Urgência

Filme sobre final do governo Dilma foi ‘réquiem de um período’

Para diretoras, documentário “Alvorada” ajuda a entender como o Brasil chegou até o crítico momento atual: “Só isso já justifica o filme”

Presidência da República
Dilma, ainda presidenta, diante do Alvorada: filme revelou alguém que sabia o que estava em jogo no impeachment e o que iria acontecer com o país

São Paulo – De junho a setembro, as cineastas Anna Muylaert e Lô Politi bateram ponto no Palácio da Alvorada, residência oficial dos presidentes da República, em Brasília, para acompanhar o processo de impeachment do ponto de vista de Dilma Rousseff, que terminaria destituída. Para elas, mais do que a narrativa de uma crise política, o documentário Alvorada representa, de algum modo, o fim de um momento histórico no Brasil. Foi, para Anna, o “réquiem de todo um período”.

Segundo Lô, ali estava a semente do que iria acontecer nos anos seguintes. “Só isso já justifica o filme”, acredita. Ela salienta a importância de “dissecar o momento para entender como a gente chegou aqui”. As diretoras, que nunca haviam trabalhado juntas, participaram no final da tarde desta quarta-feira (14) de um debate sobre o documentário, dentro da programação do festival É Tudo Verdade.

Melancolia e proximidade

Ana destaca que Alvorada não é um filme “de informação”, papel que coube, por exemplo, a Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Ou a O Processo, dirigido por Maria Augusta (Guta) Ramos. “O nosso é mais atemporal, (mostra) a melancolia do período e a proximidade dessa personagem fortíssima.” A existência dos dois filmes anteriores “foi meio libertador para a gente”, diz Lô.

Elas contam que o material filmado permitiria um outro filme. “Existia um material grande. Ali, no calor da hora, a gente acabou filmando várias outras coisas, cena de avião… A primeira versão que a gente montou ainda tinha essas externas. Fomos depurando isso”, conta Anna. As cineastas optaram por mostrar apenas a presidenta e o palácio, do afastamento até a conclusão do processo de impeachment. Como definiram, um “filme de emergência”, o que em alguns momento provocou alguns problemas técnicos, com a câmera ou o som direto, por exemplo. Com isso, algumas cenas consideradas boas ficaram de fora.

Anna (em destaque) e Lô (segunda de cima para baixo) trabalharam juntas pela primeira vez em ‘Alvorada’, permanecendo quase quatro meses no palácio

Potência visual sonora

Não houve surpresas durante as filmagens, mas elas contam que esperavam mais movimentação no Alvorada, devido à situação política. Avaliam que isso acabou beneficiando o filme. E lembram que, desde o início, a intenção era incluir peças de Heitor Villa-Lobos na trilha sonora: o principal compositor erudito brasileiro e “de esquerda”, como observou Anna, diretora de filmes como O ano em que meus pais saíram de férias, Durval Discos e Que horas ela volta?.

Assim, Villa-Lobos e Oscar Niemeyer, projetista do palácio, proporcionaram a “potência visual sonora que faria jus ao tamanho do drama que estava se desenvolvendo ali”. E, de algum maneira, a trilha do filme Alvorada serviria para mostrar que as duas estavam apoiando a personagem, embora alguns identifiquem certa “neutralidade” no documentário.

Mediante o acordo feito com Dilma, as cineastas tiveram livre e permanente acesso ao Alvorada. “Ela nunca mandou a gente embora. Ela não sabia onde a gente estava, com quem estava falando”, lembra Lô, destacando a “coragem” da presidenta em momento de pressão extrema. “Ninguém normalmente aguentaria uma câmera 24 horas dentro de casa”, diz a diretora de Jonas, que agora produz e dirige – com Dandara Ferreira – o filme Divino Maravilhoso, sobre a cantora Gal Costa.

Forças nada ocultas

O documentário traz algumas cenas em que Dilma conversa diretamente com as diretoras. E se solta aos poucos, como quando fala do período presa, que nem na cadeia ela se deprimiu. “Foi quando ela mais se abriu. Ela sabia que forças eram aquelas (a favor do impeachment) e o que ia acontecer com o país em seguida”, comenta Anna, que diz também ter ficado impressionada com a cultura e a inteligência da presidenta. Aspectos que não apareciam no dia a dia da cobertura jornalística.

Ainda não há definição de quando o filme Alvorada sai em circuito comercial. Para isso, é preciso que as salas de cinema voltem a funcionar. Anna e Lô contam que Dilma assistiu, sozinha, uma versão anterior – estão tentando acertar para que ela veja, agora, a versão final. Mas as impressões da ex-presidenta se resumiram em um comentário sucinto, que as autoras avaliam como positivo: “Tá ok”.