Rio

Com apoio dos neopentecostais e da direita, Crivella sinaliza gestão conservadora

'Rio de Janeiro mostrou que é contra a legalização do aborto, a descriminalização das drogas e a discussão de gênero', afirma prefeito eleito

Fernando Frazão/abr/fotos públicas
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Tudo indica que a gestão Crivella tenderá à centro-direita e possivelmente terá perfil assistencialista

Rio de Janeiro – “O resultado das urnas mostrou que o Rio de Janeiro é contra a legalização do aborto, a descriminalização das drogas e a discussão de gênero nas escolas públicas.” A afirmação, feita pelo prefeito eleito Marcelo Crivella um par de horas após a confirmação de sua vitória no segundo turno das eleições cariocas, deu o tom ideologicamente conservador que deverá nortear a gestão municipal pelos próximos quatro anos. No festivo palanque da vitória, erguido na quadra do Bangu Atlético Clube, em um dos bairros que o consagrou nas urnas, o candidato do PRB, após pedir “o apoio de Deus e da Câmara Municipal” para que “políticas como essas, que atentam contra a família, não avancem”, defendeu “uma escola sem partidos” e, repetindo seu slogan de campanha, disse que a prefeitura vai “cuidar do sofrido povo carioca”.

As primeiras declarações e movimentações de Crivella começam a desvendar o “enigma” a que se referiam diversos analistas políticos ao cogitar os possíveis rumos da eventual gestão do atual senador à frente da prefeitura do Rio. À direita da imagem que o então candidato procurou nutrir durante a campanha, as afirmações sobre aborto, drogas e política de gênero do já prefeito foram, emblematicamente, feitas ao lado de diversas lideranças da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual Crivella é bispo licenciado, e de líderes de outras igrejas neopentecostais como RR Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), Pastor Everaldo Dias (Assembleia de Deus), Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus) e Silas Malafaia (Vitória em Cristo), entre outros.

Também cercaram Crivella no palanque ou no dia seguinte à vitória alguns apoiadores de primeira hora, como o senador Romário Faria (PSB) e a deputada federal Clarissa Garotinho (PR), e os candidatos derrotados Flávio Bolsonaro (PSC), Índio da Costa (PSD) e Carlos Osorio (PSDB), que apoiaram o candidato do PRB no segundo turno. Aos velhos e novos aliados, o futuro prefeito prometeu uma “gestão compartilhada”. Também fez declarações de apoio ao governo Michel Temer, ao qual pediu diálogo. Pelo conteúdo das palavras e o perfil dos nomes que se alinham ao futuro prefeito neste primeiro momento, tudo indica que a gestão Crivella tenderá à centro-direita e possivelmente terá perfil assistencialista.

Um indicativo desta última tendência é a confirmação extraoficial de Clarissa Garotinho para a secretaria de Assistência Social. Seu pai, o ex-governador Anthony Garotinho, teve como principal marca de governo a distribuição do Cheque-Cidadão, política pública que transferia recursos para a população de baixa renda e tinha seu cadastramento e distribuição realizados por intermédio de pastores e igrejas evangélicas. Naquela ocasião, o programa foi associado à compra de votos e se tornou alvo de investigações pela Justiça Eleitoral e pelo Ministério Público.

Outro possível canal de atuação das igrejas neopentecostais é o sistema de saúde, por isso Crivella teria levantado a possibilidade de municipalização dos nove hospitais federais do Rio de Janeiro na conversa que teve com o presidente Michel Temer terça-feira (1º) em Brasília. O cargo de secretário municipal de Saúde será ocupado pelo vereador reeleito Doutor Carlos Eduardo (SD), que apoiou o candidato do PMDB, Pedro Paulo Carvalho, no primeiro turno e tem bom trânsito no governo estadual. Sua primeira missão será convencer o governador Luiz Fernando Pezão a transferir a gestão de 16 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) para a prefeitura.

Reduzir fila de espera

O objetivo imediato de Crivella é fazer com que a prefeitura assuma a gestão desses atendimentos, em uma política que, se bem sucedida em uma cidade grande como o Rio, servirá de vitrine para futuros voos nacionais do PRB. Segundo assessores, ele pretende que a redução da fila de espera para procedimentos médicos de baixa complexidade, como consultas e pequenas intervenções cirúrgicas, seja uma marca de seus primeiros anos à frente da prefeitura: “Este é um problema que atinge mais de 30 mil famílias em toda a cidade. Essa agilização se daria a partir de uma parceria entre as secretarias municipais de Saúde e de Assistência Social. E aí entraria a participação das igrejas, no cadastramento, ao lado dos postos de saúde”, diz um integrante da equipe de comunicação de Crivella.

Na conversa com a imprensa realizada momentos antes de ir a Brasília para se reunir com Temer e com o ministro da Saúde, Ricardo Barros, o futuro prefeito afirmou que “o ciclo das grandes obras acabou no Rio” e prometeu concentrar sua gestão “na saúde e na assistência à população, sobretudo na zona oeste da cidade”. Hoje (3), o ministro disse à imprensa que examinará o pedido de Crivella. “Se a prefeitura formalizar o pedido, nós analisaremos como decidir essa questão”, disse Barros.

Secretarias

O prefeito eleito manteve a promessa de cortar pela metade as atuais 24 secretarias que formam o primeiro escalão da prefeitura. Até agora, além de Clarissa Garotinho e Doutor Carlos Eduardo, parecem já estar confirmados para o secretariado de Crivella os nomes do vice-prefeito eleito, Fernando MacDowell – que também é indicação de Anthony Garotinho -, para a Secretaria de Transportes, do vereador reeleito Paulo Messina, do Pros, para a Secretaria de Educação, e de Marcos Braz – ex-dirigente do Flamengo, indicado por Romário – para a Secretaria de Esporte e Lazer. O PSDB e o PSD também comandarão secretarias, mas os nomes ainda não foram definidos.

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