Sem Moro

Política e economicamente, governo Bolsonaro agoniza, dizem analistas da Unicamp

A conjuntura aponta para o mote “Bolsonaro acabou”, frase dita diretamente ao presidente por um desconhecido haitiano em março

Marcello Casal/Agência Brasil
Como um suicida político, mandatário não parou de alimentar a crise que pode derrubá-lo

São Paulo – A saída do ministro da Justiça, Sergio Moro, da Esplanada dos Ministérios era o elemento que faltava para se consolidar a sensação generalizada de fim de governo, na opinião do cientista político Oswaldo Amaral, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para o analista, a conjuntura explosiva tem, “com certeza”, clima de fim de governo.

“As acusações são graves. Moro seguramente tem provas, senão não diria o que disse”, afirma. Para o presidente Jair Bolsonaro, o racha com o ex-juiz que comandou a Operação Lava Jato, o mais popular de seu governo, tem potencial concreto de minar rapidamente a última barreira para um pedido de impeachment: os 30% do eleitorado fanático que, até o momento, se mantinha fiel a ele.

Já politicamente isolado, incapaz de diálogo nem mesmo com as forças que o sustentam, ao duelar com Moro, Bolsonaro perdeu a última chance de tentar o caminho do diálogo. Do ponto de vista econômico e político, a conjuntura aponta para o mote “Bolsonaro acabou”, frase dita em tom de “profecia” por um desconhecido haitiano em frente ao Planalto, em 17 de março.

Isolamento político, crise econômica aguda e impopularidade devastadora são os ingredientes necessários a um impeachment.

Amaral avalia que o embate e a saída de Moro representa um claro racha no apoio desse um terço da população. “Na próxima pesquisa, essa porcentagem vai ser bem menor e o afastamento ficará mais viável. Falta ainda se decidir como seria um governo alternativo pós-Bolsonaro.”

A porta do impeachment está escancarada, mas depende de Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente da Câmara. Isso se Bolsonaro não cair, renunciar ou for deposto antes, dado o caráter explosivo a que chegou a crise interminável que o próprio presidente jamais parou de alimentar, como um suicida político. “Precisa ver se o país suporta quatro, cinco meses de processo de impeachment no meio de uma pandemia com crise econômica”, observa.

Após a saída de Moro, até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, célebre pela postura tucana de sempre se manter em cima do muro, declarou: “É hora de falar. Presidente está cavando sua fossa. Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment”.

“A situação é bem complicada”, diz Amaral. O ex-ministro da Justiça foi um dos mais importantes cabos eleitorais de Bolsonaro. “Moro é popular, e sair com essas acusações graves atingiu um pedaço dessa base de 30%. Aqueles que, mais do que uma forma irracional de seguir Bolsonaro, defendiam o ‘Novo Brasil’, a ‘anticorrupção’, vão ter que parar para pensar.”

Na fala de Moro, o que mais chamou a atenção foi a “revelação” de que Bolsonaro promoveu o aparelhamento político da Polícia Federal, o que, por si só, é apenas mais um crime de responsabilidade, entre tantos, de seu mandato de menos de 16 meses.

Com um impeachment, cumprida a regra constitucional, o vice Hamilton Mourão assumiria. “Mas ele precisa aparecer como um governo viável. Porque, senão, o Centrão e outras forças vão tentar se aproximar de Bolsonaro. Precisa aparecer um fator alternativo. Nesse caso, o papel dos militares vai ser importante”, acredita o professor da Unicamp. “Se eles acharem que o governo não pode seguir, vão articular a alternativa Mourão.”

“O governo, hoje, só tem voz para os apoiadores radicais e sem interlocução com um conjunto muito grande da sociedade”, observa o economista Pedro Rossi, também da Unicamp.

Economia: agenda sem sentido

A sensação de que o governo acabou também envolve, muito intensamente, o fator econômico e a agenda econômica do ministro Paulo Guedes. Pouco antes mesmo da demissão de Moro, Rossi disse à reportagem que “a agenda fracassada e anacrônica do governo perdeu consistência histórica com a crise, porque é uma agenda voltada para a desconstrução do Estado e de seus instrumentos de desenvolvimento”.

A crise amplificada pela pandemia de coronavírus impôs uma realidade segundo a qual o país precisa do Estado e de instrumentos de desenvolvimento. “Não faz mais sentido uma equipe econômica que não está à altura dos desafios que se colocam agora.  A agenda da austeridade foi  para o espaço. Tanto agora como no imediato pós-crise, a necessidade de gastos públicos e de um papel ativo do Estado vai se colocar de maneira muito clara.”

Para Rossi, o governo está preso às proporias contradições: “elas aparecem com o simbolismo de um militar da Casa Civil (Walter Braga Netto) que propõe um plano, que é uma piada em termos de orçamento, mas é simbólico no sentido de apontar num sentido diferente da agenda que o próprio governo vinha implementando.”

As contradições são flagrantes. Ao mesmo tempo em que Braga Netto, um “presidente operacional”, aponta para uma agenda alternativa, subsistem no governo discursos no sentido de se manter e aprofundar a agenda neoliberal no pós-crise.

A expectativa óbvia é que, após a crise sanitária e econômica, com a fragilidade financeira e o desemprego altíssimo, a agenda neoliberal, que já perdeu o sentido, será definitivamente inexequível sob qualquer aspecto. “Acho que o governo vai acabar tropeçando nas suas próprias contradições e vai fracassar por conta dessas contradições. E também devido a uma realidade que se coloca muito acima de uma agenda que já vinha fracassando antes”, diz Rossi.