Demagogos

Médicos de São Paulo desmentem Doria e Bolsonaro: não tem vacina suficiente

Hospital Universitário da USP, com 1.295 funcionários, entre efetivos, temporários, terceirizados, estagiários e residentes, recebeu só 200 doses da vacina

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Mesmo na insuficiência de vacinas, Doria e Bolsonaro não tomam medidas básicas para evitar o contágio e mortes

São Paulo – Em nota publicada nesta quarta-feira (27), o Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) desmente o discurso dos governador paulista, João Doria (PSDB) e do presidente Jair Bolsonaro e afirma que ambos se utilizam das vacinas contra a covid-19 de forma demagógica. “A verdade é que não há doses suficientes da vacina propagandeada e vemos o presidente, Jair Bolsonaro, e o governador do estado de São Paulo, João Doria, usarem eleitoralmente sua guerra fútil enquanto milhares falecem”, diz trecho de nota, em relação aos planos de vacinação nacional e estadual, que considera deficitários.

O sindicato, que representa médicos que atuam no sistema de saúde da maior parte dos municípios paulistas, ressalta ainda que, para piorar, ao mesmo tempo em que faltam vacinas o governo Bolsonaro e seus apoiadores continuam estimulando tratamentos à base de medicamentos comprovadamente sem eficácia para pacientes de covid-19.

A nota alerta ainda que, assim como Bolsonaro, Doria segue sem adotar política de isolamento social. “Doria utiliza os critérios de fases de cores ao seu bel-prazer, e assim como o governo Bolsonaro, não garante as políticas públicas para condições de renda, emprego, alimentação e transporte adequadas”.

Um exemplo da situação enfrentada é o Hospital Universitário (HU), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Na última semana, foram entregues 200 doses de vacina, aplicadas inicialmente em funcionários de dois setores, entre eles a UTI. E ficou por isso. “Até o presente momento o HU não imunizou seus trabalhadores, que não conhecem um cronograma da vacinação e muito menos de onde vai vir a vacina”, disse à RBA o infectologista Gerson Salvador, que atua no HU.

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), o número de trabalhadores do hospital está em torno de dois mil, incluindo funcionários efetivos, temporários, terceirizados, residentes e estagiários, entre outros. Portanto, o número é bem maior do que os 1.295 apontados pelo Conselho Deliberativo do HU. Seja qual for, tudo indica que não vai ter vacina para todos.

No escuro

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), que integra comissão externa da Câmara que acompanha o enfrentamento da covid-19, enviou na segunda-feira (25) requerimento de informações ao secretário estadual de Saúde, Edson Aparecido. O parlamentar, que foi ministro da Saúde no governo de Dilma Rousseff, quer saber quantas doses foram enviadas ao HU-USP, quantas ainda serão enviadas e qual o plano para esse envio. E também os critérios orientados pela secretaria que as unidades de saúde devem observar. O secretário ainda não respondeu à solicitação.

Na semana passada, a RBA publicou reportagem segundo a qual a maioria dos profissionais da saúde do país não deverá ser contemplada tão cedo pela vacinação contra a covid-19. O Ministério da Saúde fala em 8 milhões de doses iniciais, que devem ser aplicadas também em idosos e indígenas aldeados.

No entanto, de acordo com a Rede de Pesquisa Solidária, há pelo menos 5 milhões de profissionais da linha de frente da prevenção e de combate à doença em todo o país. Logo, seriam necessárias pelo menos 10 milhões de doses.

Leia a íntegra da nota do Simesp

Planos de vacinação nacional e do estado de São Paulo são deficitários

A falta de um enfrentamento da pandemia no Estado de São Paulo e no Brasil choca a todos nós profissionais de saúde. Por diversas vezes denunciamos falta de condições de trabalho dos médicos e demais profissionais de saúde: não há testes suficientes, faltam equipamentos de proteção individual (EPIs) e muitos trabalham em vínculos precários sem direito a afastamento em caso de acometidos pela Covid-19. Nos estarrecemos com a falta de leitos em vários locais e de oxigênio no Amazonas.

A verdade é que não há doses suficientes da vacina propagandeada e vemos o presidente, Jair Bolsonaro, e o governador do estado de São Paulo, João Doria, usarem eleitoralmente sua guerra fútil enquanto milhares falecem. Ao mesmo tempo que tratamentos continuam sendo estimulados sem nenhuma comprovação científica pelo governo federal, nenhuma política de isolamento social foi realmente impulsionada por Doria, que utiliza os critérios de fases de cores ao seu bel-prazer, e assim como o governo Bolsonaro, não garante as políticas públicas para condições de renda, emprego, alimentação e transporte adequadas.

A vacinação em massa, que ajudaria a garantir um controle da pandemia, ainda deve demorar, sendo necessário hoje a ampliação de condições de enfrentamento com políticas públicas e isolamento social. Recebemos nesta semana inúmeras denúncias da distribuição irregular e injusta da vacina, além da possibilidade de o setor privado capitalizar as doses e faltar pra quem realmente precisa. Médicos, médicos residentes e pejotizados, enfermeiros, fisioterapeutas, profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), dos hospitais e de todas as unidades e serviços de saúde que estão na linha de frente denunciam a falta de perspectiva e a demora dos imunizantes.

Por isso, exigimos:

1) Vacinação para todos os trabalhadores da saúde imediatamente! Incluindo os terceirizados, serviços de apoio, serviço de urgência e residentes. Com planejamento de vacinação para toda a população com vacinas produzidas, adquiridas e distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

2) Testagem em massa, EPIs e profissionais suficientes para o enfrentamento da pandemia no serviço público.

3) Tratamentos baseados em evidências.

4) Ampliação das políticas de isolamento associadas à garantia de sobrevivência da população: renda emergencial, garantia de emprego e nenhuma demissão.

5) fora Doria e Bolsonaro! Esses governos não respondem às nossas necessidades.

Assinam a nota:

  • Federação dos Trabalhadores em Seguridade Social no Estado de São Paulo (FETSS);
  • Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde do Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira;
  • Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp);
  • Sindicato dos Nutricionistas do Estado de São Paulo (SindiNutri-SP);
  • Sindicato dos Psicólogos de São Paulo (SinPsi);
  • Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep); e
  • Sindicato dos Trabalhadores na Área de Saúde Privada e Filantrópica do Grande ABC (SindSaúde ABC).