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Enquanto covid-19 avança e vacinação é incerta no Brasil, segunda onda na Europa perde força

Isolamento social confirma eficácia na contenção de contágios pelo coronavírus na Europa. Enquanto isso, Brasil vive aumento de casos e incertezas sobre vacinas

Reprodução/Nações Unidas
O secretário de Vigilância em Saúde da pasta, Arnaldo Medeiros, concedeu informações vagas sobre a vacinação no país. Foram mais vontades do que planos concretos

São Paulo – O Brasil registrou mais 697 mortes por covid-19 nas últimas 24 horas, segundo boletim divulgado na noite desta terça (1º) pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass. Já são 173.817 vítimas desde o início da pandemia, em março. O número de casos teve um salto importante no perído: 50.999 novos infectados, totalizando 6.386.787. Isso, sendo o Brasil um dos países que menos aplica testes à sua população. Os números reais, de acordo com cientistas, são seguramente maiores.

Mesmo diante da subnotificação, é evidente que a covid-19 avança no país. Os indicadores mostram que a atual média móvel de novos infectados é comparada à registrada em meados de setembro. O número de mortes também indica descontrole da pandemia, após um breve recuo, registrado especialmente em outubro.

Curvas epidemiológicas de casos e mortes no Brasil. Após estabilidade e breve recuo, pandemia volta a subir

Imunização a brasileira

O Ministério da Saúde anunciou hoje (1) que vacinas contra a covid-19 serão incluídas no Plano Nacional de Imunização. Entretanto, não foram citadas datas precisas nem quais imunizantes serão adotados. Nas entrelinhas, o ministério descartou a vacina desenvolvida pela Pfizer em parceria com a BioNTech, já que o país não possui condições logísticas de armazenar o composto, que exige refrigeração de 70 graus negativos.

As informações vagas e a ausência de planejamento para o combate da pandemia faz especialistas temerem que o Brasil não consiga estabelecer uma vacinação em curto prazo para a população, como está para ocorrer na Europa e Estados Unidos. Em coletiva hoje, o secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Arnaldo Medeiros, nem mesmo citou andamento de estudos, ou quais seriam as vacinas a serem adotas preferencialmente.

“O que nós queremos de uma vacina? Qual o perfil de uma vacina desejada? Claro, que ela confira proteção contra a doença, que ela tenha elevada eficácia, que ela tenha segurança, que ela seja capaz de fazer uma indução da memória imunológica, que ela tenha possibilidade de uso em diversas faixas etárias, e em grupos populacionais”, disse.

Medeiros ainda afirmou que o “ideal seria uma vacina de dose única”. Entretanto, os compostos em desenvolvimento contra a covid-19 necessitam, majoritariamente, de mais doses. O corpo técnico do ministério anuncia que vai se reunir amanhã para o traçado de estratégias e, possivelmente, mais informações serão divulgadas ainda nesta semana. O governo federal já adiantou que a totalidade da população não deve ser vacinada em 2021.

Cenário europeu

A Europa viveu a explosão da primeira onda de contágios da covid-19 antes do Brasil. Enquanto o vírus dava seus primeiros passos na América do Sul, o chamado velho continente já chegava ao pico de casos e mortes entre março e abril. As falhas nos sistemas de Saúde em países como Itália e Espanha, entretanto, não foram suficiente para que as autoridades brasileiras tomassem atitudes prévias ao pior cenário.

Após o susto, os países da comunidade europeia conseguiram suprimir o vírus, com ações agressivas de isolamento social. O chamado lockdown (que nunca chegou a ser imposto no Brasil) foi adotado pela maior parte dos países. Como resultado, o fim da primeira onda da covid-19. Com a chegada do verão no hemisfério norte, os países começaram a voltar às rotinas de um “novo normal”, com flexibilização do isolamento e manutenção de medidas protetivas como uso de máscaras.

Com o verão, um sentimento de que o pior havia passado ganhou parte dos europeus. Aglomerações passaram a ser constantes em balneários famosos, como na Riviera Francesa, ou nas ilhas espanholas. O resultado veio com a chegada do outono. Em outubro o número de casos e mortes voltou a subir. O ápice foi no início de novembro.

Os números de novos casos superaram os da primeira onda. Entretanto, as mortes não foram tão elevadas. Algumas explicações para o fato são: aumento expressivo na quantidade de testes; maior taxa de infecção entre mais jovens; e melhores protocolos de tratamentos.

