Liberdade de imprensa

Para advogados de Glenn, denúncia do MPF é ‘expediente tosco’ e desrespeita decisão do STF

Denúncia é instrumento de disputa política, diz defesa. "Não seremos intimidados por essas tentativas tirânicas de silenciar jornalistas"

Arquivo ABr
"Estou trabalhando agora com novos relatórios e continuarei a fazer meu trabalho", afirma Glenn

São Paulo – O Ministério Público Federal denunciou, na manhã desta terça-feira (21), no âmbito da chamada Operação Spoofing, o jornalista Glenn Greenwald e mais seis pessoas por crimes relacionados a invasão de celulares de autoridades. Segundo a denúncia, todos incorreram em crimes de lavagem de dinheiro e interceptações telefônicas ilegais. São acusados também de criar uma organização criminosa. Embora denunciado, Glenn não foi indiciado pela Polícia Federal. Segundo o MPF, ele teria incentivado e orientado o grupo durante o período das invasões.

Os advogados do jornalista do The Intercept Brasil, Rafael Borges e Rafael Fagundes, em nota, afirmam terem recebido a notícia da denúncia de Glenn com “perplexidade”. “Trata-se de um expediente tosco que visa desrespeitar a autoridade da medida cautelar concedida na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 601, do Supremo Tribunal Federal.”

Em agosto do ano passado, o ministro Gilmar Mendes deferiu liminar  a favor de Glenn, na qual vetou que o jornalista  fosse incriminado pela obtenção e divulgação de conversas entre autoridades da Lava Jato.

Segundo a defesa, a denúncia de hoje fere a liberdade de imprensa e serve como instrumento de disputa política. “Seu objetivo é depreciar o trabalho jornalístico de divulgação de mensagens realizado pela equipe do The Intercept Brasil (na Vaza Jato) em parceria com outros veículos da mídia nacional e estrangeira.” Os advogados preparam “a medida judicial cabível” e pedirão que a Associação Brasileira de Imprensa, por sua importância e representatividade, “cerre fileiras em defesa do jornalista agredido.”

Em nota à coluna da jornalista Mônica Bergamo, Glenn Greenwald diz que a denúncia “é uma tentativa óbvia de atacar a imprensa livre, em retaliação pelas revelações que relatamos sobre o ministro Moro e o governo Bolsonaro”.

“Não seremos intimidados por essas tentativas tirânicas de silenciar jornalistas. Estou trabalhando agora com novos relatórios e continuarei a fazer meu trabalho jornalístico. Muitos brasileiros corajosos sacrificaram sua liberdade e até sua vida pela democracia brasileira, e sinto a obrigação de continuar esse nobre trabalho”, continua o jornalista.

A denúncia é assinada pelo procurador da República Wellington Divino de Oliveira. Ele é considerado um “aliado” do ex-juiz e atual ministro da Justiça Sergio Moro. Em 2007, o procurador promoveu uma denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que era ainda chefe de Estado, sob acusação de “desvio” de recursos do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen). No ano passado, Oliveira denunciou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, por declarações que fez sobre Moro.

A Operação Spoofing foi deflagrada pela Polícia Federal em 23 de julho de 2019, para investigar invasões às contas de Telegram de autoridades brasileiras e de pessoas relacionadas à operação Lava Jato.