pela Justiça para que seja desocupado o terreno do antigo Museu do Índio no Rio de Janeiro, voltou a crescer ao longo do dia de hoje (21) a tensão entre os habitantes da Aldeia Maracanã, comunidade erguida no local e onde vivem atualmente cerca de 80 indígenas e estudantes. Preocupados com uma possível ação do Batalhão de Choque da Polícia Militar para desocupar o terreno, os indígenas, ainda durante a madrugada, ergueram com pedras e pedaços de madeira barricadas do lado de dentro para tentar impedir a entrada dos policiais.

O prédio, que inicialmente tinha demolição prevista no projeto de reforma do complexo do Maracanã para a Copa do Mundo, agora, segundo o governo do Rio, será reformado para futuramente abrigar o Museu Olímpico. Após a reforma, o prédio e o museu serão administrados pelas empresas vencedoras do processo de concessão, para a iniciativa privada, do complexo esportivo e seu entorno.

Os indígenas da Aldeia Maracanã perderam as esperanças de que ali seja erguido o Centro Cultural Indígena, como reivindicavam, mas só aceitam deixar o terreno após a definição do local para onde serão transferidos. O governo já manifestou intenção de abrigar os índios em um prédio próximo à Quinta da Boa Vista, também vizinha ao estádio, mas até o momento não deu mais detalhes sobre o local exato onde pretende fazer isso. Enquanto esperam a decisão, os índios, segundo o governo, ficariam alojados em hotéis no Centro do Rio.

Em nota divulgada no início da semana, a Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos confirma o intuito de “criar um Centro de Referência Indígena próximo à Quinta da Boa Vista”, mas não determina locais nem datas: “Até que as medidas sejam efetivadas, os índios terão à disposição um local provisório para hospedagem emergencial. Aqueles que não aceitarem, receberão o benefício temporário do aluguel social”, diz a nota.

Por volta de meio-dia, o defensor público Daniel Macedo esteve na Aldeia Maracanã e conversou com cerca de 50 ocupantes do terreno: “Houve um recuo por parte do governo e eu acredito que isso é muito positivo, mesmo as propostas não sendo as melhores”, disse o defensor à Agência Brasil ao fim da conversa.

Macedo revelou o objetivo de evitar qualquer confronto: “Você imagina se um índio morre aqui nessa situação. Seria muito ruim, iria repercutir internacionalmente e também iria ser muito negativo para a sociedade civil. Hoje as autoridades já poderiam ter vindo aqui e ter retirado esses índios. Isso mostra que o governo está aberto ao diálogo”, disse.

Preocupados com a presença de motociclistas do Batalhão de Choque da PM que circundaram o terreno algumas vezes ao longo do dia, os moradores da Aldeia Maracanã se preparam para um possível confronto com a polícia e reafirmam o desejo de permanecer onde estão: “Nós queremos a manutenção desse espaço. Esse lugar é histórico, faz parte da nossa cultura e da nossa vida. Não iremos deixá-lo em hipótese alguma”, disse Afonso Apurinã, um dos líderes da Aldeia Maracanã.

À reportagem da Rede Brasil Atual, Apurinã revelou, já no fim da tarde, que é muito grande “a tensão e a expectativa” entre os índios: “A gente até agora não assinou nenhum documento. Não tem local definido onde vai ser construída a próxima Aldeia Maracanã. Sabemos também que o prédio onde querem alojar os índios, um hotel para moradores de rua, não é adequado para a gente. Por isso, não nos resta outra saída senão manter a resistência, de forma pacífica, aqui no local”, disse.

Até o início da noite, segundo os indígenas, não havia nenhuma movimentação anormal em torno do terreno da Aldeia Maracanã. Existe dúvida sobre qual atitude tomará o governo face à persistência dos índios, uma vez que a mesma decisão judicial que determina a desocupação do terreno determina também que ela só aconteça quando estiver definido o local para onde os ocupantes do local serão transferidos.