Pandemia e caos

‘Situação que vivemos é reflexo de um desgoverno total’, diz infectologista

“Enganam a população ao divulgar que existe tratamento eficaz em casos graves. A vacina é a única forma de controlar a pandemia”, afirma Raquel Stucchi, da Unicamp

Amazônia Real/Bruno Kelly - Isac Nóbrega/PR - Reprodução/Youtube
“Nós politizamos diagnósticos, o uso de máscaras, o tratamento precoce e também a vacina", afirma Raquel Stucchi, para explicar as consequências do desgoverno Bolsonaro na condução da tragédia sanitária brasileira

São Paulo – Nem mesmo o trágico colapso do sistema de saúde e falta de oxigênio em Manaus faz com que o governo de Jair Bolsonaro adote um tom mais humilde e realista em relação à sua conduta ante a pandemia de covid-19. Pelo contrário, as declarações tanto do presidente quanto de seu vice, Hamilton Mourão, continuam isentando o Executivo das responsabilidades sobre o quadro na capital do Amazonas ou no Brasil. “A gente está sempre fazendo o que tem que fazer, né?”, disse o chefe do governo nesta sexta-feira (15), para em seguida acrescentar: “nós fizemos a nossa parte”. Já o vice afirmou que “o governo está fazendo além do que pode dentro dos meios que a gente dispõe”. Segundo o general, “na Amazônia as coisas não são simples”.

Depois de Bolsonaro, por diversas vezes, atacar ou ironizar a CoronaVac, produzida pela farmacêutica chinesa Sinovac e, no Brasil, pelo Instituto Butantã, o presidente e seu entorno parecem começar a perceber que a crise sanitária já ameaça sua própria sobrevivência política. Mostra disso é o comunicado do Ministério da Saúde, na tarde de ontem, no qual solicita ao Instituto Butantan a “entrega imediata” de 6 milhões de doses do imunizante chinês.

:: Disputa pela ‘vacina do Butantan’ expõe desmonte da ciência pelo governo Doria

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve decidir no domingo (17) se vai ou não autorizar o uso da vacina chinesa e também a desenvolvida em parceria entre Fiocruz e Universidade de Oxford. Mas o voo do avião que iria à Índia buscar 2 milhões de doses deste imunizante foi adiado hoje pela segunda vez e sua missão continua incerta.

“A situação que vivemos é reflexo do desgoverno total ao longo do ano passado. Da recusa em aceitar o que a ciência preconiza, principalmente o governo federal, com a postura de orientar a população de maneira que só contribui para o avanço da pandemia, fomentar aglomerações, ser contra as medidas de bloqueio de transmissão do vírus”, diz a infectologista Raquel Stucchi, da Universidade Estadual de Campinas. “Nós politizamos diagnósticos, o uso de máscaras, o tratamento precoce ou não, e politizamos também a vacina.” Para ela, se os erros do governo federal são óbvios, houve equívocos também do governo de São Paulo, de João Doria, que “contribuiu para essa politização e essa divisão”, no caso da vacina.

Vacina é a única solução

“Além disso, enganam a população ao divulgar informação de que existe tratamento eficaz e seguro em casos graves da doença. A vacina é a única maneira de controlar a pandemia de forma eficaz e prolongada. A situação de Manaus pode se repetir no resto do país, e mostra que o cuidado com a saúde como um todo foi esquecido”, acrescenta.

A especialista ironiza as falas de Bolsonaro e Mourão sobre o governo ter feito a sua parte ou “além do que pode” para conter a covid na capital amazonense. “Se fez tudo o que podia e Manaus está desse jeito, pode muito pouco. Então saia, você e sua equipe, porque não têm competência.” Raquel Stucchi lembra que Manaus foi a primeira capital do país a atingir o pico da pandemia, ainda em abril, e a situação hoje revela falta de planejamento e de orientação à população para que contribuísse. Internautas e movimentos sociais marcaram para a noite desta sexta-feira (15), às 20h30, um panelaço contra Bolsonaro.

Responsabilidade é de todos

A infectologista da Unicamp afirma ser importante destacar que cada cidadão assuma responsabilidades para controlar a pandemia, evitando aglomeração, usando máscaras, fazendo distanciamento social e adotando medidas de higiene básicas, como lavar as mãos. “Se a gente não ficar em casa, não usar máscaras, não adotar o distanciamento social, as grandes metrópoles ‘serão’ Manaus”, prevê. “Cada um tem que ter responsabilidade, não só o gestor.”

Para ela, a conduta inconsequente de boa parte da população vai acabar se voltando contra ela mesma, pois os governos precisarão adotar novas medidas restritivas que vão piorar a situação econômica e aumentar o desemprego.

Apesar de tudo, o país terá a vacina, a única luz no fim do túnel. Nesse sentido, o esforço deve ser para conscientizar a população da importância da vacinação. Por outro lado, “mesmo vacinando temos que manter as medidas de controle da transmissão”, alerta a especialista. Em sua opinião, o uso de máscaras vai ser mantido e o distanciamento social continuará necessário “com certeza até o final do ano”.


Leia também


Últimas notícias