Insanidade

Bolsonaro ignora ameaça do vírus e volta a dizer que é uma ‘gripezinha’

“Devemos, sim, voltar à normalidade”, preconizou, contra as recomendações das autoridades sanitárias e políticas mais importantes do mundo

Reprodução/TV Brasil
Loucura: "autoridades estaduais e municipais devem abandonar a proibição de transportes, o fechamento de comércio e confinamento em massa"

São Paulo – Em pronunciamento oficial iniciado às 20h30, nesta terça-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro voltou a minimizar a ameaça do coronavírus. Novamente agrediu a imprensa, responsável, segundo ele, por espalhar no país uma “verdadeira histeria”. “O vírus chegou, está sendo enfrentado por nós, e brevemente passará”, acrescentou.

“No meu caso particular, com meu histórico de atleta, caso fosse contaminado, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria quando muito acometido de uma gripezinha, ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão”, disse.

Ele também voltou a atacar governadores e prefeitos. “Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e confinamento em massa”, disse, no sentido contrário ao determinado pelos países e mesmo por governos estaduais, independentemente de sua linha política.

“Nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos”, continuou. “Devemos, sim, voltar à normalidade”, preconizou, contra as recomendações das autoridades sanitárias e políticas mais importantes do mundo, entre as quais o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres.

Em carta enviada aos líderes do G-20 hoje, recebida por Bolsonaro, Guterres afirmou que o mundo corre o risco de uma “pandemia de proporções apocalípticas”, segundo a coluna do jornalista Jamil Chade.

Ele também disse que o que ocorre no mundo com a pandemia mostra que o grupo de risco se restringe às pessoas acima de 60 anos. “Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais, de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade”, disse o presidente da República.

“Loucura”

“A única palavra possível é: loucura”, comentou a jornalista Helena Chagas, no Twitter, sobre o pronunciamento. Mas comentários escandalizados não foram exclusividade de setores progressistas.

Ex-aliada de Bolsonaro, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) também questionou a insanidade expressa no discurso (com letras maiúsculas): “@jairbolsonaro foi IRRESPONSÁVEL, INCONSEQUENTE E INSENSÍVEL! O Brasil precisa de um LÍDER com sanidade mental”, escreveu.

A pandemia tem 2.201 casos confirmados e 46 mortes, uma letalidade de 2,1%, de acordo com o balanço oficial de hoje (24).

A fala de Bolsonaro foi acompanhada por mais um panelaço, o sexto de que ele foi alvo em menos de dez dias. Na segunda-feira, a hashtag #BolsonaroGenocida esteve no topo dos trending topics do Twitter, após a publicação da Medida Provisória 927/2020, que autorizou a suspensão dos contratos de trabalho por até quatro meses.

Após intensa reação da população e de lideranças políticas e empresariais, o próprio governo recuou e retirou a determinação do texto. A relação do governo com a pandemia tem sido errática e pretexto para medidas consideradas antidemocráticas.

Ao apresentar ao governo do Distrito Federal uma lista de contaminados com o coronavírus, o Hospital das Forças Armadas (HFA), que atendeu o presidente, omitiu dois nomes, segundo o próprio comandante logístico da instituição, general Rui Yutaka Matsuda. A informação foi divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo.

“Deixo de informar à V Exa., neste documento, os nomes dos pacientes com sorologia positiva para a Covid-19, a fim de evitar a exposição dos pacientes e em virtude do direito constitucional de proteção à intimidade, vida privada, honra e imagem do cidadão”, escreveu Matsuda à juíza Raquel Soares Chiarelli, da 4ª Vara Federal Cível da Justiça Federal do Distrito Federal.

A magistrada havia determinado, na sexta-feira (20), que o hospital fornecesse a lista de pacientes com resultados positivos para o coronavírus. Ela afirmou ser “notório que a devida identificação dos casos com sorologia positiva para o COVID-19 é fundamental” para a definição de políticas públicas contra a pandemia.

A resposta do governo diante da atitude de Raquel Chiarelli e de jornalistas foi dada com a Medida Provisória (MP) 928, publicada na noite de sexta-feira (23), com a qual Bolsonaro suspendeu todos os prazos de resposta a pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação (LAI). A iniciativa é criticada por especialistas, considerada “perigosa” e “antidemocrática”.