Cinema nacional

Mundo do trabalho e sexo sem tabus embalam o filme ‘Corpo Elétrico’

Relações homoafetivas, conflitos de classe, mulheres trans e diversão na periferia também compõem enredo da primeira ficção dirigida por Marcelo Caetano, que estreia nos cinemas nesta quinta (17)

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Gay

Kelner Macêdo, Lucas Andrade e Linn da Quebrada em cena de ‘Corpo Elétrico’

Nada de glamour, nem corpos suados perfeitamente esculpidos. Em Corpo Elétrico, o sexo entre homens não segue os estereótipos cinematográficos. Ao contrário. O primeiro longa-metragem dirigido por Marcelo Caetano traz às telas a vida de pessoas comuns que trabalham e se divertem sem problematizar questões de gênero, orientação sexual, raça ou classe social. A ficção que estreia nesta quinta-feira (17) acompanha Elias (Kelner Macedo), um jovem gay de 23 anos que divide seu tempo entre o trabalho em uma confecção de roupas e noites de sexo casual sem compromisso nem romantismo.

A descrição oficial do protagonista resume bem as questões que o longa abarca: “Elias ama de forma leve e solar. Ele tem 23 anos, é gay e nordestino. Usa cada encontro para moldar um pouco sua personalidade, se tornando uma espécie de prisma humano, capturando tudo que pode de seus parceiros. Ele transita entre o masculino e o feminino, pode ser o trabalhador empenhado, mas também um anarquista debochado. Dessa forma, Corpo Elétrico questiona também os lugares socialmente estabelecidos para gays, negros, mestiços, migrantes, operários.”

Como é estilista, assistente da irmã do dono da confecção, Elias fica em uma espécie de “meio-campo” entre os patrões e os funcionários do “chão de fábrica”. Mas é entre estes últimos que ele se sente à vontade de verdade, é com eles que toma café e com quem se diverte nas festas, sem se importar com o fato de os patrões se incomodarem com essa proximidade (mas sem provocar embates também).

Um de seus parceiros sexuais mais frequentes é exatamente um colega de trabalho, Wellington (Lucas Andrade), negro afeminado que quer deixar a confecção para brilhar nos palcos, assim como suas amigas Márcia Pantera (drag queen ícone em São Paulo) e da funkeira trans Linn da Quebrada. Assim que é contratado, Fernando (Welket Bungué), um imigrante africano de Burquina Faso, também chama a atenção do estilista, mas uma amiga acaba chegando primeiro. Apesar do trabalho exaustivo devido às encomendas de final de ano, a equipe da confecção sempre dá um jeito de se reunir para tomar uma cerveja e se divertir, seja como e com quem for.

Apesar das intenções evidentes do diretor, não há discursos sobre orientação sexual ou diferenças de classe. Os personagens simplesmente são o que são: vivem, trabalham duro, sobrevivem, se divertem, sentem atração… Coisas que não deveriam mudar de acordo com raça, situação social ou gênero. Chega até a ser um pouco ingênuo, mas o espectador tem a impressão que Corpo Elétrico é uma ode à liberdade de amar e à diversidade de uma São Paulo que não está nas revistas. “Meu desejo era falar de formas de amar mais livres e generosas, distante do amor romântico e seus conflitos já tão manjados”, afirma Marcelo Caetano.

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A drag queen Márcia Pantera, ícone da noite ‘glitter’ paulistana, faz parte do elenco

Para o diretor, uma das chaves de seu filme é o não-julgamento. “Corpo Elétrico é um romance de formação. Elias chega na fase adulta com muita dificuldade em balancear o mundo dos prazeres e o mundo do trabalho. Na verdade, ele apresenta resistência a viver determinados conflitos por não acreditar no valor que o sucesso profissional e a felicidade conjugal tem em nossa sociedade. É preciso amadurecer em uma outra chave. Buscar uma virada afetiva. Neste sentido, amo filmar os encontros. E os amo quanto mais improváveis eles são. Talvez essa seja a faceta política mais proeminente do filme, resistir a intolerância construindo elos entre pessoas socialmente distantes. Não os julgar. Nunca os julgar.”

Segundo Marcelo, o longa-metragem tem influência do poema Eu canto o Corpo Elétrico, de Walt Whitman, em que o autor americano celebra a beleza dos corpos, independente da idade, gênero, cor e forma. Assim como o poema, o filme exala sensualidade e sexualidade. “A escolha da palavra e a força da narração são estruturais no meu processo de falar desses corpos, desse grupo de pessoas. Elias é meu porta-voz: como a Sherazade, de Mil e Uma Noites, ele narra suas aventuras como se quisesse, pela sedução do relato, adiar o fim de sua juventude”, completa.

Corpo Elétrico estreou no Rotterdam Film Festival, na Holanda, e participou de outros festivais importantes, como o de Guadalajara, no México, no Festival de Hong Kong, o Off Camera, Krakow, na Polônia, BFI Flare, em Londres, no Outfest, de Los Angeles, entre outros. Ele estreia nesta quinta-feira nas cidades de Aracaju, Brasília, Florianópolis, Fortaleza, Goiania, João Pessoa, Maceió, Niterói, Porto Alegre, Recife, Rio Branco, Rio de Janeiro, Salvador, São Luiz, São Paulo e Teresina.

CartazCorpo Elétrico
Direção: Marcelo Caetano
Produção: Beto Tibiriçá, Marcelo Caetano
Produtor associado: Ivan Melo
Produtoras: Plateau Produções, Desbun Filmes
Produtora associada: África Filmes
Roteiro: Marcelo Caetano, Gabriel Domingues, Hilton Lacerda
Fotografia: Andrea Capella
Edição: Frederico Benevides
Direção de arte: Maíra Mesquita
Figurino: Flora Rebollo
Desenho de som: Lucas Coelho, Danilo Carvalho
Mixagem: Ruben Valdez
Música: Marcelo Caetano, Ricardo Vincenzo
Elenco: Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ronaldo Serruya, Ana Flavia Cavalcanti, Linn da Quebrada, Márcia Pantera, Henrique Zanoni, Nash Laila, Georgina Castro, Evandro Cavalcante, Emerson Ferreira, Ernani Sanchez
Distribuição: Vitrine Filmes
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 94 minutos