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Política de drogas

Na apresentação do Programa Redenção, coordenador diz se sentir 'solitário' no governo Doria

Elogiado por sua disposição ao diálogo numa gestão que não conversa com movimentos sociais, Arthur Guerra agora afirma que problema do crack deve combinar redução de danos com abstinência
por Luciano Velleda, da RBA publicado 30/11/2017 17h18, última modificação 01/12/2017 12h50
Elogiado por sua disposição ao diálogo numa gestão que não conversa com movimentos sociais, Arthur Guerra agora afirma que problema do crack deve combinar redução de danos com abstinência
Eduardo Ogata/Secom
Doria_Cracolândia

Defensor da internação, Doria já disse que a cracolândia "acabou". Para Arthur Guerra, redução de danos também é importante

São Paulo – “Tenho dúvida se tenho vocação e tempo necessário, me sinto extremamente solitário. À noite vou dormir e pergunto: ‘de quem tenho apoio?´ São muito mais dúvidas do que certezas. De fato, não tenho várias respostas.” Foi com essa sinceridade que o psiquiatra Arthur Guerra se dirigiu aos participantes da audiência pública realizada nesta quinta-feira (30), na Câmara Municipal, poucos minutos após apresentar o Programa Redenção, que tem como objetivo “diagnosticar, tratar e prevenir” o problema do uso abusivo de drogas em São Paulo, com atenção maior nas chamadas cracolândias da cidade.

Arthur Guerra iniciou a reunião da Subcomissão de Políticas de Drogas expondo as linhas de ação, metas, conceitos e iniciativas do programa, cinco meses após ingressar na Prefeitura de São Paulo, convidado depois da desastrada ação do governo de João Doria, em maio, na região da Luz.

Antes de confessar se sentir “solitário”, Guerra explicou que o Redenção é um esforço intersecretarial envolvendo 10 pastas do Executivo municipal, as secretarias de Saúde, Direitos Humanos, Educação, Assistência e Desenvolvimento Social, Trabalho, Segurança Urbana, Cultura, Comunicação, Urbanismo e Licenciamento, e Esportes.

Em sua apresentação, o psiquiatra afirmou que o programa irá combinar os conceitos e práticas de redução de danos junto com a abstinência, modelos distintos que foram a principal razão de discordância entre os defensores do programa De Braços Abertos (DBA), criado pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT), e a atual gestão do prefeito João Doria, que desde o início deixou claro que privilegiaria as internações para tratamento – inclusive compulsórias.

“Devemos ouvir os pacientes para saber o que eles querem. É um erro achar que todos querem ficar na abstinência, e para esses deve se usar o modelo da redução de danos”, ponderou Arthur Guerra, expondo uma opinião que até então não fazia parte do discurso do governo Doria para enfrentar o problema das cracolândias.

O coordenador disse não haver diálogo entre os grupos que defendem o modelo da redução de danos e aqueles que acreditam na internação e abstinência como melhor solução. “Precisamos ter uma integração entre equipes diferentes que pensam diferente. Na divergência, se cresce.”

Arthur Guerra ainda afirmou que não haverá internação compulsória. “É preciso ouvir o paciente”, disse. Ele também anunciou a criação de 100 vagas em serviço de residência terapêutica para pessoas com uso abusivo de drogas, além de 500 vagas em leitos hospitalares para desintoxicação.

IEA/USP Arthur Guerra
Para Arthur Guerra, postura de respeito do programa De Braços Abertos deve continuar

Voz isolada

Durante a audiência pública, Nathalia Oliveira, presidente do Conselho Municipal de Política de Drogas e Álcool de São Paulo (Comuda) elogiou a postura de Arthur Guerra, aberto ao diálogo com a sociedade civil em um governo que não tem como prática a conversa com os movimentos sociais e a população em geral. “É uma das gestões mais autoritárias que já vi”, afirmou.

Entretanto, a presidenta do Comuda disse que outros setores da administração municipal não assumem os compromissos relacionados ao tema e questionou se o governo Doria quer, de fato, fazer a política de drogas avançar no município.

“Você sente segurança de que esse plano vai ser implementado? Você percebe entre seus companheiros de gestão interesse e compromisso?”, perguntou Nathalia Oliveira.

A abertura para o diálogo de Arthur Guerra e sua boa disposição em enfrentar o problema das cracolândias também foram pontos elogiados pela psicóloga Maria Angélica Comis, integrante do Comuda e ex-coordenadora de políticas de drogas da secretaria de Direitos Humanos do governo Haddad. Ela reconheceu saber das dificuldades de concretizar a intersetorialidade dentro da gestão pública, mas também cobrou maior compromisso de outras secretarias, como a de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e Segurança Urbana.

A audiência pública contou ainda com a participação de usuários e ex-usuários de drogas, que fizeram fortes cobranças, principalmente com críticas relacionadas às ações violentas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e Polícia Militar (PM) na região da Luz. “Pra falar é lindo, mas, na prática, esse programa não existe. Enquanto estiver a polícia lá batendo e matando, isso nunca vai ser estratégia de saúde”, reclamou Loura Matoso, ex-usuária de crack.  

Quando a palavra voltou ao coordenador Arthur Guerra, sua sinceridade em reconhecer se sentir “solitário” deu o tom final da apresentação do Programa Redenção, e deixou nos participantes da audiência pública a dúvida sobre o futuro da iniciativa.

Apesar de Doria ter solicitado à Justiça, em maio, autorização para a internação compulsória de usuários na Cracolândia  pedido posteriormente negado pelo Judiciário –, a prefeitura afirma, em nota, que "sempre" deixou claro não perceber oposição entre as políticas de redução de danos e promoção da abstinência.