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Governo recebe viúva de torturador. E fecha a porta para Mônica, viúva de Marielle

Jurista que foi favorável ao impeachment de Dilma afirmou que atual presidente, ao exaltar Ustra, dá "tapa na cara da civilização"
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
15:19
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Fábio Rodrigues Pozzebon e Tânia Rêgo/ABR

Mônica Benício, viúva da vereadora assassinada, não consegue ser recebida pelo ministro da Justiça, Sergio Moro

São Paulo – Em um retrato do atual governo, a viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Maria Joseíta, está sendo recebida hoje (8) por Jair Bolsonaro, enquanto a viúva da vereadora Marielle Franco (Psol), Mônica Benício, não consegue ser recebida pelo ministro da Justiça, Sergio Moro. O atual presidente da República voltou a chamar Ustra, apontado como um dos principais torturadores da ditadura, de “herói  nacional”. Na sessão de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, o então deputado já havia louvado o militar, que morreu no ano anterior.

Ustra comandava o DOI-Codi de São Paulo. Foi reconhecido como torturador por várias vítimas. Hoje, a jornalista Tatiana Merlino, em texto publicado no blog do também jornalista Leonardo Sakamoto, afirmou que cada que vez Bolsonaro defende o coronel “é como se os torturados, sequestrados, mortos e desaparecidos no período fossem novamente colocados no pau-de-arara, na cadeira do dragão, fossem xingados, humilhados, espancados”. Além disso, o presidente “ofende, ataca, desrespeita a todos nós, que somos familiares de mortos e desaparecidos, e lutamos há décadas por memória, verdade e justiça”.

Reprodução

Luiz Merlino, morto sob tortura em 1971, no DOI-Codi comandado por Ustra. Famílias revivem a dor

Luiz Eduardo Merlino, tio de Tatiana, jornalista e militante do Partido Operário Comunista (POC), “foi assassinado sob tortura, em julho de 1971, aos 23 anos, em uma sessão comandada por Brilhante Ustra”. Segundo o relato da sobrinha, após ser preso em Santos, ele foi levado ao DOI-Codi e torturado por 24 horas, até uma das pernas gangrenar.

“Então, foi deixado em uma cela forte, sem poder andar e comer. Depois, jogaram ele em um camburão e levaram-no ao hospital militar. Outro preso político que estava sendo torturado por Ustra ouviu sua conversa ao telefone. Decidiam se amputavam ou não a perna gangrenada, para que a vida de meu tio fosse salva. Para amputar, teriam que avisar a família. ‘Deixa morrer’, sentenciou o coronel.”

No ano passado, um colegiado do Tribunal de Justiça de São Paulo julgou extinta ação em que Ustra havia sido condenado a pagar indenização à família de Merlino. Em 2014, o Superior Tribunal de Justiça negou recurso e reconheceu a responsabilidade do chefe do DOI-Codi por torturas no período da ditadura.

O jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment de Dilma, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que Bolsonaro dá um “tapa na cara da civilização” ao novamente aclamar Ustra. Segundo o advogado, o presidente caminha para um “processo paranoico perigoso”.

Indignação

“Como ex-presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, e tendo sabido o que se passou no DOI-Codi, [me] causa a maior indignação. [É] um tapa na cara da civilização”, declarou Reale. Na semana passada, Bolsonaro substituiu quatro dos sete integrantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, inclusive sua presidenta, a procuradora Eugênia Gonzaga, que o havia criticado. Incluiu  no colegiado simpatizantes da ditadura. Tentou emplacar um procurador, mas a indicação foi derrubada pelo Conselho Superior do Ministério Público Federal. Por meio de duas procuradorias, o MPF pediu explicações sobre as mudanças.

A visita ao Planalto foi comentada também pelo escritor José Roberto Torero, em sua coluna Diário do Bolso.

Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, Mônica Benício disse que o ex-ministro Raul Jungmann nunca deixou de recebê-la, “sempre tive com ele um amplo diálogo a respeito das investigações (sobre o assassinato de Marielle, março de 2018), coisa que o atual ministro (Sérgio Moro) se recusa a fazer”, acrescentou.

“Foram muitas tentativas de solicitação de um pedido para que me recebesse e conversássemos a respeito da investigação, que é de competência da Polícia Federal, sob comando do próprio Moro. No início do mandato, ele declarou que reconhecia que o caso da Marielle era de extrema importância e que era imprescindível para o país que ele fosse solucionado. Depois disso, o ministro silenciou. Não sei se ele perdeu o interesse, se está com outras coisas para se preocupar neste momento, mas o fato é que não se fala mais nada e, mesmo na época da candidatura, todos os presidenciáveis se manifestaram, com a exceção do atual presidente Jair Bolsonaro, e, até hoje continua assim.”