É Tudo Verdade

Entre o silêncio e a queda de Dilma, filme ‘Alvorada’ mostra fragilidade e melancolia do poder

Documentário de Anna Muylaert e Lô Politi retrata últimos meses de Dilma no Alvorada, e sua resistência. “Não tenho medo de perder. Agora, isso não significa que não se lute”

Divulgação
A presidenta e o palácio, onde ficou até o início de setembro de 2016: 'Eu não tenho medo de perder. Agora, isso não significa que não se lute, né?'

São Paulo – Em 12 de maio de 2016, a presidenta Dilma Rousseff foi afastada do cargo em razão da abertura do processo de impeachment, concluído três meses e meio depois, com o conhecido desfecho. Nesse período de aproximadamente 100 dias, ela ficou confinada ao Palácio da Alvorada, o primeiro edifício inaugurado em Brasília, ainda em 1958, dois anos antes da transferência da capital federal. Em Alvorada, documentário dirigido por Anna Muylaert e Lô Politi que estreia no festival É Tudo Verdade, o palácio é personagem, tanto quanto Dilma.

“Um filme de emergência”, definem as diretoras, que narram em 80 minutos o clima de melancolia que antecede a queda da presidenta da República. Uma radiografia simbólica, falsamente calma, da perda gradativa do poder. O filme teve sessão de lançamento nesta terça-feira (13) à noite e tem outra exibição às 15h desta quarta. A estreia em circuito comercial (cinema e streaming) está prevista para maio.

Dragões e emas

A turbulência do processo de impeachment contrasta com a aparente calmaria da residência oficial da Presidência da República. Silêncio, corredores vazios, preocupação com a cor da água da piscina, funcionários cuidando do dia a dia do palácio, regando os jardins, os Dragões da Independência em seu ritual de hasteamento da bandeira, troca de guarda, telefonemas, muitas reuniões, a montagem da defesa, idas e voltas entre o subsolo e o primeiro andar, emas andando pelo gramado. Como uma ema vive 30 anos ou até mais em cativeiro, uma delas pode ser a que fugiu do atual mandatário (cuja voz se escuta no início, em momento de triste lembrança histórica).

Enquanto isso, os poucos assessores próximos (Marly Ponce Branco, Giles Azevedo, Sandra Brandão, Olimpio Cruz, entre outros) respondem pela agenda e compromissos da presidenta afastada. Seu defensor, o ex-ministro José Eduardo Cardozo, chega de bicicleta. Dilma recebe visitas oficiais, como de integrantes do Tribunal Penal Internacional e do Movimento das Mulheres. Tudo é filmado, ou nem tudo, conforme a presidenta adverte, no início: “Eu não sou personagem o tempo inteiro”. Em pelo menos dois momentos do documentário, ela aparece pedindo para interromper a gravação, até enfaticamente, como durante a elaboração de uma carta à nação. As diretoras lembram que o objetivo era retratar não os “grandes gestos históricos”, mas os “pequenos gestos pessoais”.

Ilegítimo e traidor

Dilma aparece ainda andando pelos corredores pelo Alvorada, procurando alguém, ou em entrevistas com correspondentes estrangeiros. Conversa sobre história brasileira, sobre elites, sobre depressão (um amigo a chamou de “doente” porque ela não se deprime), conta que não tem “a menor paciência” para meditação. Sempre que tem oportunidade, acrescenta o adjetivo “ilegítimo” ao governo em exercício, liderado pelo seu vice, Michel Temer. Uma pessoa que teve “atitude de traição”, afirma. Ele não aparece. Seu nome não é sequer citado.

Apenas em 29 de agosto, Dilma deixa o palácio, para prestar longo depoimento no Senado, em sessão presidida pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal. Mas em nenhum momento a câmera sai do Alvorada. Em todos os cômodos, funcionários e assessores assistem à transmissão pela TV. Pela tela, atentos, escutam o discurso: “Fizeram de tudo para impedir a minha posse e a estabilidade do meu governo. (…) Hoje, eu só temo a morte da democracia”. Na ala residencial, em uma estante fica a icônica foto em que Dilma, então presa política da ditadura, aparece diante da Justiça Militar. Os “juízes” que escondem os rostos com as mãos são cortados da imagem.

No dia do depoimento, aliados e representantes de movimentos sociais comparecem em peso para prestar solidariedade. É possível ver sindicalistas, integrantes dos sem-terra, como João Paulo Rodrigues, dos sem-teto, como Guilherme Boulos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministros, o cantor e compositor Chico Buarque. O Alvorada se enche de gente.

Reunião com aliados: durante aproximadamente 100 dias, o Alvorada foi o QG de Dilma, enquanto o parlamento se aliava a Temer para afastá-la de vez

Silêncio e som ao redor

A trilha sonora tem tons glauberianos, que ressaltam a dramaticidade do ambiente, com obras de Heitor Villa-Lobos, como Sinfonia nº 10, Valsa da Dor e Descobrimento do Brasil. Uma tensão que diminui aos acordes de Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, pelo violonista Edson Lopes. O silêncio ao redor contrasta com o que está para acontecer. A Alvorada é um universo de enganadora tranquilidade, com sua arquitetura, seus amplos salões, o enorme painel de Di Cavalcanti na biblioteca.

Em outro momento, Dilma aparece falando às diretoras que fica mais tranquila quando não se tem mais nada a perder. “Eu não tenho medo de perder. Agora, isso não significa que não se lute, né? Sistematicamente”, acrescenta.

Residência oficial do presidente da República, o Palácio da Alvorada foi inaugurado em 1958, dois antes da transferência da capital federal

A votação do impeachment, em 31 de agosto, na 133ª Sessão Extraordinária da Casa, é o clímax anticlímax. Por 61 votos a 20, os senadores aprovam o que já era mais do que esperado. Quando uma comissão chega ao palácio com a notificação oficial, é recebida pelo ex-ministro Jaques Wagner. Tenso, ele não concorda em levá-los até a presidenta para colher a assinatura presencialmente. Dilma ainda fará menção ao que chama de “imprensa facciosa” e alerta que o país, dali em diante, sofrerá as consequências do “mais radical liberalismo econômico”.

O diabo em várias formas

Uma última conversa das diretoras com a presidenta. Sobre literatura. Ela fala, sintomaticamente, a respeito de representações do demônio. Cita José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo), Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e John Milton, poeta inglês do século 17, autor de Paraíso Perdido. “Eu não acredito no mal”, afirma uma serena Dilma. “Acho o diabo uma criação absolutamente intrigante”, completa.

Caixas são transportadas para um caminhão de mudança. Em 6 de setembro, véspera do Dia da Independência, Dilma sai do Alvorada. Despede-se dos funcionários. Do carro, ainda na garagem, acena. Na frente do palácio, desce para cumprimentar manifestantes. Uma mulher mostra-se inconformada. “Um monte de bandidos, um monte de ratos”, diz. Lá dentro, funcionárias da limpeza sentam na cadeira do poder e fazem selfies.