pior exemplo

Em seis meses de pandemia, países agiram enquanto Bolsonaro abandonou brasileiros

Seis meses após a OMS decretar oficialmente a pandemia, não faltam casos de sucesso no combate à covid-19. No sentido oposto tem o Brasil. Descaso que já deixa 130 mil mortos

Fernando Crispim/La Xunga/Amazônia Real
"Estamos praticamente vencendo a pandemia", disse hoje (11) o presidente, Jair Bolsonaro. Os fatos apontam para a direção oposta

São Paulo –  “Estamos praticamente vencendo a pandemia”, disse nesta sexta-feira (11) o presidente Jair Bolsonaro. Os fatos apontam para a direção oposta. Embora o político use de tal retórica forçada, o Brasil é um dos piores exemplos no combate à covid-19 no mundo. Nesta data, que marca seis meses desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia em todo o mundo, o país sul-americano esteve (e segue) à deriva.

Nesses seis meses de pandemia, países agiram enquanto Bolsonaro abandonou os brasileiros. Desde o início do surto, o presidente ridiculariza o vírus e os mortos. “Gripezinha”, disse ainda em março. “Morreu, quer que eu faça o que? Não sou coveiro”, disse quando o país chegou em 30 mil mortos. Antes disso, Bolsonaro afirmava que a covid-19 não deixaria mais mortos que a H1N1 que, em seu pior ano (2009), deixou pouco mais de 2 mil mortos.

“Outras gripes mataram mais do que essa”, disse no dia 11 de março, data em que a pandemia foi declarada pela OMS. Questionado sobre o que faria a respeito, completou: “Eu não sou médico, eu não sou infectologista”. A marca de mortes em um ano pela H1N1 é atingida a cada dois dias sob sua gestão, com o novo coronavírus.

Na prática, o bolsonarismo se postou como aliado do vírus. Todas as melhores práticas recomendadas por cientistas e pela OMS foram atacadas pelo presidente. “Abrir comércio é um risco que eu corro. Se piorar, vem para o meu colo”, disse em abril. Piorou muito. O Brasil passa de 130 mil mortos e 4,2 milhões de infectados, o segundo país mais afetado pela covid-19. Isso, sem contar a subnotificação. O país é um dos que menos testa. Pouco mais de 6% da população já passou por algum procedimento para detecção do sorotipo. Milhões de testes estão parados no Ministério da Saúde por falta de outros insumos para sua aplicação.

Sem controle

A falta de testes tem relação com a completa ausência de gerenciamento da pandemia no Brasil. Tal comando deveria partir do governo federal. Entretanto, o que Bolsonaro fez foi deixar o Ministério da Saúde sucateado e sem poder. Há 120 dias, a pasta não tem um chefe. O comando é executado desde o dia 15 maio, de forma interina, por um militar sem formação ou experiência em área médica, Eduardo Pazuello.

No início da pandemia, a pasta era ocupada pelo deputado federal Luiz Henrique Mandetta (DEM). Médico de formação, Mandetta errou, especialmente ao não dar a devida importância para a testagem em massa. Contudo, foi demitido por Bolsonaro, não por seus erros, mas pelos acertos. O então ministro defendeu que o país precisaria passar por períodos de isolamento social para conter a propagação do vírus, tal como a totalidade dos países do mundo civilizado.

A postura responsável de Mandetta irritou Bolsonaro, que o demitiu. No lugar, colocou um médico administrador do setor privado, Nelson Teich. Ele adotou uma postura mais flexível em relação à necessidade do isolamento, o que agradou o presidente. Entretanto, novamente, uma postura técnica de Teich o colocou em confronto com Bolsonaro: a indicação da cloroquina.

Jair, o falso messias

Durante todo o período da pandemia, até hoje, Bolsonaro foi se fechando cada dia mais em uma “solução final”. Em sua ideologia de desprezo pela ciência, passou a “receitar” para todos os brasileiros um medicamento, a cloroquina (ou hidroxicloroquina). O medicamento é usado originalmente para doenças como malária e lupus. 

