Arte popular

No desfile da Mangueira, o ‘Jesus da gente’ tem rosto negro, sangue índio e corpo de mulher

Atual campeã do carnaval carioca aposta em forte cunho político e crítico a Bolsonaro, mencionando “messias de arma na mão”. Portela deixa Sambódromo como grande favorita ao título

Ronaldo Nina e Gabriel Nascimento / Riotur
Jesus "funkeiro", menino negro, de cabelo platinado e com o corpo encravado de balas e Jesus vítima de discriminação policial. Desfile da Mangueira mostrou críticas ao Brasil de Bolsonaro

São Paulo – A primeira noite de defiles do Carnaval do Rio de Janeiro, realizada neste domingo (23), teve o aguardado desfile da Mangueira entre os principais destaques e foi marcada por temas como a desigualdade social, críticas a “falsos profetas” e ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mostrados por alegorias como um Jesus negro e outro, mulher.

A Mangueira, atual campeã do carnaval carioca, voltou a desfilar com vários elementos de crítica social e política. Com o samba-enredo “A Verdade vos Fará Livre”, a agremiação usou a trajetória de Jesus Cristo para fazer críticas sociais e políticas.

A rainha da bateria Evelyn Bastos representou Jesus como mulher e a comissão de frente mostrou um Jesus pobre e com apóstolos negros. O samba cita um Jesus de “rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”, e menciona “profetas da intolerância” que não sabem que a “esperança brilha mais que a escuridão”.

“Jesus pode ter todos os gêneros”. Evelyn Bastos, rainha da Mangueira, retratou Jesus como mulher

“Jesus pode ser de todos os gêneros. E se fossemos ensinados, desde criança que Jesus também poderia ser uma mulher, será que o Brasil estaria no topo do feminicídio? Que todos os olhos possam acolher todas as imagens de Jesus, porque ele está no meio de nós”, disse a rainha da Mangueira, Evelyn Bastos,

O desfile incluiu referências diretas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em um trecho de seu samba, a letra diz “não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão” – o nome completo do presidente é Jair Messias Bolsonaro.

A escola também montou a ala “Bandido Bom é Bandido Morto”, retratando a violência diariamente cometida como política de governo contra jovens pobres e negros no Brasil. TAmbém para retratar a intolerância do Brasil de Bolsonaro, a ala das baianas remetia a religiões de matrizes africanas, enquanto um grupo lembrando a personagem bíblica Maria Madalena levava uma placa com o arco-íris LGBT+ dizendo “Vai tacar pedra?”

Outros destaques

Na primeira noite de desfiles do grupo especial do Rio, a Acadêmicos do Grande Rio narrou a história de Joãozinho da Gomeia, pai de santo negro e homossexual que ganhou reconhecimento nacional como líder religioso. Já a Tuiuti fez uma crítica à violência na cidade do Rio, trazendo uma faixa “Vai passar” e dados nas fantasias de figurantes.

Com críticas diretas à devastação ambiental, a Estácio de Sá abriu a noite com o enredo “Pedra”. Os impactos da mineração foram lembrados no carro alegórico “Em Busca do Ouro” que retratou a situação dos trabalhadores do garimpo. 

A luta e o empoderamento das mulheres foram o fio condutor do desfile da Unidos do Viradouro, por meio da história das ganhadeiras de Itapuã. O enredo “Alma Lavada” homenageou as trabalhadoras que lavavam roupas em Salvador (BA) e se transformaram em referência cultural com suas canções sobre o cotidiano das pessoas simples da capital baiana.

Por sua vez, A Portela, que fechou a programação na Sapucaí, concluiu sua apresentação aos gritos de “é campeã!” nas arquibancadas. Com o enredo “Guajupiá, terra sem males!”, a escola mostrou a história dos índios Tupinambás, primeiros habitantes do estado do Rio e deixou o Sambódromo carioca como uma das favoritas ao título.

Das lendas, costumes e riquezas da região antes da colonização ao caos urbano e problemas da atualidade, a escola desfilou a história do Rio sem abrir mão da crítica.


Com reportagens do Brasil de Fato, Carta Capital, UOL e Revista Fórum