Metrô e CPTM

Trabalhadores desafiam Tarcísio a liberar catracas em greve contra privatizações

“Se o governador topar o desafio, a gente se dispõe a trabalhar com catracas abertas para não prejudicar a população”, afirmou Camila Lisboa, presidenta dos Metroviários

Fernando Frazão/Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fernando Frazão/Marcelo Camargo/Agência Brasil
Trabalhadores em greve também exigem a convocação de um plebiscito sobre privatizações do Metrô, CPTM e Sabesp

São Paulo – Os trabalhadores desafiaram o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a liberar as catracas do Metrô e da CPTM – com entrada gratuita – durante a greve geral que vai ocorrer na próxima terça-feira (3) contra as privatizações dos serviços sociais. Além dos transportes sobre trilhos, a greve abrange os trabalhadores da Sabesp, que o governo de São Paulo também atua para privatizar.

“Se o governador topar o desafio, a gente se dispõe a trabalhar com catracas abertas para não prejudicar o trânsito da população”, afirmou a presidenta do Sindicato dos Metroviários, Camila Lisboa. Ela participou de entrevista coletiva nesta quinta-feira (28), ao lado dos representantes dos outros sindicatos que participam da paralisação.

“Mas o governador não pode mentir, como mentiu em março”, disse Camila. Na ocasião, Tarcísio chegou a sinalizar que aceitaria a liberação de catracas proposta pelos sindicalistas, durante paralisação por abono e por mais contratações, ao mesmo tempo em que recorria à Justiça contra a greve. “Ele saiu como o ‘Pinóquio’ da história.”

Desta vez, a greve não é por reivindicação trabalhista, mas um “protesto” contra as privatizações. “Inclusive é um aviso, porque nossas categorias estão dispostas a lutar até o final. Vamos fazer essa greve no dia 3 e não estão descartados outros movimentos grevistas para impedir esse processo de privatização”, ressaltou Camila.

Caso Tarcísio não aceite o desafio, a paralisação de 24 horas deve atingir todas as linhas do Metrô e da CPTM que ainda estão sob controle do estado. No Metrô, já foram privatizadas as linhas 4-Amarela e 5-Lilás, assim como as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda. Elas operam agora sob controle da Via Mobilidade, empresa do grupo CCR. Por conta da precarização dos serviços e do aumento de falhas, os trabalhadores costumam chamar as linhas privatizadas de “Via Calamidade”.

Aumento da tarifa, piora dos serviços

Os sindicalistas entendem que a privatização vai acarretar em serviços mais caros e piores, prejudicando a população. Além da “Via Calamidade”, eles usaram o estado do Rio de Janeiro como exemplo dos efeitos negativos das privatizações para justificar a greve.

Privatizados há mais de 20, os trens da Supervia e do Metrô Rio ostentam as tarifa mais caras do país – R$ 7,40 e R$ 6,90, respectivamente. A Supervia acumula um histórico de péssimos serviços prestados, com ampliação do intervalo dos trens e superlotação frequente.

Mais recentemente, o governo também privatizou a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). O resultado é que a população fluminense paga 71% a mais pelo serviços do que os paulistas, de acordo com levantamento do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo (Sintaema).

Além disso, no mês passado, a população da região metropolitana do Rio sofreu com corte de 14 horas no fornecimento de água, que afetou mais de 300 bairros. A interrupção aconteceu após uma grande espuma branca aparecer na Estação de Tratamento de Água (ETA) do Guandu, considerada a maior do mundo. A normalização dos serviços levou cerca de 72 horas.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo (Sintaema), José Antonio Faggian, é um “crime” privatizar a Sabesp. “Uma empresa que é bem avaliada, que é lucrativa, que há mais de 20 anos não tira um real dos cofres do estado”, argumenta. “Ao contrário, devolve na forma de dividendos mais de R$ 500 milhões por ano.”

Terceirizações

O movimento de greve protesta não apenas contra as privatizações, mas também contra as terceirizações que avançam nos serviços essenciais em São Paulo. Na linhas ferroviárias operadas pela Via Mobilidade, a empresa terceirizada que operava a bilheteria faliu recentemente. Cerca de 170 trabalhadores da CPTM foram deslocados para operar a venda de bilhetes, relatou Eluiz Alves de Matos, presidente do Sindicato dos Ferroviários de São Paulo.

Apesar disso, Camila alertou que o governo de São Paulo já lançou edital para terceirizar, no mês que vem, todos os serviços de atendimento nas catracas do Metrô. “É algo que vai ter impacto muito grave, principalmente para as pessoas que têm mobilidade reduzida. Eles querem colocar terceirizados que ganham muito mal, sem treinamento, reproduzindo o que aconteceu na Vila Calamidade”, disse a líder dos metroviários. Além disso, o governo também pretende terceirizar os serviços de manutenção da linha 15-Prata do monotrilho.

Plebiscito oficial

Outra demanda dos grevistas é para que Tarcísio consulte a população, através de um plebiscito oficial sobre as privatizações. “Não é justo que Metrô, trem e Sabesp sejam privatizados e a população que usa esses serviços não seja consultada sobre isso”, afirmou Camila.

Nesse sentido, os trabalhadores dos serviços essenciais vem realizando um plebiscito popular, que vai até 5 de novembro, sobre as privatizações. A iniciativa conjunta foi lançada no início do mês. Com urnas e cédulas em pontos de grande circulação de pessoas em todo o estado, os sindicatos querem dialogar com a população, alertando para os riscos do processo.

Para os representantes dos trabalhadores, é consenso que o governo visa multiplicar o lucro das empresas com as privatizações. Ela cita, por exemplo, que cinco empresários da CCR – controladora da “Via Calamidade” – passaram a figurar na lista de bilionários da revista Forbes, divulgada recentemente.