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Pesquisa revela que grupo pró-impeachment não tem potencial de crescimento

Manifestantes que foram à Avenida Paulista são majoritariamente ricos, brancos, desinformados e sem uma pauta capaz de dialogar com a periferia
Publicado por Najla Passos, da Carta Maior
15:10
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Tasso Marcelo/Fotos Públicas
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Pesquisa aponta que o grupo não conseguiu atrair gente nova, desde os protestos de março e abril

São Paulo – A pesquisa sobre o perfil dos manifestantes que ocuparam a Avenida Paulista no domingo (16), realizada pelos professores Pablo Ortellado, da USP, Esther Solano, da Unifesp, e pela pesquisadora Lucia Nader, da ONG Open Society, atenta o que muita gente já sabia: eles são majoritariamente brancos (73,6%), ricos (48% ganham acima de R$ 7,8 mil) e racistas (62% acham que negros não devem usar a cor da pele para conseguir ‘privilégios’ como cotas).

Eles também possuem escolaridade alta (65,4% têm pelo menos curso superior), em nível inversamente proporcional ao de consciência política: a crítica seletiva à corrupção é característica latente, já que acreditam que a má utilização dos recursos públicos é caraterística apenas dos governos petistas. “Um alto nível de escolaridade não significa um alto nível de conhecimento político”, afirma Esther Solano, para quem a chave para entender esse fenômeno está no tipo de informação que o grupo consome.

Mas o estudo também apresenta informações que desconstroem algumas das “verdades” alardeadas pelos grupos organizadores, como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL). Ao contrário do que alegam, os manifestantes da Paulista discordam das pautas neoliberais e privatizantes desses: entendem majoritariamente que saúde (74,3%) e educação (86,9%) gratuitas são deveres do estado e condenam o financiamento privado de campanha (73,3%).

A outra surpresa que a pesquisa aponta é que o grupo de manifestantes não conseguiu atrair gente nova, desde os protestos de março e abril. “Eles são os mesmos dos outros protestos”, diz Esther. Segundo ela, justamente por serem tão homogêneos entre si e terem uma visão de mundo tão particular, não dialogam com outros seguimentos sociais, inclusive setores que também criticam o governo Dilma, mas fundamentados em bases diferenciadas.

“Se não levantarem outras bandeiras, se não dialogarem com a periferia, se continuarem a fazer esse teatro com a polícia, eles não conseguirão atrair os mais pobres para esse movimento pró-impeachment” avalia ela. Para a professora da Unifesp, nas bases em que está calcado, o movimento não tem potencial para crescer mais e se tornar realmente representativo da sociedade brasileira.

De acordo com os resultados da pesquisa que vocês conduziram, a impressão que dá é que os manifestantes da Paulista têm escolaridade bem alta, mas aparentemente são muito confusos ideologicamente. É isso mesmo?

É um público com escolaridade alta sim, com pelo menos o superior completo, mas sem formação política, o que são coisas bem diferentes. É uma parcela que se informa politicamente pela Veja, que acompanha os comentários da Raquel Sherazade. Então, é um público que consome um tipo de informação, no mínimo, duvidosa: mais polêmica e menos jornalismo de verdade. Por isso, um alto nível de escolaridade não significa um alto nível de conhecimento político.

É isso o que explica o fato de que, conforme a pesquisa aponta, esses manifestantes têm uma percepção seletiva da corrupção, ou seja, que ela é maior em determinado partido ou grupo, apesar dos fatos apresentarem uma realidade diferente?

Quando nós perguntamos se os manifestantes achavam que o caso do cartel dos trens de São Paulo é grave, a maioria respondeu que sim, 87,4% responderam que sim. Mas quando perguntamos se o Geraldo Alckmin é corrupto [governador de São Paulo, do PSDB], só 41,7% concordaram. Então, como explicar que a corrupção no metrô de São Paulo é um assunto grave, mas o Alckmin não é corrupto? Uma coisa importante é que essa parcela não sabe a quem atribuir a responsabilidade pelas ações. O Aécio Neves, por exemplo, só 37,8% classificaram como corrupto.

Isso também se deve à imprensa?