No início da pandemia, a comunidade internacional chegou a levar em conta a medicação, sobretudo por seus resultados in vitro. Entretanto, após inúmeras pesquisas, de diferentes países, os resultados foram certeiros: nas pessoas, a cloroquina não é eficiente contra a covid-19. As vozes da ciência foram, mais uma vez, ignoradas por Bolsonaro. A postura do presidente foi de simplesmente ignorar os fatos.

Sob suas ordens, o dinheiro do contribuinte foi gasto para comprar estoques enormes da substância inútil para a covid-19. O Exército passou a produzir grandes quantidades da substância. Além disso, o Brasil comprou levas do medicamento dos Estados Unidos.

A compra do medicamento dos norte-americanos é mais um capítulo dessa história de fracasso. Os Estados Unidos bateram o martelo sobre a ineficácia da cloroquina. Então, a agência controladora de medicamentos do país suspendeu seu uso e administração. Ou seja, os norte-americanos reconheceram que a cloroquina não funciona e abandonaram o medicamento.

Mesmo assim, após tal reconhecimento, Bolsonaro prosseguiu com a compra. “Se quiserem comprar, eu vendo”, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, questionado se ele venderia um medicamento comprovadamente ineficaz.

Reprodução
“Abrir comércio é um risco que eu corro. Se piorar, vem para o meu colo”, disse Bolsonaro em abril

Vergonha internacional

“Estamos vendo, já começa a aparecer, em especial na mídia de fora, que aqui dentro é difícil de aparecer, que o Brasil foi um dos países que menos sofreu com a pandemia”, disse ontem Bolsonaro, sem citar fontes. Não citou fontes, pois não existem. É quase unânime na imprensa internacional o descrédito brasileiro. Dos maiores periódicos do mundo; The New York Times, The Guardian, El País, DW, Le Monde Diplomatique, Newsweek, e até mesmo as maiores publicações científicas do mundo, como o Lancet, atacaram duramente o descaso bolsonarista com a covid-19.

O descrédito tem fundamento na realidade. A covid-19, ao contrário do que pregava Bolsonaro, é a pior crise sanitária do mundo dos últimos 100 anos. O vírus já deixa mais de 900 mil mortos em todo o mundo, sem contar subnotificação que atinge a muitos países. Os casos superam os 28 milhões. No dia em que a pandemia foi declarada, 11 de março, havia 118 mil pessoas diagnosticadas com covid-19 em 114 países. Os números da OMS indicam 4.291 mortes pela doença até o momento.

A pandemia chegou no Brasil após deixar rastro de mortes em outros países. Não foi falta de tempo para se preparar. Após sucesso de países asiáticos no controle da doença, com medidas fortes de isolamento social, a Europa foi duramente atingida. A Itália foi o país que mais sofreu, seguida da Espanha. Entretanto, os números nestes países foram pequenos perto do registrado no Brasil.

Destaque do norte-americano The New York Times, um dos maiores jornais do mundo

Números e evidências

Em 11 de março, o Brasil tinha apenas 69 casos confirmados de covid-19. Nenhuma pessoa havia morrido ainda. Os governos estaduais e municipais estudavam medidas de distanciamento social e o governo Bolsonaro minimizava os riscos e começava a dar sinais de que não iria agir para evitar a propagação do vírus. Mesmo as medidas de controle em aeroportos, que já eram aplicadas, não passaram de medição de temperatura dos viajantes que chegavam. E nem mesmo foi aplicada em todos os aeroportos internacionais.

No mesmo dia, os Estados Unidos suspendiam os jogos da NBA – a liga de basquete do país. E o presidente do país, Donald Trump suspendeu as viagens com origem na Europa para os EUA, durante 30 dias, para evitar uma maior proliferação do coronavírus. Também foi determinada uma quarentena obrigatória de 14 dias para cidadãos vindos de locais com casos confirmados de covis-19. Mas não adotou nenhuma medida de isolamento social naquele momento. O país registrava 1205 casos e 37 mortes. E logo se tornaria o epicentro da pandemia no mundo.

Eurásia

O governo da Itália determinou medidas mais restritivas para evitar a proliferação da covid-19. Apenas farmácias e supermercados puderam ficar abertos. Qualquer estabelecimento que não pudesse garantir o distanciamento social de um metro entre clientes teve de fechar as portas. Delivery de refeições tiveram de adotar uma série de regras sanitárias. A Itália tinha 827 mortes e 12.462 casos confirmados naquele momento.

