Povo na rua

Torcidas organizadas criam ‘linha de frente’ na resistência antifascista

Lideranças de organizadas defendem também a politização do torcedor e dos jogadores. “Atletas também precisam se manifestar pela democracia”

Oam Santos/Fotos Públicas
Neste domingo (30), torcedores organizados dos quatro grandes clubes de São Paulo e braços antifascistas foram à Avenida Paulista, com cartazes e bandeiras contra o fascismo representado por Jair Bolsonaro

São Paulo – Após tochas, bandeiras neonazistas e faixas em defesa da ditadura tomarem as ruas do Brasil, as torcidas organizadas assumiram parte do protagonismo pela democracia e contra o autoritarismo do governo Bolsonaro. Neste domingo (31), grupos antifascistas de torcedores dos quatro grandes clubes de São Paulo foram à Avenida Paulista, com cartazes e bandeiras em defesa do Estado democrático. 0

Apesar de se manifestar pela liberdade, foram reprimidos pela Polícia Militar, que disparou bombas e balas de borracha contra os manifestantes, enquanto protegia os apoiadores do fascismo, presentes e provocadores. Alex Minduim, presidente da Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anartog), afirma que, apesar da repressão, o movimento iniciado ontem é um recado aos defensores da ditadura e também à oposição ao governo Bolsonaro.

“Foi uma demonstração de que não podemos deixar as ruas serem tomadas por movimentos ultradireitistas que querem autoritarismo. Mostramos que não vamos aceitar a derrubada da democracia. Sem a oposição nas ruas, eles vão crescer. A luta não é feita só no Parlamento, então também damos o recado à oposição de que é preciso sair do casulo.”

A torcida corintiana Gaviões da Fiel era maioria na manifestação deste domingo. Danilo Pássaro, organizador do movimento Somos Democracia, acrescenta que a guerra de narrativa estava hegemônica na rua, mas agora há disputa. “Quando o torcedor for politizado, o sistema vai tremer”, disse.

Repressão

Durante a tarde do domingo, enquanto ocorria a manifestação pró-democracia das torcidas organizadas, parte da Avenida Paulista era ocupada por defensores do fascismo e de Bolsonaro. Entre esse grupo, alguns portavam bandeiras neonazistas.

Diversas imagens correram as redes sociais a partir do fim da tarde, mostrando provocações e intolerância por parte da manifestação fascista, que no entanto recebeu apoio e proteção da Polícia Militar, quando a confusão, que ela não se esforçou para evitar, estourou. Marcos Gama, da palmeirense torcida Porcomunas, acredita que esse modo de agir é uma armadilha para deslegitimar o movimento.

“No sábado (30), bolsonaristas passaram a noite (em Brasília) com tochas ameaçando o Supremo e a polícia apareceu para reprimir aquilo? Não. Pedimos a manutenção da democracia, sem querer brigar, e fizeram aquilo tudo. Depois, vem a imprensa chamar a gente de vândalo. É um absurdo”, criticou.

Danilo acrescenta que, frente à clara possibilidade de ruptura democrática no Brasil, é importante que todas as torcidas ‘saiam de cima do muro’. “Quem não se posicionar diante desse governo fascista está fazendo coro ao fascismo”. Ele lembrou ainda: “Se um nazista senta numa mesa que tem nove pessoas e ninguém se levanta pra ir embora, você tem 10 nazistas”.

Em pelo menos 14 capitais do Brasil, manifestações antifascistas foram registradas. (Foto: Mídia Ninja)

Politização do torcedor

As torcidas têm um poder único de mobilização e por isso a participação política é tão importante, defende a Anatorg. Segundo a entidade, o pontapé inicial para criar um movimento homogêneo e forte é a bandeira democrática. Os torcedores lembram que, há anos, estão censurados nas arquibancadas, sem poder levantar faixas de cunho político. Agora, nas ruas, podem ecoar a defesa de um projeto de país.

Apesar de as manifestações ocorrerem em meio à pandemia e a necessidade do isolamento social, para evitar a propagação da covid-19, Minduim afirma que o momento do país pede que se assuma esse risco. “A conjuntura do momento, com um movimento autoritário, justifica a saída às ruas. Nós temos ciência dos riscos que corremos, mas é uma exceção necessária para salvar a democracia do país.”

Danilo acrescenta que o processo de politização também deve entrar em campo e chegar aos jogadores, que pouco se manifestam. “Os atletas precisam se manifestar pela democracia, não precisa algo partidário. Nos Estados Unidos, os profissionais são participativos, enquanto aqui, vemos crianças morrendo baleadas e nossos jogadores seguem omissos”, lamentou.

Uma nova manifestação em defesa da democracia e contra o fascismo representado pelo governo Bolsonaro está marcada para o próximo domingo (7), novamente no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), a partir das 14h.

Pelo Brasil

Em pelo menos 14 capitais do Brasil, manifestações antifascistas foram registradas neste domingo. No Rio de Janeiro, em Copacabana, o ato teve a presença da flamenguista Democracia Rubro-Negra.

O Centro Histórico de Porto Alegre foi também palco de uma manifestação em defesa da democracia e contra o fascismo e o governo Bolsonaro. Participaram do ato integrantes de coletivos sociais e políticos, além de parte das torcidas organizadas do Grêmio e do Internacional.

Para um membro da Grêmio Antifascista, o futebol é capaz de congregar diversos tipos de pessoas. “A pandemia está prejudicando o povo pobre, que tem ligações fortes com o futebol. Diante do ‘negacionismo’ do Bolsonaro, parece lógico as torcidas liderarem esse elo mais fraco”, disse.

No último dia 17, os antifascistas de Porto Alegre impediram atos pró-Bolsonaro e a favor da intervenção militar. O grupo entoou a frase “recua, fascista, recua!” e dispersaram os manifestantes de extrema-direita.

“É um contraprotesto. Estamos defendendo a democracia em oposição à defesa do bolsonarismo. Há membros de vários grupos antifascistas, onde o clubismo é deixado de lado, porque o inimigo é o neofascismo brasileiro”, explica o membro do grupo.


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