Sim, está relacionado à questão da imprensa que sempre cobre a corrupção do PT de forma nominal: é Dilma, é Lula, é a prefeitura do PT, é o próprio PT. No caso do PSDB, já é diferente: a corrupção não tem nome, não tem responsável. Então, essa postura dos manifestantes reflete essa cobertura parcial da imprensa.

A visão ideológica desses manifestantes é conformada pela ação dos meios de comunicação?

Se você só vê a Globo, lê o Estadão e a Folha, no final você tem uma visão estritamente ideológica sobre os fatos. Há, realmente, falta de consciência política das pessoas. Na pesquisa, nós perguntamos sobre a Operação Zelotes, que foi importante no combate à corrupção, mas 38% nem a conheciam. No caso da Lava Jato, apenas 0,2% não sabiam do que se tratava. Então, todo mundo conhece a Lava jato, porque tá cansado de ouvir falar sobre ela todo dia na imprensa, sempre associada ao PT, mas ninguém conhece a Zelotes, que envolve outros atores.

Outra situação interessante que a pesquisa revela é essa discrepância entre o discurso dos organizadores dos protestos e dos manifestantes. As pessoas ali sabem por que estão protestando?

Nós estudamos a fundo o discurso desses grupos como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre, que têm por traz pessoas que defendem uma visão de mundo altamente neoliberal, com estado mínimo, privatizações, imprensa privada. E a pesquisa deixa bem claro que a população não quer isso, não quer uma agenda privatizadora. A população quer educação e saúde custeada pelo estado.

Então, em alguma medida, a agenda que esses manifestantes defendem também têm princípios da esquerda que eles tanto criminalizam?

Sim, essa é uma agenda da esquerda, porque quem fornece educação e saúde gratuita é a esquerda. Portanto, a pesquisa desconstrói um pouco esse discurso de que é importante privatizar. Ninguém quer isso. São pautas colocadas pelos organizadores, mas que não representam os manifestantes. Agora, é preciso ressaltar que o ponto fundamental que une a todos eles, e que os organizadores sabem explorar bem, é esse sentimento antipetista. Eles estão muito focados nisso. Então, no final, é isso: divergências à parte, vamos contra a Dilma, contra o Lula, contra o PT.

Então, é fundamentalmente o antipetismo que une esses grupos?

Sim, é o fator de união de todo mundo que está ali, porque tem grupos diferentes nas ruas. Tem os que defendem a intervenção militar, tem a turma do Paulinho da Força, os caras do MBL, mas o antipetismo une a todos. O valor comum que é fortíssimo é essa ideia do Fora Dilma, porque tem uma característica até emocional que vai contra essa ideologia lulopetista de ascensão social dos pobres.

Esse antipetismo com característica emocional também está diretamente ligado ao perfil socioeconômico dos manifestantes?

Justamente. Uma coisa que também tentamos ver com essa pesquisa é se os manifestantes eram os mesmos dos protestos de março e abril. E são os mesmos, de fato. É um grupo que não consegue agregar mais gente. Eu faço pesquisas na periferia, falo com as pessoas, e muita gente se coloca contra o governo Dilma, diz que não quer mais votar no PT, mas por outros motivos, com outra conversa, com outros tipos de bandeira. Ninguém fala em impeachment por lá. E outra coisa, a população da periferia, lá do Capão Redondo, sabe que não irá se reconhecer em uma manifestação dessas, onde a maioria é branca, de classe média alta e confraterniza com os policiais militares. O universo da periferia é outro, e a periferia sabe que aquele é um grupo excludente. É um grupo muito bem definido, extremamente homogêneo que não vai conseguir trazer mais gente para ele.

Você quer dizer que o público das manifestações pro-impeachment já atingiu seu teto? Que não tem mais potencial para crescer?

Se não levantarem outras bandeiras, se não dialogarem com a periferia, se continuarem a fazer esse teatro com a polícia, eles não conseguirão atrair os mais pobres para esse movimento pró-impeachment. Porque a periferia tem outros problemas muito mais urgentes, muitos mais graves e muito mais práticos. E não quer levantar essa bandeira, até porque se sentiria muito mal em um protesto desses, em que há aversão os movimentos sociais e populares.

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