No dia que a OMS declarou a pandemia, a Alemanha tinha 1.884 casos e apenas três mortes. Mesmo assim, a chanceler alemã, Ângela Merkel, anunciou que estavam sendo estudadas medidas de isolamento social, suspensão de grandes eventos e medidas econômicas. “Estamos em uma situação em que não sabemos muitas coisas, e o que não sabemos, precisamos levar a sério”, disse Merkel. O país iniciou um rigoroso isolamento social em 17 de março, que durou quase 50 dias.

Na Espanha, havia 4.404 casos e 89 mortes causadas pela covid-19. Mas quatro dias depois da declaração de pandemia o pais entrou em Estado de Emergência, com determinação que todas as pessoas permanecessem em suas casas, com apenas os serviços essenciais funcionando e suspensão de todas as atividades e celebrações da semana santa. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou um amplo pacote financeiro, de 20% do PIB do país para enfrentar a pandemia.

Mesmo tardias, as medidas de isolamento social chegaram na Itália. O resultado foi o recuo do vírus

Ações

Ainda em 11 de março, a Índia suspendeu vistos para turistas vindos de França, Espanha, Alemanha, China, Itália, Irã, Japão e Coreia do Sul. O país tinha apenas 60 casos e nenhuma morte. Em Cuba eram confirmados os três primeiros casos, em turistas italianos que estavam viajando pelo pais.

Seis meses depois, os números mostram que os países que adotaram maiores restrições e medidas rígidas de distanciamento social causaram menos sofrimento às suas populações. Os Estados Unidos são o país com o maior número de casos e de mortos. São 6.289.484 casos confirmados e 180.140 óbitos. O Brasil é o segundo, com 4,2 milhões de casos e 130 mil mortes. Depois vem a Índia, com 4,5 milhões de casos e 76,2 mil mortes.

Curva de mortes no Brasil. Um caso único de ausência de controle e pico estendido

A Itália, que durante algum tempo chamou a atenção do mundo por registrar mil mortes diárias, chegou ontem a 284.796 casos confirmados de covid-19 e 35.767. Já a Espanha tem 566.326 casos confirmados e 29.747 óbitos. O país tem menos mortes que o estado de São Paulo: 32,3 mil. A Alemanha atingiu 256.850 casos, tendo um dos mais baixos números de mortes, proporcionalmente: 9.342. E Cuba registrou, até ontem, 4.459 casos e 104 mortes.

Curva de mortes na Alemanha mostra controle através do isolamento social

Melhores exemplos

A pandemia traçou seu caminho pelo mundo desde o fim de 2019 e demorou a atingir parte do mundo. Alguns países agiram melhores do que os outros. Parte deles alcançou sucesso notável na contensão da pandemia, o que também se reflete em maior segurança econômica para a retomada.

Não exitem segredos sobre o que é efetivo. A OMS sempre recomendou, assim como cientistas de todo o mundo: muitos testes, rastreio de contágios e isolamento social. O primeiro país atingido, a China, seguiu rigorosamente o protocolo. Não à toa, o país mais populoso do mundo e berço do vírus soma 80.377 casos e 4.634 mortos em quase um ano de surto local. O país obteve tamanho sucesso que já pode reabrir sua economia e seus cidadãos seguem com suas vidas normais após o susto.

Cuba é outro grande exemplo de sucesso. A ilha caribenha de 11 milhões de habitantes soma 4.459 casos e 104 mortos. Os habitantes da ilha socialista são em mesmo número, aproximadamente, com a cidade de São Paulo. Sozinha, a capital paulista soma cerca de 15 mil mortos. A boa prática consiste em rastreio de contágios e isolamento social.

Nova Zelândia e sua curva de mortalidade reduzida. Um exemplo para o mundo.

Outro país que seguiu a mesma lógica foi o Uruguai. O vizinho do sul soma 1.754 casos e 45 mortos, mesmo com boa parte da sua população em idade avançada. Nova Zelândia também surpreendeu o mundo com isolamentos radicais e pontuais. O resultado foi o controle total do vírus no país da Oceania. São 1.794 casos e “apenas” 24 mortos.

Curva de casos fatais em Cuba por dia. Um exemplo de controle.