Cofres públicos

‘Vai pra puta que o pariu’, diz Bolsonaro a jornalistas sobre leite condensado superfaturado

“É típico de miliciano acuado, que quando se vê em situação de flagrante grita para ver se as pessoas se intimidam”, diz deputado Paulo Pimenta

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Nesta quarta o senador Randolfe Rodrigues entrou com representação junto ao TCU, pedindo investigação dos gastos do governo com alimentação

São Paulo – “Vai pra puta que o pariu”, gritou Bolsonaro ao microfone de uma churrascaria em Brasília na tarde desta quarta-feira (27). “É para encher o rabo de vocês da imprensa, essas latas de leite condensado”, disse o presidente da República, irritado com a divulgação dos gastos de R$ 1,8 bilhão do governo com alimentação em 2020. Ao lado do chefe do governo, seu ministro das Relações Exteriores, “diplomata” Ernesto Araújo, ri, bate palmas e grita “mito”. O destaque do “carrinho” de compras do governo foram os R$ 15 milhões gastos com leite condensado, a um custo unitário de R$ 162 por caixa de 395 gramas. Também chamam a atenção os R$ 2,2 milhões pagos pelos cofres públicos apenas para a compra de chicletes. A declaração é dada em ambiente fechado, repleto de pessoas sem máscara.

“Isso é típico de miliciano acuado. Que quando se vê numa situação de ser pego em flagrante tenta gritar mais alto para ver se as pessoas se intimidam”, diz o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS).

Ontem (26), o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e os deputados federais Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES) protocolaram representação junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) contra a Presidência da República. Nesta quarta, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AC) tomou a mesma iniciativa, pedindo que o órgão investigue tais gastos do governo Bolsonaro.

Na petição enviada ao TCU, Randolfe Rodrigues lembra que, com R$ 1,8 bilhão, seria possível pagar mais uma parcela de R$ 600 a título de auxílio emergencial a cerca de 3 milhões de famílias. No entanto, o “condutor” das contas do governo, o ministro Paulo Guedes (Economia), afirmou ontem (26) que não há dinheiro para prorrogar o auxílio. O benefício só poderia ser recriado “se a pandemia se agravar e continuar 1.500 mortes por dia, a vacina não chega, se falhássemos miseravelmente nas vacinas”, disse Guedes.

“Marca do presidente”

O senador da Rede lembra que os itens que compõem a cesta básica da população brasileira são carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. Para ele, é injustificável o gasto de quase R$ 15 milhões com achocolatado, e aproximadamente R$ 4 milhões com amendoim torrado, R$ 7 milhões de bacon defumado, R$ 13 milhões com barra de cereal, R$ 9 milhões com bebida láctea, R$ 9 milhões com bombom e R$ 2 milhões com chiclete, quase R$ 14 milhões com sorvete e mais de R$ 2 milhões com vinho.

“Será que os gestores do Executivo Federal entendem que os agentes públicos são mais cidadãos do que boa parte da população brasileira, que vive, no máximo, nos limites da cesta básica?”, questiona o senador. “E o pior: com o dinheiro público, que vem justamente dos tributos, em essência (dada a regressividade do sistema tributário), dessa classe mais baixa da população”, acrescenta.

O deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, justificou as compras se atendo ao leite condensado. “Foi escolhido por ter virado de certa maneira uma marca do presidente. Presente até em seu café da manhã com John Bolton em sua residência no Rio durante a transição em 2018”, disse. Segundo ele, a maior parte da compra do produto foi dirigida ao Ministério da Defesa, porque é “indicado” a quem faz muitas atividades físicas. “E serve de base para a elaboração de vários outros alimentos comuns a mesa dos brasileiros como bolos”. O “carrinho” de compras do governo destinou R$ 632 milhões à pasta.

Confira o vídeo

Momento em que Bolsonaro manda jornalistas a puta que o pariu e diz o leite condensado vai para o “rabo de vocês”