Repercussão

Haddad sobre fala de Bolsonaro: ‘Coisa de máfia’. Para Boulos, ‘lembrou Collor nas vésperas da queda’

Na fala de quase 45 minutos, Bolsonaro insinuou que Moro, como ministro, se preocupou mais com o assassinato de Marielle Franco do que com a facada que teria sofrido

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Bolsonaro e seus ministros, com expressão de abatimento: Ernesto Araújo, Nelson Teich, Onyx Lorenzoni e Damares

São Paulo – As reações nas redes sociais ao discurso de quase 45 minutos de Jair Bolsonaro, que se apresentou visivelmente abatido e tentando passar impressão de vítima ao se defender das acusações feitas na manhã desta quinta-feira (24) pelo ex-ministro Sergio Moro ao anunciar sua demissão, foram de análises de conjuntura política políticas à ironia.

O ex-candidato à Presidência Gulherme Boulos (Psol) citou uma das derradeiras frases de Bolsonaro – “o governo continua” – , postado ao lado de seus ministros, dos quais destacava-se o da Economia, Paulo Guedes, o único da comitiva que usava máscara. “Lembrou Collor nas vésperas da queda”, afirmou Boulos no Twitter. Fernando Collor de Melo presidiu o Brasil de 1990 a 1992, quando foi destituído do poder, depois de ter vencido Lula nas eleições do ano anterior.

Leia também: Na opinião de analistas, o governo Bolsonaro perdeu o sentido economicamente e agoniza politicamente.

Para o também ex-candidato ao Planalto Fernando Haddad (PT), presidente e ex-ministro da Justiça se equivalem. “As acusações mútuas de Moro e Bolsonaro são gravíssimas. Coisa de máfia”, disse.

Ciro Gomes, que concorreu em 2018 ao mesmo cargo pelo PDT, citou o Código Penal para resumir a briga de Moro e Bolsonaro. “Nesta confrontação chocante entre Moro e Bolsonaro, o País ganha muito com a briga em si. Só hoje já tivemos notícia de uma lista de artigos do código penal além de crime de responsabilidade: prevaricação, falsidade ideológica, tráfico de influência”, escreveu.

O cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Fderal do ABC, destacou a passagem do discurso em que Bolsonaro mencionou sua compreensão de que Moro não apurou devidamente a suposta facada que o então candidato do PSL teria sofrido na campanha eleitoral.

“O bolsonarismo agora vai criticar Moro porque não investigou ‘quem mandou matar Bolsonaro’. É o equivalente a criticar uma eventual saída do MCTI (Ministério da Ciência e Tecnologia) por não ter investido em pesquisas sobre a Terra Plana”, ironizou Marchetti. Na fala, Bolsonaro insinuou que Moro, enquanto ministro, se preocupou mais com a investigação do assassinato de Marielle Franco do que da facada de 2018.

Ex-candidata à vice-presidência na chapa de Haddad, Manuela D’Ávila (PCdoB) falou da passagem em que Bolsonaro parecia estar descrevendo o fim de um relacionamento. “Eu sempre abri o coração pra ele. Eu já duvido se ele abriu o coração pra mim”, citou Manuela. A frase foi dita literalmente pelo presidente. Depois, Manuela comentou: “Gente, era um romance! Achei que era sobre a PF do Brasil”.

O próprio Sergio Moro, pivô da crise, respondeu no Twitter a uma acusação de Bolsonaro. “A permanência do Diretor Geral da PF, Maurício Valeixo, nunca foi utilizada como moeda de troca para minha nomeação para o STF. Aliás, se fosse esse o meu objetivo, teria concordado ontem com a substituição do Diretor Geral da PF”, disse.

Dirigindo-se a Moro, o jornalista Glenn Greenwal provocou: “Se o @SF_Moro tiver mensagens ou áudios secretos de Bolsonaro, teremos o prazer de publicá-las. Me mande um e-mail”.

Na opinião do historiador e ex-deputado pelo Psol Chico Alencar, a longa fala de Bolsonaro poderia se intitular “Armazém de Secos e Molhados do seu Jair”. “É o título da crônica que me ocorre ao ver o ‘pronunciamento’ abilolado, apelativo e autocentrado de Bolsonaro, cercado de seu Ministério de predomínio masculinista absoluto – que o aplaude meio sem graça (nem todos)”.

“Enquanto Bolsonaro não falava nada com nada, PGR (cujo silêncio estava ensurdecedor) abre inquérito para apurar denúncias de Moro sobre interferências de Bolsonaro na PF. GRANDE DIA!”, tuitou o deputado José Guimarães (PT-CE).


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