Vidas em risco

Volta do futebol no Brasil é ‘mensagem negativa’ a população e ignora casos de covid-19

Flamengo e Bangu marcam a retomada do esporte, nesta quinta (18); especialistas afirmam que Brasil vai na contramão do mundo

Alexandre Vidal / Flamengo
Flamengo, defensor da volta do futebol, adota um protocolo avançado para o controle da doença no clube. Entretanto, especialistas dizem que nem todos os clubes têm as mesmas condições

São Paulo – Mesmo diante da curva ascendente de casos de covid-19 e – até a terça (16) – com 45 mil pessoas mortas pela doença no país, Flamengo e Bangu se enfrentam nesta quinta-feira (18) pelo campeonato estadual do Rio, marcando a volta do futebol brasileiro, após três meses de paralisação. Para especialistas, a volta da competição “relativiza a pandemia” e passa a falsa mensagem de “normalização do cotidiano” para a população.

Após ceder à pressão de Flamengo e Vasco, a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj) anunciou hoje (17) as datas das partidas pela Taça Rio – o segundo turno do campeonato. Por sua vez, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), liberou os treinos das equipes da A-1, a principal divisão do campeonato paulista, a partir de 1º de julho.

Seja no Rio, em São Paulo, ou em qualquer região do país, a decisão é considerada precipitada por especialistas. O médico infectologista Evaldo Stanislau Affonso afirma que a volta do futebol passa a sensação de normalidade à população, quando a realidade é que a pandemia tende a se agravar. “A mensagem é errada e sinaliza que o cotidiano voltou ao normal, tirando o foco da covid-19.”

Já o jornalista, pesquisador e autor Irlan Simões lembra que o Brasil desdenha a potência do novo coronavírus e, ao retomar as atividades esportivas, manda jogadores e profissionais do futebol “para o abate”.

A volta do futebol

Além do Rio de Janeiro, Santa Catarina, que tem 212 óbitos registrados e 14 mil casos de covid-19, marcou o retorno do torneio estadual para 8 de julho. O Rio Grande do Sul também quer retomar as partidas do “Gauchão” e agendou jogos para o dia 15 do próximo mês.

Com a volta das partidas, o Brasil retoma as atividades esportivas na contramão do mundo. Levantamento realizado pelo GloboEsporte.com mostra que os seis países mais afetados pela doença tiveram um intervalo mínimo de 70 dias, entre o pico de casos e a retomada dos jogos. O Rio volta 53 dias após a paralisação do torneio.

A Itália, por exemplo, registrou 34.405 mortos e 237.500 casos confirmados de coronavírus. O pico da doença foi no dia 28 de março e os jogadores só votaram a campo na última sexta-feira (12), na semifinal da Copa da Itália, entre Juventus e Milan. O intervalo entre o pico de mortes pela covid-19 e a volta dos jogos foi de 76 dias.

O Brasil, segundo especialistas de saúde, ainda não chegou ao pico da doença. Ontem, o país registrou mais que o dobro de mortes pela pandemia que no dia anterior, com novas 1.282 vítimas. Desde março, já foram 923.189 brasileiros infectados, de acordo com os dados oficiais.

Estrutura desigual

O Flamengo, principal defensor da volta do futebol em meio à pandemia, adota um protocolo considerado avançado para o controle da doença no clube. Jogadores e comissão técnica são testados duas vezes por semana: um exame sorológico e outro, com amostras nasais.

Nos primeiros testes realizados pelo rubro-negro carioca, 38 pessoas testaram positivo para covid-19, entre jogadores, funcionários e familiares. Na última segunda (15), todos os testes deram negativos para o vírus.

Entretanto, nem todos os clubes têm a mesma capacidade financeira e estrutura do Flamengo. Alguns times enfrentam dificuldades para entrar em campo. Mesmo no Rio de Janeiro, o Macaé, que enfrenta o Vasco, no próximo domingo (21), é exemplo de precariedade: desfez-se de todos os atleta profissionais registrados e entrará em campo só com atletas amadores.

Para Irlan Simões, a situação de clubes como o Macaé indica que nem todos conseguirão controlar o vírus e o risco de contaminação entre jogadores é alto. “Eles (os atletas) ainda vão para casa e terão contato com a família”, alerta.

“Alguns times vão ter jogadores contaminados em campo, ou porque o teste falha ou o resultado atrasa. No Vasco, 16 atletas testaram e estavam contaminados. Diante do histórico dos dirigentes brasileiros, será que vão revelar quais são os contaminados? Eu não confio nisso. Vai ter jogador entrando em campo com o vírus”, acrescentou Simões.

Mau exemplo

A defesa da volta dos campeonatos é baseada na retomada das atividades econômicas de diversas cidades, que já reabriram praticamente todo o seu comércio. Porém, o infectologista Evaldo Stanislau lamenta o posicionamento dos clubes, que deveriam ser exemplos durante a pandemia.

“O futebol é um esporte que envolve contato, então o risco (de contaminação) sempre vai existir. Ele só seria zero se os clubes tivessem o bom senso de não retornar agora. Essa atitude é mesquinha, um mau exemplo de cidadania. Os jogadores deixam de jogar por dor muscular, mas aceitam jogar quando podem pegar uma infecção que pode ter desdobramentos”, criticou.

O jornalista lembra que o retorno dos jogos não é baseado em estudos científicos, apenas em interesses econômicos. Com a paralisação por conta da pandemia, os clubes tiveram uma queda de receita.

“Sem jogo e a exposição de imagem, não tem dinheiro entrando nos clubes. A ideia de rolar o (campeonato) Carioca é fazer a engrenagem econômica rolar. O único motivo para a pressa é o dinheiro. O governo federal entrou como aliado nisso, pois também acredita que não existe pandemia no Brasil, o que é parte da ignorância típica do governo”, acrescenta, em referência ao presidente Jair Bolsonaro.

A Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg) também se coloca contra a volta dos campeonatos. Alex Minduim, presidente da instituição, afirma que a comparação do futebol com a atividade econômica é desleal, já que a população sai de casa para trabalhar por necessidade.

“Não podemos tratar com naturalidade o ceifamento de mil pessoas por dia. As federações não podem se basear nas ações do Estado que não estão preocupadas com a vida da população”, criticou.

No exterior

Grandes ligas de futebol do mundo já voltaram às atividades. Os campeonatos espanhol, inglês, alemão e italiano já tiveram seus primeiros jogos pós pandemia. Apenas a França não vai retomar seu campeonato nacional, já que anunciou o encerramento da competição em abril, declarando o Paris Saint-German, então líder na época, campeão.

A Bundesliga, da Alemanha, foi a primeira a voltar, em maio. Os times são obrigados a adotar regras sanitárias para minimizar o risco de contágio. Entre as medidas estão o uso de veículos próprios pelos jogadores para chegar aos estádios; o uso obrigatório de máscara no banco de reservas, com um metro de distância entre cada jogador e integrantes das comissões técnicas; proibição de aperto de mãos e abraços; e restrição do número de pessoas trabalhando nas partidas.

A liga alemã também estima a realização de 20 mil testes em atletas, comissões técnicas e funcionários, até a última rodada do torneio. Além disso, todas as partidas são realizadas sem a presença de torcedores no estádio.

Evaldo lembra que, apesar dos portões fechados ao público nos estádios, as aglomerações de torcedores ainda podem ocorrer em bares, nas ruas ou mesmo em suas casas. “O jogo não vai ter torcida, mas quem garante que os torcedores não vão se juntar em algum local? Você vai abrir um flanco para um potencial polo atrativo de pessoas”, acrescenta Evaldo.

Irlan se diz preocupado com a continuidade do futebol brasileiro. Após o término dos estaduais, começa, ao menos em tese, o Campeonato Brasileiro, que exige um deslocamento ainda maior dos clubes para disputar as partidas.

“A indústria de futebol envolve muitos trabalhadores, como as equipes técnicas, de logística, funcionários dos clubes. E todos estão expostos. Se você tem 20 clubes e 50 funcionários em cada, são mil pessoas circulando, ‘se contaminando’ e repassando o vírus. Imagina você sair de Fortaleza para Porto Alegre, com escalas em outras cidades. É a normalização do risco de vida”, aponta o pesquisador.

Simões acrescenta que países como Alemanha, Itália e Espanha aderiram a medidas mais restritivas de isolamento social do que o Brasil. Para reduzir a curva do coronavírus, os italianos aplicaram um lockdown por dois meses. Já a Espanha fechou tudo por 20 dias.

“Outros países tomaram medidas mais severas, enquanto o Brasil nunca tomou nenhuma decisão. A gente está falando de universos distintos. A volta do futebol coloca todo mundo em risco, principalmente os jogadores com rendimentos pequenos”, finalizou.