Arte e lucidez

Franco da Rocha reabre museu de arte do Complexo do Juquery

Museu Osório Cesar reabre após 16 anos. São mais de 8 mil obras de ex-pacientes do Complexo do Juquery, projetado por Ramos de Azevedo e tombado pelo patrimônio histórico

divulgação
Prédio do museu tem seu projeto arquitetônico assinado pelo Escritório de Arquitetura Ramos de Azevedo e foi residência do Dr. Francisco Franco da Rocha

São Paulo – A cidade de Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo, reabre para o público nesta terça-feira (1º) o Museu Osório Cesar. Fundado em 1985, o espaço, parte do Complexo Hospitalar Psiquiátrico do Juquery, ficou fechado por 16 anos. Estarão disponíveis para apreciação, novamente, obras de arte de ex-pacientes da instituição.

O Hospital do Juquery é uma das maiores e mais conhecidas instituições psiquiátricas do Brasil, fundado em 1898. Com um histórico inicial sombrio, com tratamentos cruéis, sucessivas reformas no campo da psiquiatria alcançaram a superação dos piores dias do complexo. Um dos nomes da humanização no tratamento das questões psiquiátricas é homenageado com o nome do museu.

Osório Thaumaturgo Cesar foi um dos pioneiros na utilização da arte como forma de terapia, ainda nas décadas de 1940 e 1950. “Por iniciativa do médico Osório Cesar, foram iniciados os primeiros estudos da arteterapia, método que resultou na criação de um museu que leva seu nome e que transformou a vida de milhares de pacientes psiquiátricos no Brasil”, afirma a organização do museu.

O hospital chegou a atender 16 mil pacientes nos anos 1970, à época, maior colônia psiquiátrica da América Latina. A história da instituição se confunde com a história da cidade, que agora constrói um novo caminho como polo de turismo e estudo da região. Todo o complexo é tombado pelo patrimônio histórico, incluindo as instalações do museu. “O local tem seu projeto arquitetônico criado pelo Escritório de Arquitetura Ramos de Azevedo e já foi residência do Dr. Francisco Franco da Rocha, fundador do Hospital Psiquiátrico do Juquery.”

Acervo

Obras de Aurora Cursino dos Santos, uma de 1951 e outra sem data, do acervo do Museu Osório Cesar, em Franco da Rocha

“Quais limites divisam a loucura e a lucidez? Quem define os parâmetros do que é considerado arte e do que não é? Essas questões reverberam dentro dos muros do Hospital do Juquery”, define a organização. Estão preservadas e, agora, expostas, mais de 8 mil obras “símbolos da potência dos internos para produzir obras que versam sobre experiências distintas de conexão dos alienados com o mundo”.

Entre as criações, estão 15 feitas por pacientes para a Mostra de Arte Contemporânea 2020 em Berlim. Os artistas pacientes que participaram do evento foram Ubirajara Ferreira Braga, Aurora Cursino dos Santos, Maria Aparecida Dias e Masayo Seta.

Turismo e renda

O prefeito de Franco da Rocha, Kiko Celeguim (PT), comemorou a reabertura do museu. Celeguim deixa a prefeitura em janeiro, mas será sucedido por Dr. Nivaldo (PTB), que representou uma coligação apoiada pelo atual prefeito.

“A importância do Estado é fundamental para criar um espaço como este, até agora inexistente na região. Além de cultural, o museu tem um plano educativo. Ajudará – principalmente a população de baixa renda – a ter acesso à produção artística e compreender a arte em termos históricos. Ao mesmo tempo há expectativas de que o museu promova turismo, renda e geração de empregos”, afirma Kiko Celeguim.

Além do marco histórico de relevância para a psiquiatria, a luta antimanicomial e a cultura brasileira, o museu também oferecerá orientação pedagógica para visitas de estudantes e a população. Todo o complexo amplia a criação de emprego e renda na cidade. “Espaços como este não existem na região. Além de um investimento financeiro e da formação de museólogos e técnicos, conseguimos recursos inéditos em nossa região”, disse o prefeito.

Celeguim afirma que “na medida em que estará aberto a pessoas de todo o Brasil, o museu terá potencial para despertar o turismo de fim de semana em Franco da Rocha e desenvolver uma cadeia que, além de conhecimento, vai gerar emprego e renda”.