Audácia

Ciro Gomes diz que Bolsonaro é ‘canalha’, Doria é ‘igualzinho’ e se apresenta para 2022

“O antibolsonarismo nos une, mas não vamos fazer de conta que o dia seguinte não existe”, afirma Ciro Gomes, mandando recado a figuras como Doria e Huck . “Não quero acordo com essa gente. O resto eu topo.”

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Ciro Gomes: “A revolução tecnológica exige um novo pensamento e uma presença forte do Estado. Esse conflito a esquerda moderna precisa dominar. Não somos revolucionários para tomar os meios de produção”

São Paulo – “Eu não sou um neutro observador da cena brasileira. Eu estou tendo a audácia, o despudor e talvez a imprudência de pedir pela quarta vez ao povo brasileiro uma oportunidade de presidir o Brasil. E conheço o tamanho do buraco, o tamanho da tragédia. Às vezes penso: será que não vou decepcionar as pessoas? Mas eu vou me animando de que é possível.” Ciro Gomes, ex-ministro de Lula e de Itamar Franco, como gosta de lembrar, foi direto e claro ao oferecer seu nome para liderar uma frente do campo progressista para a disputa presidencial de 2022. Ele já concorreu em 1998, 2002 e 2018.

A declaração foi dada durante o programa República e Democracia: O Futuro não Espera, na presença virtual do ex-ministro da Educação e da Justiça Tarso Genro, ex-governador gaúcho, e do professor da Universidade Federal do Paraná Wilson Ramos Filho, o Xixo, presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora (Declatra).

Genro e Xixo são os idealizadores do programa, exibido nesta terça-feira (19) pela TVT e Rádio Brasil Atual. Ciro Gomes foi o primeiro de uma série de entrevistados a debater, nas próximas semanas, as possibilidades de convergência para a formação de uma frente de enfrentamento ao bolsonarismo, ao fascismo e ao ultraliberalismo, nas palavras de Tarso Genro.

República e Democracia


O programa estreou ontem (19) na TVT e na Rádio Brasil Atual. O objetivo: debater a construção de uma unidade do campo progressista contra o bolsonarismo, o fascismo e o neoliberalismo.

Entre os próximos entrevistados estão José Dirceu e Flávio Dino. Toda terça, 19h.

TVT estreia programa semanal para debater unidade da esquerda em 2022

Amado e odiado por soltar os demônios contra Lula e o PT nas entrevistas à imprensa comercial, Ciro foi comedido. Esforçou-se para atender aos propósitos do programa, e colocar foco nos pontos de convergência. Mas não foi 100% paz e amor. Reiterando tratar-se de uma crítica objetiva e não um ressentimento, voltou a detonar a estratégia de Lula ao insistir, primeiro, na própria candidatura em 2018. E segundo, ao indicar Haddad como plano B mesmo sabendo que este seria derrotado, segundo a convicção do entrevistado.


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A meninada

Ciro filosofa sobre dilemas contemporâneos da “esquerda tradicional” e o encantamento da social-democracia com ideias neoliberais após a queda do Muro de Berlim – tanto na Europa do bem-estar social como na América do Sul. “O Muro cai em plena onda neoliberal e esquerda tradicional tenta dourar a pílula.” Ele observa que mesmo sob a ascensão dos governos progressistas, como de Lula e Dilma no Brasil, a lógica do acesso ao consumo como fator de felicidade estrangulou utopias. E o senso de coletividade sucumbiu, ainda que sob governos com visão distributivista, ao individualismo.

Para Ciro Gomes, essa lógica materialista seria o terreno fértil da autoajuda, do neopentecostalismo, da teologia da propriedade não só entre os evangélicos: o povo brasileiro, na visão de Ciro Gomes, resolveu que precisa se virar na base do individualismo. “Hoje um garoto nasce numa favela (de qualquer grande cidade do país) com a lógica do compre-compre-compre. O experimento brasileiro estimulou essa lógica.”

O pedetista considera a admissão desse diagnóstico essencial para uma reconstrução democrática. “A nação viveu um episódio de felicidade despolitizada. O consumismo não cria consciência cidadã. No lugar do liberalismo e do individualismo é necessária a construção de um projeto nacional de coletividade.” 

O presidenciável menciona também causas identitárias que mobilizam parcela da juventude – “a meninada” – e o que chama de “esquerdismo moderno, dado que a compulsão para ser solidário está na gente”. “Muito importante que se entenda que há uma faceta identitária nos problemas do mundo e do Brasil. O problema maior brasileiro é a miséria, a desigualdade. E ela tem cor: é negra. Tem idade: é jovem. Ela tem endereço: é da periferia. Tem gênero: é mulher; ou LGTBQI. E a gente tem que ter clareza disso”, define.  

Reaprender a se conectar com o povo

“Mas se nós transformarmos a luta do projeto brasileiro numa luta de afirmação de identitarismo, nós vamos colidir com a moral popular, crescentemente neopentecostal, criptoconservadora. E um canalha como Bolsonaro se apresenta como paladino dos bons costumes, da defesa da moral e da defesa da família brasileira. Nós é que estamos errados, é um absurdo dizer, e um canalha como este Bolsonaro vem tomar esse lugar, nisso assessorado pela pior direita internacional”, avalia.