Terceira onda?

No início de novembro, a França testava 150 mil pessoas por dia, dez vezes mais do que o Brasil. Boa parte dos membros da comunidade europeia também adotaram testagem massiva para a covid-19. Com isso, foi possível adotar ações com maior antecedência ao pior cenário. Novamente, França, Alemanha, Itália, Reino Unido, Holanda, Portugal, República Tcheca, entre outros, adotaram fortes medidas de isolamento social. Incluindo o lockdown estratégico.

Em Portugal e na França, sair de casa apenas para atividades essenciais. O governo francês decidiu pelo lockdown, pelo menos até o fim de dezembro. Espanha com toque de recolher decretado até maio de 2021.

E os resultados já vieram. Com a adoção de medidas mais duras, alguns países já mostram quedas sustentáveis nos números de casos e mortes por covid-19. O Imperial College de Londres, que analisa a pandemia descontrolada no Brasil, sem sequer o país ter saído de uma primeira onda, já informa sobre os resultados positivos no Reino Unido. Em menos de um mês, as infecções caíram 30%.

A queda da segunda onda se repete em muitos outros países europeus. Em comum, todos adotaram medidas mais rígidas de isolamento social. Entre eles Áustria, Bélgica e Grécia.

Segunda onda na França já mostra forte tendência de queda após a adoção de lockdown

Estratégia

O período de lockdown nestes países deve ser menor do que durante a primeira onda da covid-19. Isso, porque nem sempre o isolamento radical é a solução. Com o índice de contágios sob controle, recomenda-se medidas mais brandas como uso massivo de máscaras, proibição de eventos com muita aglomeração e, o mais importante, testagem em massa com rastreio de contágios.

Tais estratégias são eficazes para evitar freios econômicos que são mais pesados com o lockdown. Mas o fato é que a Europa está superando a segunda onda. Especialistas já falam em uma possível terceira onda, provocada pelo excesso de otimismo em torno da vacinação (que deve vir em breve no continente) e a aproximação das festas de fim de ano.

Muitos países já anunciaram flexibilizações para as festas. A França deve suspender o lockdown e reabrir lojas, teatros e cinemas. Também devem ser permitidas viagens dentro do país. Na Espanha, a recomendação do governo é pelo limite de seis pessoas no Natal, e a realização de encontros ao ar livre. Já na Itália o governo pede “sobriedade, sem festas, abraços e beijos”.

Vacinação

O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou hoje (1) que a vacinação no país deve começar neste mês. Entretanto, o país deve conseguir vacinar o país em massa entre abril e junho. Até lá, serão realizadas ações pontuais para grupos especiais, como trabalhadores da saúde e pessoas mais vulneráveis. A França tem 28.258 pessoas internadas devido à covid-19, sendo 3.751 destes pacientes em UTIs.

No Reino Unido a expectativa é similar em relação à covid-19. De acordo com o periódico local The Guardian o plano é de iniciar a vacinação dos mais vulneráveis no início da semana que vem. De acordo com o primeiro-ministro, Borins Johnson, a maior parte dos ingleses já estarão imunizados até a Páscoa. São três vacinas que devem ser liberadas nos próximos dias na terra da rainha: a da norte-americana Pfizer, a da alemã BioNTech e a da AstraZeneca. A Inglaterra vive em regime de lockdown há duas semanas e deverá ser revisto amanhã (2).

O cenário é semelhante na Alemanha. O país já prepara postos de vacinação nas grandes cidades e, de acordo com o ministro da Saúde, Jens Spahn, as primeiras imunizações começam nas próximas semanas, com a aplicação de algo entre 100 e 300 milhões de doses. Um número alto, mesmo para os padrões de expectativas europeus. “Mesmo com duas doses por vacinação, teríamos o suficiente para nossa própria população e poderíamos compartilhar com outros países”, disse na semana passada.

As expectativas otimistas das lideranças europeias ainda dependem das aprovações das agências reguladoras locais. Já tramitam pedidos de urgência e distribuição emergencial. O Reino Unido é o país que afirma estar mais avançado e deve ser o primeiro a vacinar seus cidadãos no ocidente. China e Rússia já aprovaram vacinas de forma isolada e emergencial.