Home Cultura Com letras engajadas e temas fortes, Bia Ferreira quer ‘libertar’ mentes e fazer a ‘revolução’
Ideias firmes

Com letras engajadas e temas fortes, Bia Ferreira quer ‘libertar’ mentes e fazer a ‘revolução’

Em álbum de estreia, "Igreja Lesbiteriana, Um Chamado", cantora e compositora se consolida como uma das grandes revelações da música brasileira
Publicado por Luciano Velleda, para a RBA
10:25
Compartilhar:   
Leandro Godoi

"Num mundo e num país onde as mulheres lésbicas sofrem ‘estupro corretivo’, a gente precisa se pautar sim como mulher lésbica. Então esse disco traz várias questões”, afirma Bia Ferreira, que se apresentou no Festival Lula Livre, em São Paulo

São Paulo — O programa Hora do Rango desta terça-feira (2) recebe Bia Ferreira, cantora, compositora, produtora musical e ativista, uma das grandes revelações da nova cena da música brasileira. O programa vai ao ar a partir do meio-dia, na Rádio Brasil Atual.

Com sua Música de Mulher Preta (MMP), Bia lançou em setembro o álbum de estreia, Igreja Lesbiteriana, Um Chamado, com as já conhecidas canções Cota não é esmola, Não precisa ser Amelia e De dentro do AP, além de outras inéditas, entre elas Brilha minha guia e Sharamanayas, parceria com a compositora Doralyce, que também participa do disco cantando em duas faixas.

De forma simples e direta, o disco trata com vigor de questões raciais e sociais, e fala sobre o movimento LGBT e a intolerância religiosa. Bia Ferreira define o primeiro álbum como um disco dançante, com as raízes da música negra por meio do reggae, jazz, blues, soul, funk e R&B. Entre canções sobre racismo e feminismo, há também espaço para o amor, como a faixa Só você me faz sentir, em que ela canta como mulher lésbica, e também na música Levante a bandeira do amor.

“Quem você é, não passa por quem dorme com você, independe de com quem você se relaciona afetivamente. É muito mais uma coerência do que você faz, fala, da sua forma de viver, pelo seu caráter, competência de trabalho. Mas num mundo e num país onde as mulheres lésbicas sofrem ‘estupro corretivo’, a gente precisa se pautar sim como mulher lésbica. Então esse disco traz várias questões, e também o amor”, afirmou a cantora em maio, em entrevista ao programa Manhã Brasil Atual, da Rádio Brasil Atual.

Segundo Bia Ferreira, o álbum nasce da convicção de que a fala “cura, educa e liberta”. A cantora e compositora enfatiza a necessidade de mais pessoas serem “libertadas” e despertadas para o desejo de “revolução”. A música, ela acredita, tem a força para proporcionar a mudança de mentes.

Em letras como Cota não é esmola, Diga não e Levante a bandeira do amor, a cantora convida seu público à reflexão sobre a necessidade de se posicionar diante de temas importantes na realidade do país. O vídeo de Cota não é esmola, por exemplo, gravado em uma apresentação no Sofar Sounds Curitiba, ultrapassou 7 milhões de visualizações no YouTube, tornando-se o vídeo mais assistido do projeto na América Latina.

Nascida em Minas Gerais e criada em Sergipe, suas ideias firmes embaladas por uma voz possante e ritmo suingado, chamaram a atenção de público e crítica desde as primeiras aparições. Em 2018, foi indicada ao prêmio de “Cantora Revelação” no Women Music Events, sendo a única mulher negra a concorrer nesta categoria. Suas canções têm sido leitura obrigatória para o vestibular da Universidade de Brasília (UnB), além de já ter sido citada em provas do vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Enquanto eu estou na linha de partida, você (a mulher branca) já está no meio da corrida para começar a correr. Não tem como eu ir correndo até você. Então a gente precisa abrir mão desse privilégio de começar no meio da corrida, voltar um pouquinho, andar para trás, chegar no ponto de partida e se colocar lado a lado com uma pessoa que está atrás de você e falar: ‘A gente está junto. Vamos começar do mesmo lugar?’”, pondera Bia, ao usar a metáfora de uma corrida para explicar o privilégio da mulher branca diante da mulher negra.


O programa

Hora do Rango, apresentado por Colibri Vitta e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), recebe ao vivo, de segunda a sexta-feira, ao meio-dia, sempre um convidado diferente com algo de novo, inusitado ou histórico para dizer e cantar. Os melhores momentos da semana são compilados e reapresentados aos sábados e domingos, no mesmo horário.