tentativa e erro

Doria ignora alta de internações em UTI e diz ‘estar pronto’ para segunda onda de covid-19

Para manter flexibilização, governo paulista “desiste” de evitar novas contaminações e passa a apostar em convívio com a doença e no aumento da capacidade dos hospitais

GovSP
Doria, o secretário da Saúde, José Henrique Germann, Carvalho e Gabbardo: 'estamos preparados'

São Paulo – Para manter a decisão de flexibilizar a quarentena em São Paulo, o governo de João Doria (PSDB) ignora o aumento significativo de internações de pacientes com covid-19 em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) desde o anúncio do Plano São Paulo. Em entrevista coletiva na tarde desta segunda-feira (15), o coordenador do Comitê de Contingência do Coronavírus, Carlos Carvalho, disse que, com a ocupação de UTI em torno de 70%, o estado estaria preparado para uma eventual segunda onda de contaminações pelo coronavírus, em consequência da queda no isolamento social. “Nós temos um espaço para eventualmente absorver qualquer segunda onda que possa vir a ocorrer, mas até agora ela não demonstrou que está ocorrendo”, afirmou.

Desde o dia 1º, quando o Plano São Paulo, com regras para a reabertura do comércio e dos serviços, foi anunciado por Doria, o número de internações nas UTI do estado cresceu 22% – de 4.681 para 5.710. Se o período observado for estendido até 19 de maio, quando o então coordenador do comitê Dimas Tadeu Covas declarou que os paulistas estavam “perdendo a batalha para o vírus”, o aumento é ainda maior: 56,1% – de 3.659 para 5.710. Apenas ontem (14), foram 1.931 novas internações. O total de internados, considerando as enfermarias, é de 13.982.

No último dia 11, o próprio Dimas Covas, que deixou a coordenação do comitê dias depois do anúncio de flexibilização, disse em uma live com pesquisadores que “vai acontecer o pior” em São Paulo. “Nenhum especialista, nenhum infectologista, nenhum epidemiologista fala que você pode sair (da quarentena) com curva em ascensão. E, no estado de São Paulo, nós não temos nenhuma curva em descensão. Vai acontecer, na minha visão, o pior. Vão perceber que as UTI vão ficar lotadas.Vai ter sobrecarga e vão ter que tomar algumas medidas. Talvez a gente aprenda pela forma mais dolorosa”, disse.

Inevitável

No entanto, o secretário-executivo do comitê, João Gabbardo, indicou que mesmo com aumento de casos e mortes, que são esperados, por exemplo, no interior do estado, o governo paulista não deve desistir do plano de reabertura do comércio e dos serviços. “A pandemia é inevitável. O tempo foi essencial para que o estado adquirisse respiradores, aumentasse as UTI (de 3.500 para 7.610). Os óbitos que ocorreram não foram por falta de atendimento. O crescimento dos óbitos vem caindo. Tem ocorrido aumento no interior, o que é natural, esperado, mas compensado por uma redução na região metropolitana”, declarou.

A admissão de que o aumento de mortes no interior era esperado contrasta com a própria decisão do governo Doria e do comitê de saúde de passar a maior parte do interior do estado para uma fase mais flexível do Plano São Paulo. As regiões de Barretos, Presidente Prudente, Bauru e Araraquara, que englobam 133 cidades, foram direto da fase 1-vermelha do Plano São Paulo, em que só podem funcionar os serviços essenciais, para a fase 3-amarela, e foram autorizadas a abrir shoppings, comércios em geral, bares, restaurantes, salões de beleza e escritórios.

Duas semanas após a abertura, essas regiões tiveram aumento no número de mortes e de casos de covid-19. E tiveram de voltar para a fase 1-vermelha. Expondo a fragilidade dos critérios do Plano São Paulo, as regiões que apresentaram piora no índice de mortes têm taxas baixas de ocupação de leitos de UTI e boas taxas de leitos de UTI por 100 mil habitantes – que os colocariam na fase 4-verde do plano.

Taxa de ocupação

Hoje, o estado registra 181.460 casos confirmados de covid-19 e 10.767 mortes em decorrência da doença. A taxa de ocupação de UTI está em 70,8% no estado em 77,8% na Grande São Paulo. Já na capital, a ocupação de UTI chegou a 81,7% neste domingo, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde.

O índice é 18,7 pontos percentuais maior que o informado oficialmente pelo governo do prefeito Bruno Covas (PSDB) – 63%. Isso porque a prefeitura conta apenas os leitos de UTI dos hospitais municipais e os contratados pelo município na rede privada, ignorando os hospitais estaduais e as demais unidades de saúde privadas.

A situação coloca a capital paulista novamente em alerta vermelho para a pandemia de coronavírus, conforme os critérios do plano São Paulo. E pode levar a uma nova decretação de fechamento do comércio e uma quarentena mais restrita, se a situação se mantiver até a próxima avaliação do governo paulista, na próxima quarta-feira (17), quando a média semanal de internações em UTI deve ser atualizada pelo governo Doria.