Pelo Brasil

Agora em Pernambuco, caravana de Lula debate emprego, saúde e educação

Ex-presidente vai a Ipojuca, em Pernambuco, onde está concentrado um dos maiores estragos promovidos pelo desmonte do setor petrolífero e naval brasileiro, após a Operação Lava Jato

Ricardo Stuckert
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Lula, em Ipojuca, Pernambuco: caravana segue debatendo saídas para a crise e ataques aos direitos dos trabalhadores

Recife – A passagem da Caravana Lula pelo Brasil, nos estados da Bahia, Sergipe e Alagoas, foi marcada por dois dos grandes temas estruturantes da economia e do funcionamento do Estado brasileiro, na concepção do ex-presidente: a questão da terra e a da educação.

Agora, no nono dia da jornada, já em Pernambuco, a agenda da caravana reforça outras questões caras ao ex-presidente do ponto de vista social e estrutural: as políticas de saúde, de planejamento urbano e as obras de infraestrutura ligadas aos setores da indústria naval e do petróleo.

Nesta sexta-feira 25, segundo dia no estado que é a terra natal de Lula, a caravana segue para Ipojuca, a uma hora de Recife. Ipojuca é a terra do Porto de Galinhas. É também uma das regiões mais ricas do estado, em função do movimento do turismo. E ao mesmo tempo um dos polos industriais mais promissores do continente. Abriga um dos portos estatais tecnologicamente mais modernos do país, o de Suape.

E, em função disso, desenvolveu uma estrutura forte da indústria naval – uma das estrelas da era de crescimento econômico durante os governos Lula e Dilma. Ali foi instalado o maior estaleiro do hemisfério sul, o Estaleiro Atlântico, que fabrica grandes navios de transporte de petróleo, perfuradores e plataformas.

E também em Ipojuca está a planta da Refinaria de Abreu e Lima, projetada para transformar óleo bruto, que o Brasil tem grande capacidade de extração, em diesel fino e menos poluente, caríssimo no mercado internacional e que ainda exige importações para dar conta de atender à demanda interna nacional.

A construção da refinaria começou em meados da década passada. Em 2014, quando atingiu capacidade de produzir 100 mil barris por dia e fornecer 40% do óleo diesel consumido no país, as obras foram paralisadas.

Em 2014, não por coincidência, as maiores empresas de construção pesada do país tiveram suas atividades totalmente comprometidas em decorrência da Operação Lava Jato. Lula tem dito que a Justiça no Brasil deveria prender quem comete os crimes, o CPF, e não acabar com as empresas das quais a economia e os empregos do país dependem.

A expansão de Abreu e Lima parou e as obras só começaram a ser retomadas neste ano, mas com outra filosofia. A refinaria, pertencente à Petrobras, é muito cobiçada por investidores estrangeiros, que passaram a ter atenção maior do governo Temer, enquanto os governos de Lula e Dilma tinham políticas que reservavam grande parte das operações do setor ao chamado “conteúdo nacional obrigatório” pela petroleira brasileira.

A presidenta Dilma Rousseff – que em Recife se incorporou à caravana – costumava dizer: “Por que nós vamos comprar um parafuso lá fora se podemos estimular a fabricação desse mesmo parafuso, e de empregos, aqui dentro”.

Para dar uma ideia do estrago, quando a Lava Jato foi deflagrada, em março de 2014, o IBGE apontava que o desemprego no Brasil atingia 7 milhões de pessoas. Hoje, já são 14 milhões sem ocupação.

Só na indústria naval, que havia sido recuperada a partir de 2003 depois de décadas de abandono, o número de trabalhadores empregados caiu de 83 mil, no governo Dilma, para perto de 30 mil – e uma queda de 66% nessa área provoca um efeito dominó em toda uma cadeia de fornecedores.

A força da cultura nordestina – Ontem, na chegada a Recife, Lula visitou o Museu do Cais do Sertão, inaugurado durante seu governo, e que mantém um memorial em homenagem ao rei do baião, Luiz Gonzaga. O ex-presidente visitou todo o acervo e ressaltou: “As pessoas têm de conhecer esse museu para entender a força da cultura nordestina”.

No início da noite, Lula se reuniu com equipes integrantes do programa Mais Médicos, para avaliar resultados na atenção básica, preventiva, e os prejuízos previstos com os sucessivos cortes de investimentos na área feitos pelo atual governo, que ele não cansa de falar que não trabalha.

Lula destaca em seus discursos que Temer considera despesa com combate à pobreza, “gasto público”, o que ele vêm como solução para a economia do país: incluir os pobres no orçamento, que movimentam a economia enquanto trabalham e investem em seus planos e sonhos.

Nos olhos do povo – Em Salvador, hoje a quarta maior capital – atrás apenas de São Paulo, Rio e Brasília – onde teve inicio a caravana em 17 de agosto – a comitiva dedicou parte do tempo a valorizar grandes mudanças em termos de intervenção urbana, como os projetos de habitação e a tão esperada construção do metrô, projeto de décadas que só começou a transportar gente nesta década.

Dali para as demais cidades, os destaques foram as políticas de incentivo à agricultura familiar, de incentivo às economias das pequenas cidades por meio de programas sociais e, principalmente, de acesso dos jovens das famílias pobres ao ensino público superior, antes privilégio dos filhos da classe média alta.

As conquistas nessas áreas são comemoradas pelas pessoas humildes que lotam os eventos em todas as cidades por onde a caravana passou.

Lula sempre reforça que o objetivo dessa empreitada é olhar “no olho” das pessoas que tiveram suas vidas transformadas pelos programas sociais dos governos petistas. Mas é também acompanhar de perto e denunciar o desmonte e a que interesses serve o governo de Michel Temer, e a fatia do Congresso Nacional e do Judiciário que atuaram no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no ano passado.

Caravana segue – Depois de passar por Ipojuca, Lula volta à tarde para Recife onde será realizado um ato de apoio ao ex-presidente, promovido pela Frente Brasil Popular na Praça do Carmo, coração do Recife Antigo.

Na sexta-feira 26, a caravana chega à metade dos 20 dias previstos e visita Brasília Teimosa, um bairro que estava entregue à degradação e, a partir de 2004, passou por um intenso processo chamado de intervenção urbana, com revitalização, reocupação habitacional e preparação para o turismo. A população local, inclusive, passou por requalificação para atuar nessa nova realidade – que agora também corre o risco de se perder.

À tarde, segue para João Pessoa, na Paraíba, quinto estado da jornada que prevê, ainda, Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão.