Cinema político

Oscar 2020: Democracia em Vertigem é ‘trabalho notável que vai ficar na história’, diz professor da USP

"Foi uma indicação muito procedente, sobretudo em um contexto em que a mídia, de forma geral no Brasil, contou uma versão um tanto distorcida e desfavorável a quem sofreu o impeachment", aponta Henri Pierre Gervaiseau

Divulgação Netflix
"De todos os filmes produzidos sobre o impeachment, e já são vários, é o que oferece uma documentação mais completa sobre o processo", avalia professor

São Paulo – Na noite deste domingo (9) o Brasil pode, pela primeira vez, vencer um Oscar, prêmio mais importante da indústria cinematográfica. O filme Democracia em Vertigem concorre na categoria Melhor Documentário e tem concorrentes de peso como Indústria Americana, produzido pelo casal Obama. Independentemente do resultado, o filme já tem seu lugar de destaque entre as obras produzidas até hoje no Brasil, segundo o professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Henri Pierre Gervaiseau.

“O filme é muito bem documentado, com registros efetuados de forma observacional, e a idealizadora (a documentarista Petra Costa) tem a coragem de se colocar pessoalmente. Foi uma indicação muito procedente, sobretudo em um contexto em que a mídia, de forma geral no Brasil, contou uma versão um tanto distorcida e desfavorável a quem sofreu o impeachment”, disse ele, em entrevista ao Jornal da USP.

Ele destaca ainda a postura do governo brasileiro que, por meio de perfil no Twitter da Secretaria Especial de Comunicação Social, atacou a documentarista Petra Costa. “O documentário é muito bom, e fico chocado, assim como muitos brasileiros, com a tentativa do governo, através da Secom, de desrespeitar o trabalho da cineasta, a liberdade de indicação da Academia do Oscar, inclusive indo contra a Constituição Federal, que prega a impessoalidade da administração pública. É mais um sinal do momento obscuro que estamos vivendo.”

Gervaiseau também rebate uma das críticas comuns feitas ao filme, de que a visão pessoal da diretora, exposta por meio de sua narração, prejudicaria o resultado final. “No jornalismo, habitualmente, o ponto de vista de quem construiu o discurso que está sendo apresentado ao público, está sendo explicitado, parece que se trata de uma visão objetiva, neutra, o que pode ser um desejo mas que efetivamente nem sempre acontece. Ao assumir uma voz mais subjetiva, de um relato, na verdade a cineasta dá a possibilidade para o espectador inclusive se distanciar mais do que está sendo narrado, porque ele percebe que ali há um ponto de vista sendo exposto”, pontua.

O professor destaca ainda que o filme se baseia em farto material de pesquisa. “Ao mesmo tempo, esse ponto de vista exposto nesse filme e em outros em que há uma voz subjetiva que colabora na narração de um filme é baseado em uma quantidade gigantesca de registros documentais, de situações que efetivamente aconteceram. E o que é muito relevante nessa obra é exatamente essa articulação entre uma voz que assume um ponto de vista e um conjunto de registros montados de forma muito fidedigna em cima de situações acontecidas e observadas pela cineasta.”

As chances de Democracia em Vertigem no Oscar

O professor da ECA-USP também analisou as chances de Democracia em Vertigem sair vencedor do Oscar. “O fato de ter sido produzido parcialmente com o apoio da Netflix faz com que ela colabore para a possibilidade de ganhar, mas acho que o maior parâmetro é a qualidade do filme, um trabalho notável que vai ficar na história, não apenas pela polêmica que produziu, mas por sua importância intrínseca. De todos os filmes produzidos sobre o impeachment, e já são vários, é o que oferece uma documentação mais completa sobre o processo. Tem um nível técnico, estético e de relevância para estar nesse páreo.”