Profissão: perigo

Desprotegidos, profissionais de enfermagem estão na linha de frente contra o coronavírus

No estado de São Paulo, sindicato recebe dezenas de denúncias por dia de falta de equipamentos de proteção e insumos para enfermeiros

Valter Campanato/ABr
"É óbvio que esse trabalhador está desgastado e estressado por todas essas condições péssimas, mas ele não deixa de ter solidariedade, de tentar humanizar o cuidado", destaca Seesp

São Paulo – A maioria dos profissionais de enfermagem atende pacientes infectados pelo novo coronavírus sem o nível de segurança de que precisam para preservar a saúde. De acordo com o sindicato da categoria no estado de São Paulo, faltam equipamentos de proteção individual (EPIs). E, nos locais onde esses insumos são encaminhados, os profissionais de enfermagem se queixam da baixa qualidade dos equipamentos. 

“Há uma grande preocupação porque ontem (8), saiu uma análise feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do número de testagem feitos em profissionais da saúde. O índice de 25% de contaminação é mais alto do que na China e na Itália. Isso significa que os nossos profissionais estão desprotegidos. E portanto precisamos dar maior atenção a essa questão. Porque daqui a pouco nós não vamos ter profissionais suficientes”, alerta a presidenta do Sindicato dos Enfermeiros, Solange Caetano.

Em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual, Solange conta que a entidade sindical recebe de 30 a 40 denúncias, todos os dias, de profissionais com medo de se contaminar e transmitir a doença. 

Contaminação e mortes

No último dia 7, o Conselho Federal de Enfermagem (Confen) divulgou balanço contabilizando oito mortes de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem em decorrência da covid-19. Outras 11 mortes também vêm sendo investigadas por terem traços semelhantes ao da doença. 

“Esse medo é impressionante, porque ele acaba afetando. Nós somos majoritariamente uma categoria feminina, a maioria são mães e muitas não estão indo para sua casa. Estão ficando no hospital ou em casas de amigos, com medo de estarem contaminadas e transmitirem a doença para seus filhos e familiares. Mas, apesar do medo, elas não estão deixando de ir, continuam cumprindo seu papel como profissionais da saúde. Isso porque pensam no bem da comunidade e estão firmes na luta, mesmo com medo”, ressalta a presidenta.

Cobranças do governo 

Na linha de frente no combate ao coronavírus, o sindicato afirma que desde as primeiras denúncias tem cobrado do governo estadual e da capital, com João Doria e Bruno Covas, respectivamente, ambos do PSDB, uma série de medidas para a proteção dos profissionais da enfermagem. 

Além da urgência por EPIs de qualidade, a categoria pede a imediata testagem em massa entre os enfermeiros, o chamamento de concursados,  transporte público gratuito e apropriado aos profissionais e a disponibilização de quartos de hotéis para os profissionais que não podem voltar para suas casas depois do trabalho. Solange destaca que as demandas estão sendo negociadas, mas até agora nenhuma delas foi garantida. 

Relação paciente-enfermeiro

Numa convivência ainda mais intensa com os pacientes do que muitas vezes os próprios médicos, a presidenta do sindicato ainda comenta que as condições dos hospitais também colocam uma vulnerabilidade maior sobre enfermeiros, que relatam constantemente cada vez mais menos vagas nas Unidades de Terapia Intesiva (UTIs) e descumprimento da distância social entre um leito e outro para impedir a contaminação cruzada. 

“É óbvio que esse trabalhador está desgastado e estressado por todas essas condições péssimas, mas ele não deixa de ter solidariedade, de tentar humanizar o cuidado, para tentar com isso restabelecer a saúde da pessoa o mais rápido possível. Porque, para nós, trabalhadores da saúde, profissionais de enfermagem, em primeiro lugar sempre está o nosso paciente”, finaliza Solange.

Ouça: