Terrorismo de governo

Líder do MST rebate Bolsonaro, que tenta novamente criminalizar movimento

“Reforma Agrária se resolve com terra e não com criminalização dos movimentos populares”, disse João Paulo Rodrigues, do MST, frente a ataques bolsonaristas

MST – Lia Biachini
O verdadeiro MST: feijão, arroz, leite, mandioca, banana e uma dezena de variedades de grãos que alimentam o povo brasileiro

São Paulo – O presidente Jair Bolsonaro utilizou mais uma vez a rede social Twitter para insuflar seus seguidores contra a atuação de movimentos sociais. Especialmente o MST. A “indireta” de hoje (5) foi direcionada aos trabalhadores sem-terra que lutam pela reforma agrária. O ex-capitão postou um vídeo no qual aparecem manifestantes encapuzados em um protesto por acesso à terra. Ao fundo, ouvem-se rojões e disparos. Uma voz, que parece ser a de um dos policiais que filma os militantes, menciona os disparos e afirma não ter clareza de onde vêm. “Tenho minha opinião, qual a sua?”, disparou o presidente.

Bolsonaristas de plantão aproveitaram o post do presidente da República para publicar, em peso, ofensas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Terroristas”, afirmaram muitos.

Também pelas redes sociais, o diretor nacional do MST, João Paulo Rodrigues, respondeu ao presidente e seus seguidores, com esclarecimentos. “Não é o MST. É a Liga Camponesa de Rondônia”, explicou. “Terrorismo é o que seu governo faz! Libera porte de arma, deixa o povo passar fome e o pantanal pegar fogo. Diz que a covid-19 é gripezinha”, comparou o líder do MST.

Presidente chumbo

A posição de Bolsonaro sobre os movimentos sociais é conhecida, especialmente sobre o MST. “A propriedade privada é sagrada. Temos que tipificar como terroristas. Invadiu? É chumbo“, disse ainda em 2018, antes de ser eleito.

Desde que tomou posse como presidente da República, Bolsonaro trabalha para desmontar o processo de reforma agrária no Brasil. A proposta de orçamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 2021, enviada por Bolsonaro ao Congresso Nacional, tem uma elevação de 4%, em relação ao aprovado para 2020 — de R$ 3,3 bilhões para R$ 3,4 bilhões. No entanto, R$ 2,1 bilhões (66%) foram reservados para o pagamento de precatórios. Esses títulos tratam de dívidas com fazendeiros que conseguiram na Justiça elevar o valor de indenização por terras desapropriadas por improdutividade. Ou seja, para os ruralistas o aumento foi de 22% em relação ao orçamento deste ano.

Alimento na mesa

O MST defende a função social da terra e da propriedade, luta por acesso e trabalho, especialmente em terras improdutivas, utilizadas muitas vezes por grileiros e pela especulação. Nas terras do MST, atacado por Bolsonaro, são produzidas toneladas de alimentos orgânicos, livre de agrotóxicos. “Reforma Agrária se resolve com terra e não com criminalização dos movimentos populares”, destacou João Paulo.

Organizado em 24 estados nas cinco regiões do país, o MST atua ao lado de cerca de 350 mil família. Elas conquistaram a terra por meio da luta e da organização dos trabalhadores rurais. Mesmo depois de assentadas, estas famílias permanecem organizadas no MST, pois a conquista da terra é apenas o primeiro passo para a realização da Reforma Agrária.

O movimento é também reconhecido internacionalmente, tanto por seu trabalho com a agroecologia, como com a educação de crianças, jovens e adultos.