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Guerra suja

Há três anos, condução coercitiva de Lula foi ‘confissão de medo’ de seus perseguidores

Espetáculo midiático-policial operado por Moro em 4 de março de 2016 escancarou o uso violento do sistema de Justiça com objetivo de barrar retorno de Lula à Presidência da República
Publicado por Redação RBA
11:57
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Reprodução/TVT
Lula na TVT

‘Eles podiam ter convidado que eu iria. Mas preferiram usar a prepotência, a arrogância, um show de pirotecnia’

São Paulo – O jurista Celso Antônio Bandeira de Mello acordou perplexo naquele 4 de março de 2016. Foi o dia em que o ex-juiz de primeira instância Sérgio Moro determinou à Polícia Federal que levasse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio de uma condução coercitiva, a depor. Moro queria levar Lula a Curitiba, mas fracassou. O ex-presidente não havia recebido antes nenhum convite ou intimação para depor. “Eu fiquei muito aborrecido como cidadão”, disse Bandeira de Mello, na ocasião, em entrevista à RBA.

A notícia chocante do cerco, pela Polícia Federal, à casa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi revirada na presença de seus familiares, não encontrava respaldo jurídico em lei nenhuma, como o próprio Supremo Tribunal Federal reconheceria dois anos depois

Para Bandeira de Mello o país chegava na ocasião a um “clímax” de espetacularização midiática. “A condução coercitiva do Lula, juridicamente, não passa de um absurdo. Porque quem não se recusa a depor, quem não resiste a colaborar com a autoridade, não pode receber nenhuma condução coercitiva”, explicou o jurista. “É um ato que equivale a uma confissão de medo, de pavor”, da elite brasileira de que Lula fosse candidato e ganhasse a eleição em 2018.

Na ocasião, o advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin, enfatizara que não houve uma intimação anterior e que não havia resistência em comparecer. “Isso colide frontalmente com a Constituição brasileira e com as leis da República. Hoje, não só o ex-presidente Lula e seus familiares foram vítimas de um desrespeito à Constituição. Na verdade, toda a sociedade foi”, disse o advogado.

Na Rádio Brasil Atual, personalidades como Dalmo Dallari, Paulo Sérgio Pinheiro e Aldo Fornazieri partilham o entendimento de que houve abuso na intenção de criar um espetáculo midiático.

O festival de mentiras contra Lula foi sempre acompanhado, primeiro, de impunidade ao uso abusivo e violento do sistema de Justiça com fins políticos, o chamado lawfare. sEssa impunidade seria elevada posteriormente ao grau de perseguição premiada.

Ex-integrante da Lava Jato e responsável pela condução coercitiva ilegal, o delegado Luciano Flores foi alçado ao comando da Polícia Federal no Paraná, por determinação do ex-juiz que virou ministro da Justiça, Sérgio Moro. Flores se tornou, assim, responsável pelo cárcere de Lula.

Uma juíza substituta, Diele Denardin Zydek, da 5ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba, que proibiu atos públicos na região da sede da Justiça Federal onde Lula da Silva prestaria depoimento a Moro em 2017, expunha diversas postagens contra o petista em seu perfil no Facebook e aplaudira a condução coercitiva ilegal: “E hoje a casa caiu para o Lula…”, escreveu.

Toda essa estratégia, que culminou com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, não teria funcionado sem a cumplicidade da imprensa comercial. Na véspera da condução coercitiva, todos os veículos já estavam informados.

Na madrugada daquele 4 de março, o então editor-chefe da revista Época, da Editora Globo, Diego Escosteguy, postou no Facebook: “Quase duas da manhã. Poucas horas para um amanhecer que tem tudo para ser especial, cheio de paz e amor. Vamos observar com atenção as próximas horas. Elas não serão fáceis. Notícias concretas assim que possível…”

Para evitar maior manipulação por parte da mídia, a assessoria de Lula conferiu à TVT, TV dos Trabalhadores, exclusividade de acesso ao ato político em que Lula, por meio da emissora, falou ao mundo naquele 4 de março sobre seu sentimento em relação ao abuso sofrido por ele e sua família. Lembrou ter sido submetido a seis horas de depoimento para ouvir e responder as mesmas perguntas que já lhe haviam sido feitas em três oportunidades anteriores.

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