Ao citar o advento de Bolsonaro, Ciro Gomes observa que a burguesia brasileira descambou. Não consegue citar mais do que três nomes de empresários que teriam um projeto de desenvolvimentos e identifica um agronegócio desfigurado, como negócio e como conceito. “Agro não pode mais ser chamado de agro. Com esse modo de produção (degradação ambiental, uso excessivo de agrotóxicos), e na base de ideologia (guerra cultural) o Brasil vai ficar falando sozinho. Em apenas dois anos de tragédia (governo Bolsonaro), a Argentina virou o maior parceiro da China. E produtor rural, que era pobre, fica vendo comunismo atrás da porta e debaixo da mesa.”

Ciro, no entanto, adverte que o campo progressista precisa reaprender a se conectar com o povo. “Ficar chamando o povo brasileiro de gado, de bolsominion não nos levará a lugar nenhum. O grande objetivo nosso (o campo progressista em busca de unidade) deveria ser uma reconciliação com o povo brasileiro”, diz.

República e Democracia. Depois Ciro Gomes, programa terá Flávio Dino e José Dirceu

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Doria igualzinho a Bolsonaro

Para o entrevistado, não se pode interpretar o bolsonarismo sem compreender as raízes morais e culturais que favorecem o negacionismo, do qual Bolsonaro é o resultado mais concreto. “É caminho fácil de surfar na onda da negação. Mas por que votaram em um imbecil, canalha, corrupto, homem da rachadinha, que corrompeu os filhos? Estava como força dominante no Brasil uma força negativa: o antipetismo. Não estou falando pra ofender. Quanta gente votou no Lula, na Dilma e depois votou nesse energúmeno?”, questiona. Acentuar esse negacionismo, acredita, será uma forma de prolongá-lo. Ele ilustra essa possibilidade em figuras como Sergio Moro, Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “Doria é igualzinho a Bolsonaro”, assinala. Segundo Ciro, figuras como Moro, Huck e Doria são a mesma parte de um projeto ultraliberal de controle do Estado.

No entanto, para se dedicar à dita “reconciliação com o povo brasileiro”, o campo progressista deve, em vez do embate negacionista, rever o senso de inteligência sobre a sociedade brasileira. Para Ciro, se o povo for consultado se questões como saúde, educação e desenvolvimento devem ser tocadas pelo mercado ou pelo Estado, dirá que é dever do Estado. E defenderá uma reforma tributária mais distributiva. “A revolução tecnológica exige um novo pensamento e uma presença forte do Estado”, diz.

“Esse conflito (de ideias) a esquerda moderna precisa dominar. Não somos revolucionários para tomar os meios de produção”, explica, ao responder pergunta de Xixo sobre se não estariam dadas condições objetivas e subjetivas para uma grande revolta popular. “Sem alimentação decente, afeto, cuidados uma criança não se desenvolve. E se isso é a verdade, precisamos dizer de onde virá o dinheiro”, diz, defendendo que esclarecida sobre papel do Estado a população apoiaria uma reforma tributária progressiva e distributivista.

Ciro Gomes e o dia seguinte

“Mas se temos o desafio de romper a barbárie, e mais afinidade do que divergências, para você, que se posiciona como esquerda, qual o tamanho dessa articulação que temos que fazer? Quem cabe e quem tem que estar fora?”, pergunta o jurista Wilson Ramos Filho, o Xixo.

“Depende do método. Tem questões pragmáticas e objetivas”, ensaia Ciro Gomes. O presidenciável do PDT lembra que o advento da reeleição, trazido à política brasileira por Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990, instituiu um ambiente político se sabotagem contra qualquer governo. Diz que a oposição toda vai sabotar o governo de plantão, mas que o pragmatismo pode ser também um campo minado para alianças. “O Lula vai esperar eu me eleger e depois me reeleger? É possível um pacto que responda a isso?”, provoca, questionando: a esquerda iria junto em torno do mesmo nome, no caso o dele, por oito anos?

Cito não tenta, entretanto, chutar com as duas. A Bolsonaro, não poupa adjetivos: “É um canalha. Genocida. Indizível”, dispara, defendendo uma mobilização nacional pelo impeachment. Mas observa que com a mesma energia com que criticam Bolsonaro, a imprensa e algumas figuras políticas protegem o seu projeto econômico ultraliberal. E cita aberrações como o repasse da carteira de crédito do Banco do Brasil para o banco BTG, fundado por Paulo Guedes, e a venda da BR Distribuidora – “um negócio que não tem como não dar lucro para o Estado” – para um pool de bancos.

“O antibolsonarismo nos une, mas não vamos fazer de conta que o dia seguinte não existe”, afirma Ciro Gomes – mandando recado a Doria, Huck etc . “Não quero acordo com essa gente. O resto eu topo.”