Efeito Lula

Bolsonaro busca quarto ministro da Saúde e saída honrosa para Pazuello

Governo tenta o quarto ministro da Saúde desde o início da pandemia. Apesar do desastre da gestão, troca atende apenas interesses políticos

Rovena Rosa/ABR e Carolina Antunes/PR
Mais de 11 milhões de casos de covid-19 e de 278 mil mortes, Carga pesada para saúde de Pazuello, sob comando de Bolsonaro

São Paulo – Sem conseguir resolver a grave crise de saúde que assola o Brasil – após um ano de pandemia de covid-19 num país sem governo – o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello está por um fio. O ministro-general deveria alegar problemas de saúde, a dele mesmo, segundo informações de O Globo, e deixar o cargo a qualquer momento. Mais tarde, disse estar bem de saúde, mas que entregaria o cargo se o presidente Jair Bolsonaro pedir. Enquanto isso, o (des)governo Bolsonaro procura um substituto às voltas com dilemas cruéis: atender os pleitos de sua base fisiológica no Congresso, e indicar um nome pedido pelo Centrão; ou enfrentar seu próprio negacionismo e indicar um especialista de fato em saúde.

Bolsonaro já teria cogitado nomear o médico Luiz Antônio de Souza Teixeira Júnior, de 45 anos, o deputado federal Dr. Luizinho (PP-RJ), eleito em 2018. Foi secretário de Saúde do Rio de Janeiro, entre 2016 e 2018. E exerceu o mesmo cargo em sua cidade natal, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, entre 2013 e 2015. Dr. Luizinho integra a Comissão Externa do Coronavírus e preside, ainda, a Comissão de Seguridade e Saúde da Câmara. Mas teria enfrentado resistência do ex-ministro Ricardo Barros, também deputado do PP – que seria ele próprio postulante a substituir Pazuello para assumir a pasta que já chefiou no governo de Michel Temer.

Porém, Bolsonaro, acuado pelo efeito Lula, após o contundente pronunciamento da última quarta (11) do ex-presidente, estaria procurando um especialista da área. A jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, crava que o presidente acuado já teria conversado com a cardiologista Ludhimila Hajjar, do Incor e da rede de hospitais Vila Nova Star. Inclusive, Ludhimila já estaria em Brasília. Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, seria outro nome cogitado.

Ser ou não ser ministro de Bolsonaro

Mas que profissional sério, qualquer que seja sua inclinação ideológica, aceitaria comandar uma pasta chave para o momento do país, subordinada a um governo que pratica a necropolítica e o negacionismo científico? O ex-ministro da Saúde, Artur Chioro, questiona que mudança faria alguma diferença para a saúde do país. “Quanto tempo sobreviverá um ministro da saúde que tenha empatia e respeite o sofrimento do povo brasileiro? Poderá pautar suas decisões e ações em evidências científicas, pelo cumprimento de seu papel de coordenador do SUS e respeitará o pacto interfederativo? Sem isso, tudo continuará como antes”, afirmou.

Para se ter ideia, voltou a circular um vídeo em que Ludhmilla Abrahão Haijar defende o isolamento e o distanciamento social, o uso de máscaras e o rastreamento de infecções por meio de testagem em massa como forma de prevenção. Considera o desenvolvimento de vacinas como promissor e também condena métodos “supostamente” preventivos, como uso de medicamentos ineficazes como a cloroquina. Assista aqui. E passaram a circular piadas que Bolsonaro, depois de ouvir isso, não a indicaria.

Para debater o enrosco – com preocupação antes política do que científica – Bolsonaro teria se reunido no sábado com o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL, olha o PP aí de novo). E depois, com o próprio Eduardo Pazuello, além dos ministros Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Fernando Azevedo (Defesa) no hotel de Trânsito do Exército. A saída do dilema passa pelos militares que tentam monitorar o governo. Os militares ficaram amuados após a fala de Lula, em que afirma que teria demitido um “servidor” como Eduardo Villas Bôas por ter praticado ingerência política nos rumos da democracia do país – papelão inclusive vetado pelo código de ética das Forças Armadas.

“Pazuello erra, e erra muito”

Então secretário-executivo da pasta, Pazuello assumiu o Ministério da pasta em 16 de maio do ano passado, com a saída de Nelson Teich. Em 2 de junho foi nomeado ministro interino e empossado como titular em 16 de setembro. A indecisão, em plena pandemia do novo coronavírus, foi considerada como uma mostra do descaso de Jair Bolsonaro com a saúde dos brasileiros. O general substituiu o médico Nelson Teich, que esteve à frente do Ministério da Saúde entre 17 de abril e 15 de maio. Teich, por sua vez, assumiu no lugar de Luiz Henrique Mandetta, ministro desde a posse de Bolsonaro até ser demitido em 16 de abril. Teich e Mandetta caíram por discordar das posições negacionistas do presidente da República. Mandetta, hoje, tem o nome construído por setores da elite política que procuram uma “terceira via” para 2022.

A gestão parece ter feito mal à saúde de Pazuello. Isso porque ele acabou obrigado a corroborar as sandices do presidente Bolsonaro. Dentre elas, um manual de incentivo ao uso de cloroquina e a inação diante das mortes no Norte do Brasil, por falta de oxigênio.

O presidente do conselho de secretários estaduais de Saúde, Carlos Lula, secretário no Maranhão, admitiu em entrevista que Pazuello teve um início de gestão “admirável”, mas que sucessivos erros da pasta minaram a credibilidade no general. “Ele tem tentado acertar, mas tem errado muito. É aberto a escutar, é uma qualidade que não é fácil de se ver em quem é ministro”, reconheceu Carlos Lula. “Por outro lado, se cercou de pessoas que não fazem seguir o melhor caminho. Ele erra, e erra muito. De Manaus às vacinas. Não é só culpa dele. Ele tentou resolver a Coronavac lá atrás. O presidente não deixou.”


Colaborou Cláudia Motta


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