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Lula: Bolsonaro provoca rebeldia e desordem contra a ciência e o bom senso

Para Lula, Bolsonaro não tem capacidade de liderar combate à pandemia do coronavírus, não sabe montar equipe e trata militares como semideuses

Reprodução/Youtube
"No Brasil o presidente da República é ignorante. Se não é, ele gosta de ser ignorante"

São Paulo – Em live transmitida nesta terça-feira (14), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou a crise provocada pelo coronavírus, criticou a atuação do presidente Jair Bolsonaro na pandemia e também propôs uma “nova” metodologia de luta da classe trabalhadora e dos sindicatos, em função da conjuntura do país e das consequências da crise sanitária. “Poderíamos ter evitado que a pandemia tivesse a gravidade que tem (no Brasil). Já sabíamos os efeitos na Itália, na Espanha”, disse.

A transmissão foi realizada em torno dos 30 anos de fundação da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços da CUT (Contracs-CUT), celebrado neste 15 de julho, e teve a participação da secretária-geral da CUT, Carmen Foro, do presidente da Contracs, Julimar Roberto, do vice-presidente da CUT, Vagner Freitas, e da ex-ministra do Desenvolvimento Social Tereza Campello.

Segundo Lula, o presidente da República “não é obrigado a saber de tudo”, mas precisa saber montar uma equipe que o “ajude a pensar” para desenvolver políticas, como no caso da pandemia. Ele afirmou que o chefe de Estado deveria começar promovendo reuniões com cientistas, para estabelecer uma estratégia de combate ao vírus, o que Bolsonaro esteve longe de fazer. Assim como chamar os governadores e secretários de saúde para discutir soluções em conjunto. Hoje, o Ministério da Saúde é comandado pelo general Eduardo Pazuello. Ao todo, o governo Bolsonaro tem 11 ministros militares.

Rebeldia e desordem

“O governo federal não vai conseguir resolver sozinho, mas tem que chamar os entes federados.” Desenvolver estratégias com antecedência “e educar a sociedade”, para que as pessoas tenham comportamento adequado, seria também fundamental para diminuir o efeito da pandemia, de acordo com Lula.

“Acontece que no Brasil o presidente da República é ignorante. Se não é, ele gosta de ser ignorante, faz tipo de ignorante. Fala para fanáticos. O presidente tem um círculo de pessoas que é assim, são os milicianos, que ele arregimenta há mais de 30 anos, pessoas fanáticas como ele”, criticou. “Ele começou não acreditando na crise, ‘é uma gripezinha’, ‘se pegar num cara como eu que sou atleta, não vai acontecer nada’, ‘vai matar apenas velhinho de 90 anos’. E muita gente acreditou.”

O governo Bolsonaro “não fez nada”, disse Lula, a não ser criticar as pessoas com pensamento cientifico e, em vez de ser orientador, passou a incentivar a “rebeldia contra os que têm bom senso”, como cientistas, criando “uma certa desordem” no país.

Com a ausência de políticas e de estratégia, segundo Lula, coube à oposição e aos movimentos sociais pressionarem por soluções que minimizassem os efeitos da pandemia. Ele lembrou que Bolsonaro tenta passar a ideia de que o auxílio emergencial foi criado graças ao governo, o que não é verdade.

A área econômica comandada pelo ministro Paulo Guedes defendia que o benefício fosse de R$ 200. “A única preocupação (de Bolsonaro) é mandar o povo comprar arma e bala”, disse Lula. “O Guedes não quer negociar, quer vender.”

Risco de convulsão

Tereza Campello destacou que o auxílio emergencial é resultado da luta dos movimentos sociais e dos partidos de oposição. E que sem o país estaria vivendo uma situação de convulsão social. “Nós temos mortes que podiam ter sido evitadas, se o governo tivesse adotado medidas corretas”, disse Tereza. A ex-ministra também defendeu uma renda básica, “mais do que para a população pobre, também para a população de baixa renda.”

Na opinião de Julimar Roberto, em relação à pandemia, o Brasil está na contramão do mundo, com flexibilização antes do tempo, “segundo maior número de mortes do mundo”, consequência de não seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de negar a pandemia.

Para Lula, Bolsonaro não chegou ao governo sabendo o que queria, “chegou mentindo”. Lula criticou a falta de pessoas competentes para trabalhar com o presidente, o que fez com que, hoje, haja 3 mil militares no governo. “Na falta de pessoas competentes, ele escuta os filhos e chama militares. É como se os militares fossem semideuses, como se resolvessem alguma coisa. Os militares governaram este país desde a proclamação da República e nunca deram resultado.” Só o exercício da democracia, acrescentou, pode resolver os problemas brasileiros.

Mas o governo Bolsonaro faz o oposto do que se esperava de um governo na mais grave crise sanitária em um século. “A gente vê o país ser destruído por um presidente que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos e lambe as botas do presidente dos Estados Unidos.”

Classe trabalhadora

Além de tudo, os atuais donos do  poder estão jogando por terra todas as conquistas da classe trabalhadora. “Depois de duas guerras mundiais, da Revolução cubana, da revolução chinesa, da Revolução russa, depois de todas as conquistas, do Estado do bem estar social na Europa ocidental, tudo o que ganhamos no século 20 estamos perdendo no século 21.”

A começar pelo movimento sindical, com as reformas promovidas pelos governos de Michel Temer e de Bolsonaro. “Como o sindicato prepara os seus filiados se não pode fazer arrecadação? É a assembleia geral livre e soberana que decide a forma de cobrar a categoria. Não é o governo que tem que decidir. Eles tiraram tudo”, afirmou Lula. Além de atacar os direitos sindicais e trabalhistas, houve ainda a reforma da Previdência. “E agora querem destruir todas as empresas públicas que nós temos.”

O ex-presidente propôs também uma “nova metodologia de luta” da classe trabalhadora, dos sindicatos e centrais sindicais. Para ele, a pressão sobre deputados e senadores às portas do Congresso Nacional não traz resultados concretos, já que os parlamentares não ouvem os protestos. A estratégia deve se deslocar, defende. A pressão ser exercida nas cidades onde deputados e senadores moram. “Precisamos, no século 21, depois da pandemia, inovar nosso tipo de pressão, para que eles ouçam os trabalhadores.”