Aliança espúria

Conversas entre Moro e procuradores da Lava Jato podem atingir a imprensa

Jornalista Lalo Leal destaca que durante quase sete anos veículos da imprensa tradicional montaram aliança com a Lava Jato para destruírem Lula e o PT

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Moro e Dallagnol foram alçados a condição de heróis pela mídia, que encobria as ilegalidades cometidas

São Paulo – O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou o sigilo das conversas entre os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz federal Sergio Moro na última segunda-feira (1º). Desde então, de acordo com o jornalista Laurindo Leal Filho, o Lalo, a cobertura da imprensa tradicional sobre mais esse episódio que envolve a Lava Jato tem sido “simplesmente vergonhosa”. Os veículos das organizações Globo, por exemplo, têm dedicado espaços ínfimos e tempos reduzidos nos seus noticiários sobre essas novas revelações.

Os diálogos reforçam o conluio montado por Moro e os procuradores para prender o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também mostraram preconceitos de classe dos integrantes da força-tarefa e ataques depreciativos ao líder petista e seus familiares.

Contudo, essa nova leva de conversas reveladas é apenas uma ínfima parte (cerca de 1%) do material em posse da defesa do ex-presidente. O material colhido na Operação Spoofing, que culminou com a prisão dos hackers que interceptaram as conversas, já foi periciado pela Polícia Federal (PF), que atestou a sua veracidade.

A hipótese de Lalo é que os sete terabytes de dados apreendidos também revelem a relação de Moro e a Lava Jato com os próprios veículos da imprensa tradicional, especialmente com a própria Globo.

“Minha especulação é que tudo o que ainda tem para ser revelado nessas conversas criminosas entre Moro e os procuradores pode bater muito forte em empresas da mídia, sobretudo a Globo. Há um temor muito forte que isso se expanda e chegue nas próprias redações, nos seus profissionais e nos donos dessas empresas. Há muito ainda o que se conhecer dessa caverna”, disse Lalo, em entrevista ao Jornal Brasil Atual, nesta quinta-feira (4).

‘Mancomunados’

“A mídia quase despreza esse assunto”, afirmou o jornalista, que também faz parte do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da diretoria do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Fosse ao contrário, e essas mensagens implicassem Lula, “imagina o carnaval que estariam fazendo”.

Isso se dá porque, durante quase sete anos, o então juiz Sergio Moro, os procuradores da Lava Jato e a imprensa tradicional estabeleceram uma aliança. O objetivo era prender Lula e evitar que o PT voltasse ao comando da República. “A mídia brasileira está totalmente mancomunada com esses interesses políticos e econômicos da Lava Jato”.

Lalo lembrou que, em meados de 2019, quando essas conversas começaram a ser divulgados pelo The Intercept Brasil, a Globo e outros veículos faziam questão de duvidar da veracidade do conteúdo, classificando como “supostos diálogos”. A maré começou quando a Folha de S. Paulo e a Revista Veja, dentre outros, passaram a colaborar na apuração da Vaza Jato, junto com o The Intercept Brasil. Puderam atestar a veracidade do conteúdo principalmente quando encontraram ali conversas entre os próprios jornalistas e os procuradores.

Impactos

Além dos impactos políticos, Lalo também destacou as consequências econômicas da Lava Jato. Ao colocar a Petrobras sob cerco e responsabilizar empreiteiras, como a Odebrecht e a OAS, em vez dos seus executivos e controladores, a força-tarefa de Curitiba contribuiu para destruição da indústria naval e da construção pesada no Brasil. “Além de impedir a candidatura do Lula, a Lava Jato destruiu milhares de empregos. Eles são responsáveis por centenas de milhares de famílias que hoje passam por necessidades, porque homens e mulheres ficaram desempregados”.

Ele disse, ainda, que se as revelações prosseguirem no ritmo dos últimos dias, apesar da “censura” de parte da imprensa, haverá “desdobramentos impensáveis”. “Mas, sem dúvida alguma, benéficos para a sociedade brasileira e para a nossa democracia”, destacou o jornalista.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira – Edição: Helder Lima