Documentário

‘A Luta do Século’: heróis nordestinos do boxe e o duelo de um povo contra a pobreza

Filme de Sérgio Machado descortina as trajetórias, dentro e fora dos ringues, do pernambucano Luciano 'Todo Duro' Torres e do baiano Reginaldo 'Holyfield' Andrade

Fotos: Divulgação
Holyfield

No filme, o boxe é uma metáfora das lutas das pessoas que tentam diariamentre nocautear a pobreza e a exclusão

São Paulo – Desde o final dos anos 1980, quando se encontraram pela primeira vez, os pugilistas Luciano “Todo Duro” Torres e Reginaldo “Holyfield” Andrade vêm alimentando uma rivalidade que cresce exponencialmente a cada luta que travam no ringue – mas não apenas. Durante 20 anos, onde quer que fosse, mesmo fora dos ginásios, em entrevistas ao vivo ou restaurantes, bastavam alguns minutos para que as provocações tomassem corpo e virassem golpes descontrolados. Esta rivalidade é o tema do documentário A Luta do Século, de Sérgio Machado, que estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas brasileiros.

Apesar de serem donos de personalidades extremamente distintas, os dois boxeadores têm muito em comum: ambos são nordestinos – Todo Duro é pernambucano e Holyfield, baiano –, e são oriundos de famílias pobres.

O primeiro era jardineiro analfabeto, neto de cangaceiros. O outro, também ex-analfabeto, é filho de uma lavadeira que sustentou sozinha os sete filhos. Ele ganhou músculos carregando produtos químicos nas docas de Salvador.

Ícones do esporte em seus respectivos estados, ambos encontraram no boxe uma forma de vencer a miséria – só que a bonança não durou muito tempo para nenhum deles.

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Neto de cangaceiros e analfabeto, antes de se tornar pugilista, Luciano ‘Todo Duro’ Torres era jardineiro

Por outro lado, as diferenças entre eles também são gritantes: o baiano, falante e provocador, não gostava de treinar e atribuía seu sucesso nos ringues aos deuses que o ajudavam a confundir os adversários; já o pernambucano, calado e introspectivo, passava o dia todo treinando na academia e, à noite, escondido, socava pneus.

A rixa entre os dois pugilistas acabou se transformando em uma rivalidade entre os dois estados nordestinos. A mídia proclamou que não havia espaço para dois ícones do boxe no Nordeste e, assim, instigou ainda mais a disputa. Quando Todo Duro lutou pela primeira vez com Holyfield, na Bahia, o pernambucano foi atacado com latas que voavam da plateia para o ringue, e quando a disputa era em território pernambucano, Holyfield entrava para na arena ao som de “Ê, ê, ê! Pernambuco vai morrer!”.

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Com mais de 50 anos e fora de forma, Todo Duro e Holyfield decidiram se enfrentar no ringue pela última vez

Durante mais de 20 anos, eles alimentaram a rivalidade e o ódio mútuo – o que também servia para promover as lutas, diga-se de passagem. Eles se enfrentaram seis vezes, com três vitórias para cada um, foram campeões sul-americanos e mundiais, e decidiram alçar voo para tentar a sorte em ringues estrangeiros, mas, aos poucos, suas carreiras foram decaindo.

A história é narrada pelo diretor com o apoio de jornais, entrevistas e muito material de arquivo, além de uma imersão na vida atual dos esportistas.

Durante as filmagens do documentário, em 2015, uma surpresa: o traficante baiano Raimundão Ravengar saiu da prisão e propôs uma nova luta para desempatar o (antigo) 3 a 3. Os oponentes, já com mais de 50 anos e fora de forma, resolveram se enfrentar pela última vez. Mais velhos, lentos, pesados e novamente fragilizados pela pobreza, os dois passaram a treinar pesado para o que foi divulgado como A Luta do Século do Nordeste.

O longa-metragem de Sérgio Machado traz um bom equilíbrio entre o cômico e o dramático. Se por um lado, é engraçado ver as brigas dos “inimigos” fora dos ringues, por outro, faz pensar sobre a desigualdade social e as possibilidades que ela tira de grandes talentos como Luciano e Reginaldo, tendo o boxe como metáfora das lutas que milhares de pessoas ainda vivem diariamente na tentativa de vender a pobreza, a exclusão, o analfabetismo e a ignorância.


CartazA Luta do Século
Direção: Sérgio Machado
Produtores: Diana Gurgel, Eliane Ferreira, Joana Mariani, Lázaro Ramos, Tânia Rocha
Produção executiva: Eliane Ferreira
Trilha sonora: Beto Villares, com colaboração de Jorge du Peixe, Russo Passapusso e Siba
Direção de fotografia: Breno Cesar e Jeronimo Soffer
Montagem: Hélio Vilela e Quito Ribeiro
Direção de produção: Chica Mendonça e Fabíola Aquino
Roteiro: Sérgio Machado e Eli Ramos
Design gráfico: Daniel Wildberger
Produção: Lata Filmes, Mar Filmes, Mar Grande Produções, Muiraquitã Filmes e Ondina Filmes
Coprodução: Canal Brasil
Distribuição: Vitrine Filmes